
Esperança EC no Regional de Amadores, ao lado do amigo Paulo
Miranda, zagueiro do São Paulo, em Chapecó, na
terça-feira, um dia antes do jogo na Arena Condá.
Em 1997, o Vasco da Gama foi campeão brasileiro de forma implacável. O atacante Edmundo foi o artilheiro com 29 gols, um recorde para a época. Dois anos mais tarde, o Animal passou a fazer dupla de ataque na equipe cruzmaltina com o baixinho Romário. Paralelo a isso, o casal beltronense Neusa e Alderi Lopes, que trabalhava na Churrascaria Kilo Grill, dentro do complexo do Estádio São Januário, do Vasco da Gama, estava de passagem pela loja oficial do clube quando um dos atletas mais badalados entra no local para olhar a vitrine. Ao pé do ouvido, Aldeir cochicha para a esposa: “Aquele ali é o atacante do Vasco”. Ingênua, sem acompanhar muito o futebol, dona Neusa chega para o jogador e pede: “Você é o Romário?” “Não, eu sou o Edmundo”, responde o atacante, talvez estranhando a confusão.
Confundir Romário com Edmundo é algo raro no país do futebol, e embora trabalhassem dentro de um clube, os dois beltronenses não se importavam muito com os acontecimentos do mundo da bola. Mas, sem perceber, o filho do casal, Vagner Lopes, se encantava com o mundo que o cercava. Dormia e acordava com a bola, queria ser jogador de futebol. E foi, ou melhor, ainda é. Mesmo que não seja mais profissional, o goleiro Vagner é um dos melhores da região Sudoeste. Hoje ele defende o Industrial A no Campeonato Varzeano de Francisco Beltrão e o Esperança EC, de Nova Esperança do Sudoeste, no Regional de Amadores da LBF (Liga Beltronense de Futebol).
Vagner morou com os pais no Rio de Janeiro dos 4 aos 8 anos (1994 a 1998). Quando voltou para Francisco Beltrão, sua terra natal, começou a treinar no CTAF (Centro de Treinamento Atletas do Futuro), com o professor Altamiro Dias, o Fio. Na época era zagueiro, mas acabou sendo improvisado como goleiro em uma competição e não saiu mais da posição.

Carreira curta
Em 2002, Vagner ganhou a sua primeira chuteira. Quem comprou foi o presidente da associação de pais dos Atletas do Futuro na época, Névio Ghisi. Um ano mais tarde, com 13 anos, o goleiro já estava desanimado com o futebol, pensando em parar. “Meus pais nunca gostaram de futebol e, como eu não tinha incentivo dentro de casa, ficava difícil continuar treinando sem condições. Foi a primeira vez que pensei em parar”, lembra Vagner. Mas o seu time foi fazer uma preliminar do jogo entre Paraná Clube e Cruzeiro, na Vila Capanema, pelo Campeonato Brasileiro. O estádio estava lotado e os Atletas do Futuro jogavam contra o sub-13 do Paraná Clube. “Eu peguei um pênalti e a torcida foi ao delírio. Aí eu ganhei uma injeção de ânimo e voltei a treinar forte.”
Em 2005, com 15 anos, Vagner foi jogar no Operário, de Ponta Grossa. Em 2006 e 2007, ele e o amigo Cleverson Stein, o Canhoto, hoje jogador do Cresol/Marreco Futsal, foram jogar no Ricardinho Sports, em São Miguel do Iguaçu. Era um projeto de Ricardinho, ex-meia do Corinthians, coordenado pelo seu irmão, Rodrigo. Foram dois anos no clube e eles eram companheiros de quarto do zagueiro Paulo Miranda, hoje no São Paulo, e do volante Bruno Henrique, do Corinthians. “Temos contato com eles até hoje, são muito humildes, não mudaram nada.”
Em 2008, Vagner foi jogar no Beletti Sports, em Cascavel. Em seguida, foi para o REC, de Rondonópolis (MT), onde jogou com o meia Valdívia, hoje no Internacional. Foi neste clube que Vagner disputou sua primeira partida pelo profissional. Era um clássico contra o União que terminou em 1 a 1. “Os dois goleiros adultos estavam machucados e eles me chamaram. Eu era o goleiro do sub-18. Estádio lotado, a perna tremia. Mas fui bem, foi uma grande experiência”, recorda.
Vagner foi campeão da Terceirona de 2009 com o Pato Branco. No ano seguinte, permaneceu na equipe para a disputa da Divisão de Acesso. Depois do Paranaenese, foi para a Bahia jogar no Fluminense de Feira de Santana. “Foi o melhor momento da minha carreira, fizemos um amistoso contra o Vitória no Barradão. Estádio lotado de novo. Fechei o gol, foi a melhor partida da minha vida. Eu tinha 20 anos e, pela primeira vez, me senti um jogador de verdade.”
Vagner lembra também de outro jogo que fez contra o Bahia. “Tinha aquele atacante Souza, que hoje está no Criciúma. Era o mais badalado do jogo, isso me motivava a continuar.”
Fim da carreira profissional
Vagner sempre foi um goleiro muito dedicado, que gostava de treinar e se cobrava muito dentro de campo. Mas aos 20 anos as dores nas costas e a distância da família o fizeram parar. “Eu estava treinando uma semana e ficava outra parado. Ao invés de progredir, eu sentia que estava regredindo. Já fazia seis anos que estava fora de casa, então resolvi parar”, comenta Vagner, que naquela época começou a trabalhar como vendedor da Renault Granvel, em Francisco Beltrão, e está nesta profissão até hoje. “Estou muito bem hoje, mas quando vejo meus amigos ganhando muito dinheiro em grandes clubes, bate o arrependimento de ter parado. Faltou alguém chegar pra mim naquele momento e dizer pra eu ter mais paciência, insistir um pouco mais. Isso é muito importante para a carreira de um jovem atleta. Todos pensam, em um momento ou outro, em desistir. O ritmo é muito forte para um adolescente. Mas os que continuam são os que se dão bem.”
O cobertor de Paulo Miranda
Jonathan Doim é natural de Castro e chegou ao Ricardinho Sports, em São Miguel do Iguaçu, para jogar de atacante. Segundo Vagner, na primeira entrada ele deu um carrinho na bola. Então disseram para ele que a sua posição seria a de zagueiro. “Mas Jonathan Doim não era nome de zagueiro. Como ele é muito parecido com o Paulo Miranda, ex-jogador do Vasco, Cruzeiro e Atlético-PR, ganhou o apelido”, conta Vagner. Esse mesmo Paulo Miranda, do Vasco, foi o que veio treinar o Francisco Beltrão FC na Divisão de Acesso do Paranaense de Futebol.
De origem muito humilde, Paulo Miranda era colega de quarto de Vagner. Em uma noite fria, o goleiro emprestou um cobertor para o zagueiro, que não tinha com o que se cobrir no alojamento. “Eu tinha um sobrando e vi ele tremendo de frio. Emprestei o cobertor. Pra mim, na época, parecia algo normal. Mas ele não esquece disso até hoje. Quando o Paulo Miranda estava no Palmeiras, em 2008, mandou uma mensagem pra mim dizendo que não esquecia de quanto eu tinha ajudado ele”, diz Vagner.
Na quarta-feira, dia 22, a Rádio Onda Sul FM transmitiu, direto da Arena Condá, o jogo entre Chapecoense e São Paulo, em Santa Catarina. Em entrevista exclusiva ao jornalista Everton Leite, Paulo Miranda lembrou da história com o beltronense. “Os moleque (Canhoto e Vagner) jogavam comigo em São Miguel do Iguaçu e merecem muito o meu respeito pela postura que eles têm. Estou muito feliz de ter amizade com eles”, disse Paulo, que também lembrou da história do cobertor. “Cheguei desconhecido em São Miguel e o Vagner teve a hombridade de me emprestar o cobertor”, afirmou Paulo Miranda, antes de jogar a chuteira para a torcida do São Paulo. Detalhe: quem pegou a chuteira foi o torcedor Rodrigo Inhoatto, outro beltronense que estava na Arena Condá.




