Em 1957, o Policial Militar veio para a região em virtude da Revolta dos Posseiros. De lá para cá, já se passaram 59 anos.

O policial militar aposentado Raul de França Veloso chegou ao Sudoeste em 1957 sem saber o que ia encontrar. Solteiro, recém-formado na academia de polícia, ele topou o desafio de vir para a região sabendo apenas que, por aqui, havia estourado uma “revolução”. “Eu nem sei como é que eu vim parar aqui em Dois Vizinhos. Eu estava em Curitiba e nós saímos de serviço do Palácio do Governo numa tropa. Nós estávamos no pátio, formados para entregar o armamento e o capitão falou: ‘tem um problema no Sudoeste’. Eu nem sabia onde ficava. Ele continuou: ‘Precisamos de voluntários’. Aí eu era solteiro, não devia nada pro diabo, como diz o outro, peguei e ergui o dedão. Ele mandou dar três passos para frente, eu me apresentei com mais uns dois ou três que se habilitaram. Eu sabia que eles pegavam na marra, geralmente o que era solteiro, então resolvi me oferecer. Aí até alguns me falaram que eu era louco de me fincar nesses ‘cafundós’ aqui, que estavam matando gente. Eu não tinha nada a perder e resolvi arriscar”, lembra o aposentado que está com 82 anos.
Antes de ser policial, Veloso foi mecânico de elevador e também pedreiro. “Eu trabalhei na construção do Palácio do Governo, em Curitiba, de 1952 a 1955. O Bento Munhoz da Rocha Neto, o famoso Bentinho, foi meu chefe. Eu fiz de tudo um pouco, só não roubei e matei. Eu saí de Pitanga para ser mecânico de elevador em Curitiba quando eu tinha 16, 17 anos, em 1950. Depois eu fui carpinteiro e pedreiro, até entrar na Polícia. Eu trabalhei na construção do palácio e depois tive a honra de tirar a guarda no mesmo palácio, quando entrei para a polícia, em 1956”, orgulha-se.
Primeira Impressão
Veloso e os outros soldados desembarcaram no Sudoeste em uma noite de outubro de 1957. “A gente veio sem saber se ia voltar, porque aqui tinha muito bandido. Viemos no trem até União da Vitória, tocando pandeiro e violão no trem. Chegamos em Pato Branco de madrugada, umas duas horas. Quando descemos do ônibus, encheu até a canela de barro. Era tudo chão nas ruas de Pato Branco. Dormimos numa delegacia velha de madeira, cheia de percevejo. Todo mundo cheio de barro. O fuzil foi nosso travesseiro”, completa.
De lá, Veloso começou seu ‘tour’ pelo Sudoeste. “Eu fiz amizade com o juiz de direito, o Dr. José Meger e ele sempre me pegava pra andar junto com ele na cidade. A gente saía a pé, ia no Bar do Fasolin ou do Cantu, perto da Praça Getúlio Vargas. Eu era, praticamente, o guarda-costas do juiz porque ele era a autoridade máxima. O capitão deixava e eu aproveitei, numa dessas saídas, e dei uma cantada para ir a um destacamento em qualquer lugar na região. Aí ele falou que ia estudar meu caso. Passou uns dois, três dias o juiz mandou um oficial de justiça para conversar comigo porque tinha me arrumado um destacamento no Verê. Isso ainda em 1957”, conta.
Em pouco tempo, Veloso já estava em Dois Vizinhos. “Nem parei no Verê e já vim para Dois Vizinhos. Me falaram que quando eu viesse para Dois Vizinhos, era para conversar com o Anibal Bonato, em São Roque, e com o Ary Muller em Dois Vizinhos. O primeiro virou um grande amigo, o segundo meu sogro. Naquela época nós fazia patrulha tudo a cavalo. Saía de Dois Vizinhos, ia pra Erveira e pras outras comunidades com um fuzil nas costas. Aqui tinha muita encrenca, o clima tava fervendo”, recorda-se.
Casamento na região
Depois de um tempo, Veloso conheceu sua esposa, Hilda Muller Veloso, com quem casou em 1961 e teve sete filhos (cinco homens e duas mulheres). “Meu sogro estava indo para Pato Branco e parou no Hotel do seu Germano Fabiane, em Verê. Eu tava sentado lá na frente e eles chegaram e eu gostei daquela menina. Aí eu vim para Dois Vizinhos, encontrei ela e acabei me casando em 1961, no dia 11 de fevereiro. Tive a honra de ter com ela sete filhos (cinco homens e duas meninas)”.
Em 1960, Veloso começou a trabalhar com trânsito, fundando o Departamento de Trânsito em Dois Vizinhos. Mais tarde, em 1967, Veloso começou seu trabalho em São Jorge D’Oeste, onde ficou até 2001. “Fiquei 10 anos em Dois Vizinhos, depois fui para São Jorge D’Oeste e tive a honra de ficar lá 34 anos. Eu fui para lá no dia 4 de abril de 1967, voltei para Dois Vizinhos em 2001, porque eu tinha uma chácara aqui, fiz uma casa e estamos até hoje aqui. Eu me aposentei no Departamento de Trânsito em 1984, fiquei mais um tempo e vim para cá descansar”, completa.
Aposentado, Veloso gosta muito de cuidar da sua horta e tem diversos documentos históricos na sua casa. “Eu sempre gostei de ler muito. Eu tinha uma biblioteca grande em casa, mas doei tudo para a Apae. Sempre fui chegado nessas histórias. Também procurei guardar edições de jornal históricas, como a primeira edição da Gazeta do Povo. Mesmo doando a biblioteca, acabei ficando com umas coisas velhas. Eu sou um cara jovem, mas gosto de coisa velha”.







