Jovens da classe C não querem parar de crescer economicamente na pirâmide social

 

Jociane.

Os jovens da nova classe média brasileira são mais independentes, sabem o que querem na vida desde cedo, não medem esforço para conquistar um bom salário e subir de posição na pirâmide social. Geralmente, são filhos de famílias humildes, oriundos de escolas públicas, bancaram os próprios estudos ou receberam bolsa na faculdade, estão antenados com as novas tecnologias e não se contentam com facilidade com os serviços públicos de modo geral.

A expectativa é tão grande que o jornal espanhol El País chegou a produzir uma matéria dizendo que “Os filhos da classe C mudarão o Brasil”. A reportagem, de fato, traz números impressionantes. Se a classe média brasileira fosse um país, seria a 12ª nação do mundo em população – equivalente à Alemanha ou duas Austrálias. No que se refere ao consumo, ela estaria em 18º lugar e integraria o G20. São 108 milhões de brasileiros que compõem a nova classe média, o que corresponde a 54% da população.
Segundo o sociólogo Adilson Alves, a nova classe média é dividida pelos estudiosos em quatro grupos: os Promissores, os Batalhadores, os Experientes e os Empreendedores. Os jovens estão no grupo dos “Promissores”. 

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Rodrigo

Conforme dados do Instituto Data Popular, são 23 milhões de pessoas com idades entre 18 e 30 anos. Elas representam 19% da nova classe C, com idade média de 22 anos. “São jovens que estudaram mais que seus pais, em média, 68% já possuem escolaridade acima deles, contudo, segundo o pesquisador Jessé de Sousa, da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), esses jovens herdaram de seus pais valores como o de trabalho duro e continuado aliado aos estudos como forma de melhorar as condições de vida”, diz Adilson. Outra característica é que eles valorizam a educação e os ensinamentos recebidos em casa e têm uma forte vinculação com a comunidade onde moram.

De acordo com ele, estes jovens formam o grupo social que mais se beneficiou do crescimento econômico e têm um potencial de consumo de R$ 130 bilhões por ano, tornando-se nos principais clientes dos centros de comércio. “É um grupo social que tem atraído a atenção de pesquisadores por ser dominante tanto do ponto de vista eleitoral quanto econômico.”  

 

William.

Mais incentivos e programas para o jovem

A advogada Jociane de Miranda Antunes, 26 anos, moradora de Dois Vizinhos, diz que o maior anseio destes jovens é a ascensão profissional e, consequentemente, melhoria financeira a fim de ter uma vida mais confortável e proporcionar a sua família aquilo que, por falta de possibilidade, jamais teve. Jociane é oriunda de escola pública e se encaixa bem no perfil do jovem da classe C. A mãe, do lar, e o pai, aposentado, durante boa parte da vida trabalharam como vendedora autônoma e pedreiro, respectivamente. 
Na opinião dela, a vida do jovem de menor poder aquisitivo está melhorando em função dos incentivos, através de programas educacionais, de capacitação profissional e possibilidades de ingresso em universidades. Jociane lutou muito para chegar onde está, cursou a faculdade com bolsa de estudos e trabalhou para custear as despesas com material e transporte. “Para chegar até onde cheguei, foi muito difícil. Continuo trabalhando e estudando para manter uma vida estável e crescer cada vez mais profissionalmente.”

Educação pública precisa melhorar
Willian Amann, 22 anos, professor de educação infantil, destaca que as condições do jovem que está em ascensão na sociedade melhoraram em vários aspectos, contudo, na opinião dele, o maior gargalo é o sistema educacional público. “Conseguir uma vaga em universidade pública, em cursos mais renomados como Engenharias, Medicina, Direito e outros desse nível, é muito difícil pela grande concorrência nas disputas por essas vagas. O que nos obriga a ingressar em universidades particulares, em geral com altas mensalidades.” A mãe dele é costureira e o pai, marceneiro. 

Na opinião de Willian, muitos desistem do ensino superior porque não conseguem conciliar a jornada dupla de trabalho e estudo. “Um ponto fundamental é a parte financeira. Para poderem adquirir bens ou estilos de vida que estão acima do que mantêm, resolvem trabalhar cedo, para conquistarem essas coisas mais rapidamente e, com isso, muitos já formam famílias, adiando assim seus estudos e a grande maioria nunca mais consegue voltar.”

Força de vontade
Garra e determinação são elementos que acompanham William em sua jornada desde a infância. No ensino médio, conciliava trabalho e estudo e ainda assim conseguia ser um aluno exemplar. Trabalhava das 7 às 17 horas e seguia do trabalho direto para o colégio. “Muitas vezes sem dar tempo de tomar um banho, mas ainda assim era vantajoso, pois poderia descansar um pouco para aguentar acordado a noite cheia de informação que viria. Apesar de muitas vezes pensar em desistir, segui em frente e fui o primeiro da família a ter concluído o ensino médio.” William passou em vestibulares de três cursos em universidades federais e em faculdades particulares com bolsas parciais, passou no concurso público e garantiu uma certa “estabilidade financeira”. Ele cursou técnico de Formação de Docentes, está concluindo o curso de Letras e a meta é o mestrado. 

Para Rodrigo Montanari, 27 anos, professor de Educação Física, a obrigação de ter que trabalhar muito cedo limita a capacidade do jovem para se dedicar aos estudos. “Conciliar estudo e trabalho é muito difícil, principalmente se você precisa do trabalho para se manter.” Com muito esforço e dedicação, Rodrigo ingressou no ensino superior, com auxílio do programa ProUni, do Governo Federal, e decidiu cursar Educação Física porque sempre foi ligado ao esporte. “Se não fosse o ProUni e minha boa nota obtida no Enem, não poderia ingressar na faculdade, por não poder custear o curso.” Desde maio, ele mora em Ampere e trabalha com educador físico.

Trabalhar, estudar e vencer
Rodrigo tem uma história que se assemelha à de milhares de brasileiros que começaram trabalhar na infância e na adolescência para ajudar com as despesas da casa. “Tive que abrir mão do que gostava de fazer, que era jogar futebol, para trabalhar, porque meus pais não conseguiam manter a mensalidade da escolinha de futebol e mais as chuteiras, uniformes e as viagens. Lembro que, quando estava no colégio, muitas vezes tive que vender picolé, pastel, suco, cortar grama, capinar lotes, trabalhar de servente de pedreiro. Muitas destas atividades mantive até o segundo ano da faculdade.” 

Segundo ele, os jovens que crescem com esse currículo tendem a valorizar mais suas conquistas e também têm mais afeto por seus pais. A mãe dele é aposentada como bibliotecária concursada pelo Estado e o pai, funcionário de uma empresa de transporte coletivo. 

Voluntário: forte e focado
Além do trabalho, Rodrigo mantém um projeto voluntário em Francisco Beltrão, nos finais de semana, com aulas de atletismo, futsal e futebol. “Este projeto é o que mais amo em minha vida. É o que tenho mais orgulho. Sempre digo que foi isso que me manteve forte, focado e dedicado à minha carreira.” 

Já passaram em torno de 2.000 crianças pelo projeto. O rapaz está esperando a aprovação do artigo para iniciar o mestrado. “Não quero parar de estudar, tenho muito a aprender ainda. Quero ter minha casa própria, minha família e, o mais importante de tudo, ser feliz.”

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