Na utopia de uma sensação de perseguição eterna, desafiam as leis, confrontam as autoridades e montam seu show particular, pregando para os convertidos que ainda restam.
A coluna desta semana é dedicada a quem, com sua inigualável inteligência e criatividade, sempre inspirou a todos que escrevem e opinam. Comigo não foi diferente. Ricardo Boechat, jornalista e ser humano, fará muita falta.
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Quando se fala de PT é impossível não pensar imediatamente em Luiz Inácio Lula da Silva. Lula, “político raiz” que é, não deixa de aparecer no meio político nem mesmo quando está fora de cena, preso e condenado. O Partido dos Trabalhadores sempre teve, no DNA de sua comunicação institucional, política e eleitoral, o jeito humanizado de falar com as pessoas. O grande problema é quando essa humanização se torna algo dramático, apelativo, repetitivo e até mesmo sem sentido em algumas situações. Há alguns anos esse perfil, como parte de uma atitude revolucionária, até poderia atrair e convencer. Mas hoje, em plena era da informação, tal discurso acaba saturando a tudo e a todos, sendo realmente duro de engolir. Os episódios são muitos. E, na utopia de uma sensação de perseguição eterna, desafiam as leis, confrontam as autoridades e montam seu show particular, pregando para os convertidos que ainda restam – aqueles que sempre estarão ali. Se tratando de Brasil, ao ponto que chegamos, nada mais poderia surpreender. Mas tudo isso chegou ao seu grande ápice no dia em que a prisão do líder máximo petista foi decretada, iniciando ali o clímax da história. Nesse dia, como todos bem lembram, um simples ato judicial – em que para a maioria das pessoas sempre ocorre dentro de uma mínima normalidade – se transformou em um espetáculo, uma encenação recheada de discursos, grande público e uma confusão geral em que ninguém entendia mais nada. Sim, tudo isso em pleno século 21. Depois, já durante o cumprimento da pena, veio a insistência em manter Lula como candidato à presidência. Lembram quando eu disse que havia coisas que não faziam sentido? Pois é, tudo isso na velha balada de tentar explicar o inexplicável. Mas não é questão de gostar ou não, de concordar ou não. É apenas questão de reconhecer o óbvio e vir para a realidade. É aquela tão falada retratação que o PT deixou de fazer e, muito por isso, hoje está na decadência que se colocou. Seguindo nesse ritmo e insistindo em remar contra a maré, mesmo quando todo o navio já estava no fundo do mar, foi que um partido tão tradicional e que já teve tanto poder deixou as oportunidades de reconstrução escapar entre os dedos. Claro, manter a essência é importante. Mas desde que a adapte aos novos tempos e, principalmente, aplique-a com coerência e bom senso. Mas onde eu quero chegar com toda essa retrospectiva? A conclusão a ser observada é tão simples quanto prevista. Há alguns dias, Lula perdeu um de seus irmãos. Em mais uma oportunidade de fazer diferente, fizeram igual. Independentemente da decisão da justiça quanto a liberação para ir ao velório – e isso não me cabe julgar aqui –, o fato acabou novamente sendo usado politicamente. Porém, em um caso como esse, os limites da política são extrapolados e a apelação corrói a credibilidade mais uma vez. O PT, se ainda quiser reconquistar um espaço de destaque na democracia brasileira, precisa reinventar não apenas sua imagem e sua reputação, mas também a forma de ver os fatos, agir e se comunicar, deixando de pensar apenas nos seus e, talvez algum dia, voltar a ter o respeito que um dia já teve perante a maioria da população.





