“Essa parte da minha vida, essa pequena parte, chama-se… felicidade.” Quem assistiu ao filme biográfico “À procura da felicidade” (2006) reconhece a citação. É a narração do protagonista, descrevendo o instante em que conquista o emprego tão desejado e batalhado, mesmo depois de tantas portas fechadas. A procura pela felicidade fora das telas de cinema, no entanto, parece ter sido desvirtuada, mercantilizada e informatizada em um mundo real em que o ser humano quer se parecer cada vez mais com um personagem. O resultado disso? Frustração, que leva à tristeza e a quadros de transtornos psíquicos, como a depressão.
“Há uma exigência vigente que nos cobra a felicidade. Somos obrigados a mostrar ao mundo que estamos bem. Essa cobrança é contemporânea às redes sociais. Esbanjamos sorrisos mesmo quando as coisas não estão exatamente como gostaríamos que fosse. Em uma época onde a tristeza foi banida, é justamente ela quem mais cresce”, afirma o psicólogo e psicanalista Érico Peres de Oliveira. “A frustração por não alcançar com rapidez os objetivos impostos vai machucando. E este é outro ponto grave, quero dizer, a obrigação que aqui descrevo também cobra um ritmo acelerado. Precisamos ser bem sucedidos, ricos, bonitos e alegres. Isso é, certamente, exaustivo”, complementa.
Para Érico, é preciso esquecer a ideia de que a felicidade é um “sentimento linear e ininterrupto que uma hora conquistaremos”. “Ela acontece em pequenos e breves momentos de específicas conquistas”, afirma o psicanalista, que cobra que saibamos lidar com as frustrações diárias. “A frustração faz parte do nosso cotidiano, ela está presente desde a infância. Porém, essa carga a mais, ou seja, essa exigência de uma demanda que precisa ser cumprida pode trazer um excesso de sentimentos negativos. Podemos pensar que não era exatamente este caminho que você gostaria, mas que uma demanda terceira te levou a isso. Daqui a pouco você está sofrendo para conquistar algo que você nunca quis. A partir disso, o sintoma encontra seu caminho. Ele pode se manifestar de várias formas e um quadro depressivo se encaixaria perfeitamente.
Também psicólogo e psicanalista, Bruno Peres Oliveira alerta também para o uso indiscriminado de remédios em detrimento da busca por compreender a origem do problema. “As pessoas não se sentem mais autorizadas a sentir tristeza. É como se fosse proibido e as pessoas acabam suprimindo o que seria um sentimento natural fazendo uso de medicamentos. Em muitos casos o que ocorre também é a automedicação, sem consultar um especialista”, acrescenta.
Sintomas de depressão
Levantamento feito em 2015 pelo jornal O Estado de São Paulo, de acordo com dados do sistema de mortalidade do Datasus, apurou que, em 16 anos, houve crescimento de 705% no número de mortes por depressão no Brasil. Além disso, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), cerca de 350 milhões de pessoas em todo o mundo são depressivas.
Segundo Érico, os sintomas emocionais mais comuns com relação à frustração são tristeza, choro e apatia. Mas o corpo também pode padecer se a cabeça não vai bem: cansaço, sono em excesso, dificuldades de respirar e dores no corpo sem motivo aparente são sinais frequentes. Até mesmo doenças de pele, como o vitiligo, são comuns nesses quadros. “Porém, o que de fato é essencial para pensarmos que se instalou um quadro depressivo é a dificuldade de perceber o brilho das coisas. É o momento onde as metas e objetivos perdem seu sentido”, frisa Érico.
As cobranças do modelo de felicidade em vigor atingem em cheio os relacionamentos, cada vez mais descartáveis e exigentes. “Seja na velocidade com que os relacionamentos nascem e morrem, sendo extremamente descartáveis, como também no relacionamento sério, onde raramente nos sentimos suficientes para o outro. Na vida de solteiro, a demanda se mostra em números. É preciso marcar pontos. As pessoas foram se transformando em uma mercadoria e, se você ficar muito tempo com o mesmo ‘produto’, isso é lido como fracasso. Nos namoros e nos casamentos, a exigência paira em ser total no sentido de que é preciso ser bem sucedido, bonito, inteligente, etc. Não pode haver falhas, senão você será substituído. Ambos movimentos fazem com que a parte importante do relacionamento fique para trás”, comenta o psicólogo.

Tratamento com base na conversa
Falar sobre o problema e tentar compreendê-lo com a ajuda de especialista é uma das formas de tratar quadros de depressão ou tristeza. “A análise propicia ao paciente a possibilidade de ampliar sua visão a respeito daquilo que está causando sofrimento. É por meio da fala que as questões vão se desdobrando e esse conhecimento vai ganhando forma. É como montar um quebra-cabeças interminável que, apesar de infinito, em determinado momento esboça uma imagem que propicia diversos entendimentos”, compara Érico. “Em relação a esta pressão que aqui discutimos, trata-se de poder compreender o que é de fato relevante para você, e não para quem ou o que está te cobrando. É poder colocar o seu desejo em movimento e não mais permitir que ele fique estagnado em prol de uma corrida que jamais terá vencedores”, prossegue.
Brasil é 8º em suicídios
Essa pressão social também pode levar à situações extremas, como o suicídio. Segundo a OMS, mais de 800 mil pessoas cometem suicídio por ano no mundo, o equivalente a uma morte a cada 40 segundos. Do total, 75% dos casos acontecem em países de renda média ou baixa, como o Brasil, oitavo no ranking (em 2012, foram registrados 11.821 suicídios no país) – a Índia está em primeiro lugar com 258 mil casos. “O que leva ao suicídio é uma dose insuportável de sofrimento. Trata-se de uma dor indescritível e que não sacia. Logo, o indivíduo passa a ver a morte como única opção. A gama de situações que pode levar a este fim é incontável”, diz Érico.
Exigências cotidianas também podem afetar as crianças
O mundo infantil também foi sendo incluído na rotina acelerada dos compromissos e parâmetros da vida moderna. Na opinião do psicólogo e psicanalista Bruno Peres Oliveira, muitas crianças, hoje, estão tão atarefadas quanto os pais. “Inglês, Karatê, natação, piano, violão, balé. As atividades extras tem uma importantíssima função na formação dos pequenos, mas se deve tomar cuidado com o excesso de compromissos”, recomenda o especialista.
Na maioria das vezes, segundo Bruno, os compromissos são uma exigência dos pais, pois estão sem tempo para o principal desta fase da vida, que é a infância. “Assim como estas atividades podem trazer problemas, também são soluções. A questão está em encontrar a medida certa. Perceber algo que uma criança goste pode ser fundamental em sua melhora. Esta é uma das etapas do tratamento com crianças, o qual acontece através dos interesses que ela apresentar no tratamento.”
Dificuldade de aprendizagem, enurese e, principalmente, a dificuldade em se adaptar ao mundo externo a sua casa são sintomas de que os excessos estão prejudicando as crianças. “Caso decidamos comparar, a infância atual está muito diferente daquela de 20 anos atrás. Hoje existe a exigência social de que os pais precisam ser excelentes e, por conta disso, as crianças acabam recebendo tudo pronto, não existindo um mínimo de dificuldade. Na medida em que vão crescendo, qualquer obstáculo pode se transformar em sofrimento”, afirma Bruno.
O tratamento com crianças também pressupõe a compreensão do problema, mas, de acordo com Bruno, acontece através do brincar e dos interesses da criança. “E, muitas vezes, este quebra cabeça interminável como citado antes, acontece quando as crianças começam ampliar seus interesses, querendo conhecer, pesquisar e investigar outros assuntos. Para estes momentos, deve-se estar preparado até mesmo com as novas tecnologias, como vídeo game, computadores, tablets, séries, desenhos e filmes.”





