Preservação da fertilidade: a gravidez deixada pra mais tarde
A novidade promete revolucionar o modo de planejar uma família. Os casais que querem aproveitar mais alguns anos a vida a dois ou priorizar ambições profissionais e pessoais já podem deixar a gravidez pra mais tarde. A possibilidade está na preservação da fertilidade da mulher, apresentada no Sudoeste pelo médico Marcelo Righi, especialista em reprodução humana assistida.
Para os homens, a técnica é utilizada há mais tempo. Congelar os espermatozóides é relativamente mais fácil. A durabilidade de óvulos agora surge como um complemento para que eles e elas possam “se garantir férteis” por mais tempo. É o que a medicina chama de criopreservação.
“A preservação de fertilidade é algo que está em alta no mundo inteiro e agora chegou ao Brasil, é como se fosse um amadurecimento dos tratamentos de reprodução assistida”, comenta o médico Marcelo Righi.
Na prática, a mulher congela os seus óvulos e pode utilizá-los depois dos 40 anos, uma idade em que já nem se pensa mais em gravidez pelo método natural. A vantagem da preservação da fertilidade é que a gestação estará sendo concebida a partir de um óvulo maduro, com a mesma eficiência de quando foi congelado.
A iniciativa no meio científico, segundo Marcelo, surgiu a partir da necessidade de se oferecer esta possibilidade aos pacientes em tratamentos de doenças que afetem a fertilidade. Deu tão certo que passou a ser apresentada para todos os interessados em deixar a gravidez pra mais tarde.
Veja os detalhes na entrevista do JdeB com médico Marcelo Righi.
JdeB – O que é que se pretende com a preservação da fertilidade?
Dr. Marcelo – Com a preservação da fertilidade, a gente quer fazer com que uma pessoa que quer ter filhos mais tarde ou que por algum problema de saúde venha a ter dificuldade pra engravidar futuramente consiga preservar os seus gametas hoje. Pra poder engravidar daqui a cinco, seis ou dez anos com uma boa qualidade de um embrião.
JdeB – Mas o que é que pesa numa gravidez?
Dr. Marcelo – Hoje os nossos limites estão relacionados, no caso da mulher, com a idade dos óvulos dela. Uma mulher de 43 anos é considerada uma mulher de idade avançada pra engravidar. Por exemplo, se aos 30 anos, agente conseguisse tirar óvulos desta mulher, congelar estes óvulos e ela, aos 46 anos, quisesse engravidar, ela poderia. Porque ela iria engravidar com óvulos com uma idade de 30 anos com um risco menor de ter bebê com problemas e de abortamento.
JdeB – E o que acontece com este óvulo?
Dr. Marcelo – É como se nós pegássemos este óvulo e ele ficasse parado no tempo. Esse processo começou a ser oferecido pra homens e mulheres que tem problemas de saúde e que vão precisar fazer uma cirurgia de retirada de um pedaço de ovário ou uma quimioterapia por algum tipo de câncer, por exemplo, e que são pessoas que vão ficar estéreis. Tem um caso bem recente, de uma paciente jovem com câncer de mama que precisa fazer quimioterapia. Mas a quimioterapia vai destruir os óvulos dela. Como existe a possibilidade de retirar os óvulos dela agora, armazenar, ela vai poder fazer o tratamento de quimioterapia, se curar deste câncer e daqui a cinco ou dez anos conseguir ter os seus filhos com estes óvulos que estão congelados. Nós conseguiremos preservar a fertilidade dela.
JdeB – Mas isso já era possível para os homens?
Dr. Marcelo – Entre os homens isso é difundido há mais tempo. Mas com a mulher a gente não tinha tanto esta possibilidade porque o óvulo, a célula feminina, é muito difícil de ser armazenada. Mas agora temos técnicas novas pra conseguir congelar. A gente consegue criopreservar este óvulo que pode ser usado futuramente. Tudo isso é feito dentro do laboratório de reprodução assistida. O óvulo fica armazenado em nitrogênio, mas o processo de congelamento do óvulo é bem diferente do espermatozóide.
JdeB – O que diminui as chances de uma mulher engravidar?
Dr. Marcelo – A idade do óvulo. Se ela tiver 45 anos, mas tiver um óvulo congelado de quando ela tinha 30 anos, é como se ela estivesse engravidando aos 30 anos. Mais importante que o corpo, é a idade do óvulo. É por isso que a gente vê mulheres de 50 anos que conseguem engravidar. É difícil, mas conseguem porque estão usando óvulos de mulheres mais jovens.
JdeB – Mas isso é comum nos grandes centros?
Dr. Marcelo – Em São Paulo já existe um trabalho grande em relação à preservação da fertilidade. Mas nós já conseguimos fazer isso aqui, com a clínica de Pato Branco. Acho que homens e mulheres têm que começarem a pensar. A criopreservação precisa ser difundida entre urologistas e oncologistas pra que se crie a mentalidade de se oferecer aos pacientes a possibilidade de preservar a sua fertilidade. Tivemos um caso, em São Paulo, de uma paciente que resolveu processar o oncologista porque teve que fazer um tratamento de quimioterapia e o oncologista não falou que ela podia preservar a fertilidade dela. Claro que é um absurdo porque o oncologista estava preocupado em salvar a saúde dela, mas ela descobriu que existia a possibilidade de ela ter preservado e por desconhecimento da classe médica isso não foi oferecido pra ela.
JdeB – Já tem casos assim aqui na região?
Dr. Marcelo – Nós temos um caso de Francisco Beltrão que um colega urologista me encaminhou, um rapaz com câncer de testículo. Ele está podendo coletar seus espermatozóides para preservar sua fertilidade.
JdeB – Nas mulheres, como é o preparo pra este processo?
Dr. Marcelo – A gente usa um estímulo de ovulação como se ela fosse fazer, por exemplo, uma fertilização in vitro. Usamos medicamentos para ela produzir quatro, cinco ou dez óvulos. Durante a coleta, procura-se identificar os melhores óvulos e estes é que vão ser armazenados. E a mulher pode fazer quantas sessões quiser, depende de quantos óvulos ela quer armazenar.
JdeB – Qual é a segurança de se engravidar no futuro?
Dr. Marcelo – No futuro, a probabilidade de engravidar é a probabilidade que existe na natureza, não é maior e nem menor. Se ela fizer uma fertilização in vitro futuramente, para engravidar, as possibilidades de se conseguir uma gravidez variam em torno de 40%.
JdeB – E como ficam os custos disso tudo?
Dr. Marcelo – Ela vai ter um custo inicial do processo, de medicamento pra estimular a ovulação e de coleta dos óvulos. Posteriormente ela vai ter uma semestralidade de manutenção do congelamento, que é a manutenção da compra do nitrogênio líquido. Pra coletar, tem o custo da medicação e da punção, em torno de 3 a 4 mil reais. O armazenamento, em torno de 300 a 500 reais a semestralidade.





