A síndrome de burnout pode ”queimar” sua vontade de trabalhar

Assim como o estresse, essa doença tem origem nas pressões cotidianas do trabalho, mas é mais difícil reverter e pode trazer consequências mentais e físicas severas.

 

 

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Imagine-se riscando um palito de fósforo. Ele começa a queimar pela cabeça e logo a chama se estende por toda a haste de madeira, até se apagar. Provavelmente Herbert Freudenberg, um dos principais pesquisadores da síndrome de burnout – do inglês burn out (esgotar-se mentalmente; exaurir-se) -, nunca tenha feito esta analogia, mas ela ajuda a entender como a doença age no organismo.
Espécie de depressão focalizada na aptidão para o trabalho, a síndrome de burnout, como o nome sugere, caracteriza-se pela perda de energia, pelo esgotamento psicológico e físico do indivíduo, afetando diretamente o desempenho do profissional. “É o acordar pela manhã e não sentir a mínima vontade de ir trabalhar”, sintetiza o psicólogo e psicanalista Érico Peres Oliveira.
De forma geral, explica o psicólogo, há um desgaste severo em relação ao trabalho. “É como se a motivação e o brilho da profissão desaparecessem. Os sintomas são muito semelhantes ao de uma depressão, porém, ficam mais evidentes quando se está no local de trabalho. Os outros setores da vida, como família, casamento e lazer são afetados de forma indireta.”
As origens desse desgaste pairam entre o baixo salário, jornada de trabalho excessiva e infraestrutura inadequada até dificuldades de relacionamento interpessoal dentro da organização e a necessidade frequente de feedbacks. “O estresse aumenta de forma gradual a ponto de chegar a um esgotamento completo do interesse pela atividade”, aponta Érico.

Profissionais da educação e saúde: burned out
Segundo o psicólogo, os profissionais que mais sofrem com esta síndrome estão na área da educação e da saúde. “Não por acaso, são as áreas que mais requerem melhorias em nosso país. Logo, está muito associada à estrutura e salários oferecidos para os trabalhadores destas áreas. Essa síndrome também acomete profissionais que são muito exigidos ou que trabalham com metas a serem cumpridas, ou seja, quando seu desempenho é colocado à prova com frequência”, afirma.
Em algumas situações, prossegue Érico, não é exatamente o local ou o ofício que desencadeia a síndrome, mas a forma como o profissional lida com o seu desempenho. Surgem então sintomas emocionais (tristeza, choro, irritação, inquietude e agressividade), que prejudicam o bom andamento de sua produção, e físicos (dificuldade para respirar, fadiga, dores de cabeça, tonturas, formigamentos, problemas intestinais e tremores), que acabam causando faltas frequentes ao trabalho.
“Normalmente a busca por soluções começa nos consultórios médicos, seguida de diversos exames. Na sequência, o médico, ao constatar a ausência de enfermidades orgânicas, sugere ao paciente o início de um acompanhamento psicológico”, frisa o psicanalista.
Diagnóstico e prevenção
Compreender as causas que levaram ao desenvolvimento do problema faz parte do diagnóstico feito pelo psicólogo. “Através desse entendimento, as mudanças em sua rotina vão sendo aplicadas aos poucos, fazendo com que os sintomas percam espaço”, explica Érico. Em casos mais graves, faz-se o uso de antidepressivos ou ansiolíticos por meio de uma avaliação psiquiátrica.
A prevenção passa pela manutenção do equilíbrio entre os setores da vida: pessoal, social e profissional. “Vamos imaginar como um prédio que requer diversos pilares para sua sustentação. Esses pilares são o nosso trabalho, nosso relacionamento, nossa família, vida social, hobbies, espiritualidade, etc. Se focamos em apenas um – no caso da síndrome de burnout, seria o trabalho -, os outros acabam enfraquecendo. Essa debilidade dos pilares é o que resulta nos sintomas. É preciso manter boa parte deles sempre recebendo sua devida atenção. A exigência cotidiana de bons resultados no trabalho acaba nos obrigando a deixar de lado as atividades que proporcionam prazer. Esta é a grande armadilha da síndrome de burnout”, enfatiza Érico.

Estresse, dentro de um limite, é importante na rotina profissional

 

Érico Peres Oliveira, psicólogo.

O estresse é um mecanismo fisiológico importante para o ser humano. Se há milhares de anos nosso corpo liberava adrenalina para enfrentar os perigos da selva, hoje em dia os problemas são outros – atingir metas, por exemplo. O estresse tem, portanto, sua função na rotina profissional. 
O problema, de acordo com o psicólogo e psicanalista Érico Peres Oliveira, acontece quando esse estresse se transforma em um peso que recai sobre o corpo. “É como se um alerta estivesse sendo emitido. É preciso parar para ponderar sobre os limites que estão sendo ultrapassados. O corpo é o primeiro a demonstrar, por meio de sintomas, que um exagero está acontecendo.”
Diferente do estresse, que é passageiro e, com uma rápida organização, neutralizado, a síndrome de burnout não é revertida com tanta facilidade. “Os sintomas da síndrome são mais severos e causam bastante impacto na vida da pessoa, que passa a sofrer com essa enfermidade. Ela começa com o estresse, porém, vai se consolidando aos poucos até trazer os sintomas emocionais e físicos”, esclarece o psicólogo.

 

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