Câncer de próstata é o 2º que mais mata no país
O câncer de próstata é a doença que mais assusta e preocupa os homens brasileiros. Ela ocupa o segundo lugar na lista das que mais causam óbitos no país, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca).
O problema não apresenta sintomas, segundo o urologista de Francisco Beltrão Luís Fernando Dip. E o diagnóstico só pode ser feito com exame de sangue (o conhecido PSA) e o toque retal. Apesar do preconceito, este é um assunto que está ganhando cada vez mais credibilidade do público masculino.
Em entrevista ao JdeB, dr. Dip incentiva a rotina clínica e explica sobre o que ocorre quando é diagnosticado um caso de câncer na próstata. Apesar das soluções e do avanço da medicina, o que parece mesmo livrar-nos deste mal é a prevenção. As visitas ao urologista devem ser feitas anualmente a partir dos 45 anos (ou dos 40 anos para quem tem casos na família).
Confira mais detalhes no bate-papo a seguir.
JdeB – Quais os avanços no diagnóstico do câncer de próstata?
Dr. Dip – Várias pesquisas vêm sendo feitas. Os estudos sobre marcadores moleculares são os que mais geram custos pra universidades e governos. É que se acredita que o câncer tem este componente genético e uma maneira de se evitar ou de se diagnosticar precocemente seria estudando estes marcadores. São estudos, mas que não têm nada concreto e adequado pra ser utilizado na prática clínica.
O que nós temos e que é um excelente marcador é o PSA (exame de sangue). Ele vem sendo utilizado há 30 anos como um marcador específico da próstata. A gente leva em consideração uma análise pormenorizada e outros fatores como a idade e raça do paciente para que a se possa fazer o diagnóstico. Mas o PSA é um exame extremamente barato, rápido e eficaz pra fazer o diagnóstico do câncer de próstata, associado ao toque retal.
JdeB – Explica melhor o que é o PSA.
Dr. Dip – PSA (Antígeno Prostático Específico) é uma proteína produzida pela próstata. E o câncer acaba fazendo com que o PSA cresça mais rápido. Uma próstata maior com o crescimento das células também tem um PSA mais elevado. E o câncer da próstata é uma proliferação exagerada destas células que perdem essa condição de ter um funcionamento normal. O que acontece é que acontece alguma mutação e isso faz com que a célula se multiplique mais rápido. E essa multiplicação exagerada faz com que o PSA suba.
JdeB – Ainda tem resistência quanto ao toque retal?
Dr. Dip – Percebo no cotidiano do consultório, onde é possível ter um diálogo maior, que é bem aceito. As pessoas estão se conscientizando que é necessário. A informação é difundida por vários meios. Este acesso fácil a informação faz com que o homem vá lendo notícias e perceba que a doença é significante e que ele precisa ir atrás pra ter o seu diagnóstico. O homem muitas vezes não quer procurar o médico se não tem sintomas. E o que eu enfatizo aos doentes é que o câncer de próstata não dá sintoma. Quando dá sintoma, já está avançado.
JdeB – A melhor maneira de se proteger é a prevenção?
Dr. Dip – Diagnóstico precoce a partir dos 45 anos. Com história familiar e parente de primeiro grau com câncer de próstata, este homem tem que ser avaliado a partir dos 40 anos. Através do exame do PSA e do toque retal. Às vezes perguntam se não dá pra fazer só o exame de sangue (o PSA), e eu explico que não dá pra fazer não. Até 25% dos doentes com PSA normal tem câncer na próstata. Por isso o toque é importante porque se alcança a parte da periferia da próstata que é onde o câncer se desenvolve em 80% das vezes. E cada vez mais, fazemos biópsia em homens com PSA baixo.
JdeB – Mas é um sinal de que os homens estão mais preocupados?
Dr. Dip – Nesta geração de meia idade, a informação está mais liberada. As famílias estão mais abertas, têm mais diálogo. São vários tabus que vem sendo quebrados em relação a outros tipos de preconceitos também. A própria homossexualidade, o racismo, isso tudo é diferente. A história do câncer é a mesma coisa. Vem tendo esta aceitação de que é necessário e, assim como a mulher vai ao ginecologista o homem tem que procurar o urologista e fazer os exames necessários. E se não tiver nada? Ótimo.
JdeB – E com um diagnóstico de câncer, como é que se deve lidar com isso?
Dr. Dip – Quando tenho o diagnóstico, isso tem que ser passado pro doente. Causa impacto porque a gente vem fazendo cada vez mais diagnóstico precoce. Antigamente os homens tinham diagnóstico com 70 anos, hoje estão tendo com 50 anos. Mas antigamente 70% dos homens morriam de câncer de próstata. O rastreamento com PSA e o toque possibilita cura de 70 a 80% dos doentes. A minoria morre por conta da doença. Estes doentes, muitas vezes têm a doença, mas controlada. Eles vêm a morrer por outras causas, como por exemplo, doenças tromboembolíticas e acidente de trânsito, e não do câncer, mas com o câncer.
JdeB – E quais as consequências do câncer?
Dr. Dip – O câncer costuma a se implantar em outras células do corpo assim como qualquer outro câncer. A gente chama isso de metástase. Estas células caem na corrente sanguínea ou nos vasos linfáticos e comprometem outros órgãos do corpo e, no homem, o mais comum é o comprometimento dos ossos. Principalmente coluna, bacia e fêmur. Uma vez implantada nestes ossos, é uma doença avançada. Hoje é considerado menos comum.
JdeB – E sobre o tratamento, como é que acontece?
Dr. Dip – Tem os tumores intermediários que são os que estão começando a sair da próstata e a se espalhar para algum outro órgão da bacia. Estes são os tumores localmente avançados que tem tratamento curativo menor que o tumor localizado. A expectativa de cura é inversamente proporcional. Para os tumores localizados, temos basicamente três tipos de tratamento. O que nos dá mais segurança e o que é mais feito pelos oncologistas e urologistas é a cirurgia onde se retira toda a próstata. A vantagem é que se tira toda a doença. E esta próstata será analisada de novo. O patologista reavalia a peça cirúrgica (a próstata) e pela biópsia subestadia a doença. A radioterapia também é um tratamento seguro, mas deve ser bem discutido e explicado aos pacientes.
JdeB – E as desvantagens da retirada da próstata?
Dr. Dip – O que mais preocupa os homens é a impotência que pode ocorrer em até 30, 40% dos doentes e varia de acordo com a idade e a função erétil prévia. A segunda complicação mais comum é a incontinência urinária que compromete de 5% a 10% dos doentes.
JdeB – E como fica o funcionamento?
Dr. Dip – Como é tirada a vesícula seminal que é quem produz a maior parte do líquido seminal e ligado o ducto deferente (que traz o espermatozóide), este homem fica infértil. Mas se ele quiser poderá fazer punção pra retirada do espermatozóide para uma fertilização assistida. Mas a maioria dos homens já tem prole constituída. A ejaculação vai ser seca, não afeta o orgasmo. No homem o orgasmo vem junto com a ejaculação, porque o orgasmo é via sistema nervoso central.
JdeB – E quais os métodos pra se resolver a vida sexual deste homem?
Dr. Dip – Primeiro precisamos lembrar que o feche cavernoso que dá ereção do homem passa bilateralmente na próstata, a dois ou cinco milímetros de distância. Por isso que a impotência é inerente ao ato cirúrgico, à potência prévia do doente é a idade. Se ele for mais novo, a chance de ficar potente é maior. Mas a zona de trabalho pra poupar o nervo é mínima, por isso que este nervo pode ser comprometido de um lado ou dos dois lados. O ato cirúrgico em si já nos prediz se o doente ficará potente ou não, porém isto é variável. Quando o doente evolui com impotência tem que ser avaliado o grau de impotência, o grau de ereção e de rigidez peniana. Pra tratar tem algumas maneiras, seja com medicamento oral, seja com tratamento de substâncias vasodilatadoras no corpo cavernoso ou com a colocação das próteses penianas.
JdeB – Como funcionam as próteses?
Dr. Dip – A prótese são dois cilindros colocados dentro do corpo cavernoso. Tem as próteses maleáveis aramadas e siliconadas em volta, nesta o pênis fica semi-ereto e o custo menor. Já as próteses infláveis, que são importadas, chegam a custar de 30 a 40 mil reais, de acordo com a indústria. A inflável tem vantagem que o pênis fica flácido. Com a flácida não acontece isso, é colocado um botão na bolsa escrotal com reservatório com soro fisiológico que é jogado pra dentro do cilindro e que provoca a ereção. O homem tem a relação e depois, dobrando o pênis, o soro volta para o reservatório.




