Um mundo melhor de se ouvir

Algo que parece tão teórico, mas também tão prático. Um negócio que, de forma muito simples, é chamado de “paisagem sonora”.

Nestes tempos de total isolamento social (ou quase), tão diferente e tão único no nosso dia a dia, a parte boa fica por conta da possibilidade de poder aproveitar o tempo para — além de curtir a casa, a família e fazer o que se gosta — observar alguns detalhes que antes passavam absolutamente despercebidos durante a correria da rotina. Aliás, acho que tudo isso também nos abre um espaço para conhecer e aprender sobre novos temas, novas visões e novas formas de exercer alguma função que possa melhorar o nosso mundo. Eu, particularmente, andei me aprofundando em uma questão extremamente presente, mas quase invisível ao mesmo tempo. Algo que parece tão teórico, mas também tão prático. Um negócio que, de forma muito simples, é chamado de “paisagem sonora”, conforme definição do educador musical e ambientalista canadense Murray Schafer — e é esse pensamento que queria dividir por aqui. Por incrível que pareça, a definição desse tema é muito mais descomplicada do que parece. Diria até mesmo que é completamente literal: a paisagem — aquilo que teoricamente vimos em qualquer ambiente que estamos — porém na sua versão sonora. Ou seja, todo o conjunto de sons e ruídos que ouvimos quando estamos em casa, na rua, no trabalho, na natureza ou em algum local comercial. O motor dos carros, a máquina, a gota de chuva, os passos de um salto alto e as conversas. Tudo forma uma paisagem sonora que — na grande maioria das vezes — é completamente incomodativa, irritante e até mesmo prejudicial. Daí surge uma necessidade eternamente esquecida: aquilo que costumam chamar de ecologia acústica, ou seja, uma melhor sustentação do combate à poluição sonora, um equilíbrio. Tendo o exemplo de lojas, shoppings e outros tipos de estabelecimentos comerciais ou empresariais, percebe-se uma busca cada vez maior por mais música. Mais, mais e mais. Uma disputa de quem tem o som mais alto, de quem vibra mais, de quem – acha – que vai atrair mais atenção. No meio de tudo isso, ninguém pensa em um equilíbrio sonoro que, além de agradável, preserva nossa saúde auditiva em longo prazo e até evita certas dores de cabeça. Antes que eu me esqueça, um rápido e sensacional exemplo: existe um caso de sucesso, que vi em um vídeo na internet, de um projeto coordenado por um grande profissional chamado Paulo Dytz, no qual sua empresa foi chamada para criar um projeto sonoro para ambientação de um shopping. O pedido do shopping? Música, música, mais música! Mas a grande questão era: em um ambiente tão movimentado e cheio de poluição sonora, mais música seria a solução? Obviamente não. A conclusão foi que, depois do mapeamento de toda a área, seria implantado um software no sistema de som para, conforme aumentassem os decibéis dos ruídos do local, alguns instrumentos da música ambiente seriam paulatinamente silenciados para que não brigassem com o som natural. Tá aí… a busca por um mundo ecologicamente mais saudável a agradável aos nossos ouvidos. Um mundo melhor de se ouvir.

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