O artista pode estar em casa, o espectador também. A produção pode ser a mais simples possível. A intenção, a melhor e mais sincera.
Sabe como é… há males que vêm para o bem. Não é fácil para ninguém ficar o tempo todo em casa, em isolamento, até mesmo para quem pode. Porém, momentos como esse – além de nos servirem como um ótimo período para refletir, repensar e recalcular muitas coisas – também podem nos trazer novas descobertas. E muitas delas podem ser (bons) caminhos sem volta. Neste período e tudo que o envolve, acho que o fator mais decisivo para que tudo pudesse acontecer dentro de uma possível adaptação foi a tecnologia. Chamadas de vídeo para trabalhar e também para matar a saudade, nuvens e plataformas para transferência de arquivos, aulas virtuais e, claro, muito conteúdo de entretenimento. Afinal, além de ajudar a manter a mente saudável, a geração de mídia e a exploração (no sentido positivo da palavra) desse tipo de “evento” não poderia parar. E não seria uma pandemia que pararia algo tão camaleônico como a comunicação. O principal produto publicitário desta fase da história dominada pelo coronavírus sem dúvida nenhuma são as tão faladas “lives” – as transmissões ao vivo de todo tipo e tema que tomam a internet todos os dias, tratando desde questões informativas e importantes debates até transmissões de shows de nomes gigantes da música nacional e internacional. Porém, o mais curioso disso tudo é que esse formato não é uma novidade – muito pelo contrário, já era algo existente e muito utilizado nas principais plataformas digitais. Mas, como o mundo real sempre tem o poder de influenciar o mundo virtual (por incrível que pareça), a necessidade de acabar com os encontros físicos fez com que os encontros virtuais fossem a única e mais inteligente forma de realizar atividades coletivas. Contudo, ao contrário do que muita gente pensa, nem tudo é brincadeira na internet. E é aí que o caldo começa a engrossar. Tudo é muito novo – inclusive para os protagonistas das lives e também para as marcas que resolveram investir nesse tipo de ação. Fruto disso é a desinformação de que, da mesma forma que ocorre na TV, no outdoor, no rádio ou na mala direta, também existem regras de regulamentação da propaganda na internet – ainda mais em algo com tanta visibilidade e com o carimbo de algumas das maiores marcas do mercado. O artista pode estar em casa, o espectador também. A produção pode ser a mais simples possível. A intenção, a melhor e mais sincera. Mas se tem uma marca patrocinando e sendo exibida naquele contexto, junto com ela vem a responsabilidade social que algo com tanto poder de influência tem – ainda mais em um momento psicologicamente tão delicado para muitas pessoas, onde qualquer pequena persuasão pode ser um o gatilho para um problema enorme. Muita gente pode me perguntar se um “se beber não dirija” no canto da tela vai fazer a diferença no fim das contas. E isso vai ser difícil responder. Afinal, se todas as leis fossem automaticamente e simplesmente cumpridas, tudo seria mais fácil. Agora… se me perguntarem se um exemplo sensato na frente de milhões de pessoas ajuda… ô se ajuda! E assim, com passos curtos, polêmicos e dolorosos, talvez se possa mostrar que a internet não é mais terra tão sem lei como sempre pareceu. Principalmente se lembrarmos que nem todos que a acessam absorvem as mensagens como nós. E nessa terra fértil, imensa, onde nem conseguimos enxergar o fim no horizonte, ainda existem pedras para retirarmos e evitarmos alguns acidentes, seja na publicidade ou na vida.





