Filha do pioneiro beltronense Zenóbio Lourenço Baréa, dedicou sua vida ao magistério. Ao receber homenagem dos vereadores, teve sua história lembrada como uma pessoa que muito trabalhou pela união das famílias, o amor e o respeito entre pais e filhos. Além de fazer seus alunos aprenderem e gostarem de matemática.
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Ela estudava em colégio de freiras, por isso não acompanhou a família na mudança de Joaçaba para Marrecas, em setembro de 1949; veio em 1951, viu a vila transformar-se em cidade, casou, teve filhos, netos e bisnetos e deixou sua vida marcada, principalmente, por sua atuação como professora.
Nascida em 27 de janeiro de 1938, Clemência Lúcia Baréa era a segunda dos oito filhos de Zenóbio Lourenço e Maria Trevisan Baréa (Álida, Clemência, Edwiges e Salete – nascidas em Joaçaba -, Odete, José Ângelo (Zezinho), Mari e Agda Regina – nascidos em Beltrão).
Em 1955, casou com Antonio Derval de Araújo (4..6.1936 a 6.2.2012), com quem teve quatro filhos: Mauri, Marcos, Mariza e Nércio. Os filhos já lhe dram sete netos – Roberta, os gêmeos Ronise e Ricardo, Maurício, Mariana, Bruno e Elisa – e cinco bisnetos – Mateus Henrique, Bianca, Emanuel, Isadora e Miguel.
Hoje reside em casa confortável, no Bairro Alvorada, em rua asfaltada, mas ela pegou o tempo de pó e barro, tempo que a cidade era tomada por carroças e cavalos, principalmente em frente ao moinho de seus pais, ao lado do atual Posto Dinon.
Indicada por Júlio Assis Cavalheiro, tornou-se professora do Estado em 1956 e lecionou durante 43 anos. Neste período, também estudou, formando-se em Matemática, sua especialidade.
Dia 18 de outubro, Clemência e mais cinco professores pioneiros de Francisco Beltrão foram homenageados pelos vereadores. Nesta entrevista ao Jornal de Beltrão, ela fala de sua vida e de sua profissão.
JdeB – A senhora chegou em 51 em Beltrão?
Clemência – Eu lembro que estudava e que não queria ficar no colégio de jeito nenhum, e aí vim pra casa. Meu pai, na época, quando veio pra cá, pôs o moinho do lado, aí ele vendeu aquela parte, não deu mais certo a sociedade e ele comprou um bar ali onde é a Alfana, faziam baile. Daí ele cansou. Não era aquilo que ele gostava e pôs outro moinho e ficou até morrer com o outro moinho. E a minha mãe sempre ajudou muito. Quando saí dos estudos, que vim pra casa, e aqui não tinha muito estudo, e eu ajudava no moinho também. Por exemplo, meu pai trabalhava até as duas, três horas da manhã e aí eu e minha mãe levantava e ia trabalhar. Continuava o serviço, porque nós trabalhava dia e noite no começo.
Tinha que fazer o que no moinho?
Nós tinha trigo, milho, arroz. Essas coisas assim. Fazia tudo! Tinha que cuidar as máquinas, o motor principalmente, naquela época não tinha luz, era tudo a motor. A gente fornecia luz pros vizinhos até. Era motor a óleo. Ajudava a carregar, fazer venda. Tudo a gente fazia.
Os colonos traziam o trigo?
Vinham com o trigo pra moer. Trocavam por farinha, porque o trigo passa, de igual forma, por uma especialização. Não tem como moer só esses 30 ou 40 quilos.
A senhora aprendeu a classificar o trigo?
Sim, eu fazia isso também. Pra mim era muito fácil tirar o trigo dos sacos e pôr dentro da balancinha do específico. Dos colonos era só na troca. Pra cidade a gente vendia. Nós não fazia cargas pra fora. Não vencia.
Grande movimento de cavalos?
Era bastante. Inclusive, minha irmã, que agora mora em São Paulo, ela entregava as coisas a cavalo. Ela gostava. O cavalo era dela.
E sua mãe também trabalhava?
Bah, minha mãe trabalhava que nem homem. Era uma santa. Trabalhou muito e daquelas assim, sempre, uma pessoa temente a Deus. Ela era muito correta, muito justa, muito boa.
Ela tinha as crianças pra cuidar?
Tinha as crianças pra cuidar, a casa pra limpar, tinha roupa pra lavar e cuidava do moinho. E naquele tempo a gente partia lenha ainda, né. Cansei de ver minha mãe partindo lenha.As crianças não tinham fralda descartável, era tudo de lavar.
Seu pai (1912 a 1978) morreu novo, do quê?
Câncer. Inclusive a gente sofreu muito. Tinha muita dor. Muito enjoo. E aí quando a gente foi no médico, ele disse que era o fígado e daí foi, foi e não sarava. Fomos pra Pato Branco e o médico era muito conhecido do dom José Baréa, irmão do meu pai, o bispo de Caxias, aí ele disse: “Pelo carinho que tenho por dom José, eu vou te dizer: não tem mais o que fazer”. O esôfago dele tava tomado. Era fome e sede. Quando a gente voltou, não falou pra ele o que o médico tinha dito, mas ele dizia que ia ficar bom. O médico disse que ele tinha dois meses de vida, mas ele durou ainda um ano inteirinho. Sofrendo mesmo. Sofrimento muito grande.
Seu pai foi vereador, ia até Clevelândia.
Eles iam. No começo ele tinha um jipe, senão sempre tinha um ônibus velho que ia. Quando chovia, não podia ir porque era muito barro.
Dizem que na campanha ele prometeu uma ponte, mas o prefeito não fez, e daí ele fez por conta?
Olha, eu não sabia disso. Um dia eu conversei com minha irmã, que morava com ele e eu tava no colégio, e daí eu disse: “É verdade?” E ela: “Claro!”. Daí fiquei sabendo da ponte. Ele fez a ponte pros colonos.
Ele gostava de Beltrão?
Gostava muito. E aqui, o pai e a mãe, chegava o domingo eles iam na casa dos amigos passear. Tinha muitas pessoas da colônia que queriam bem eles. Na casa do meu pai, no começo, o meu pai acomodava os que vinham pra cá. Eles faziam isso e eu achava lindo aquele gesto do pai.
Então o que dizem do beltronense ser hospitaleiro era bem característico da sua família?
Bem característico. Porque acho que no Rio Grande eles eram assim e vieram com o costume. Costume assim: iam carnear o porco, ficavam com a metade e a outra metade iam dando pros vizinhos e os vizinhos também.
E a senhora gostou de Beltrão?
Gostei. No começo era muito sofrido, mas eu nunca sairia daqui. Porque no começo não tinha nada. A gente não tinha nada. Da casa que a gente morava pra ir no cemitério só tinha um carreirinho. E o ônibus, quando a gente ia pra algum lugar, tinha que esperar o dia de sol, porque o dia de chuva não dava. Vou muito passear fora, mas não sairia daqui, pra morar não.
Como veio a proposta para lecionar?
Pra lecionar foi assim: o meu sogro, Olavo Araújo, era amigo do Rubens Martins. Eles fizeram um concurso e eu fui nomeada pra assumir em Curitiba. Quem arrumou isso pra gente foi o seu Júlio Assis Cavalheiro, eles eram bem amigos. Aí fui pra lá e fiz o exame que eles queriam e fui nomeada.
A senhora chegou em 51 e começou a lecionar em 56?
Lecionei depois, em 56. Aí no outro ano deu a revolução, tivemos que desocupar o Suplicy, porque ficou os militares ali, e depois da revolução deu todo aquele problema, ninguém mais estudou. Quando voltamos pro Suplicy, as paredes eram furadas de bala. Acho que treinavam. Ficou muito estragado. Foram arrumando aos poucos. Mas foi muito triste, porque nós tinha o Suplicy limpinho, bonito e lindo e de repente a gente viu bem estragadinho.
Em 1957, o restante do ano foi perdido?
Não foi bem perdido, porque a gente pegou o final da revolução e voltou pra casa. Naquele tempo a gente trabalhava muito. Quando o aluno não aprendia, a gente levava pra casa da gente e ensinava em casa. Cansei de levar alunos que chegavam atrasado de lugar, do ano, cansei de levar alunos pra casa e ensinava a tarde toda, às vezes. E trabalhava de manhã.
Gostava mesmo de lecionar?
Eu tinha um amor enorme pela minha profissão, tanto é que lecionei por 43 anos. Eu tinha um carinho por aqueles alunos, via cada um deles como filhos. E acho que eles me viam como mãe também, porque, na verdade, como professora, fui pros alunos muito mais do que quando diretora, porque na direção você tem que chamar a atenção, e como professora, tinha aluno que às vezes incomodava muito, e pra mim não incomodava. Não sei, acho que é a graça de Deus. Acho que aprendi com a irmã Catarina que dizia assim: “Quando um aluno tá incomodando, a gente reza por ele e abençoa”, e era o que eu fazia, dava sorte. Respeitavam, não tinham como não respeitar, porque eu era como mãe.
Não tinha tanta queixa dos pais como hoje?
Hoje os pais protegem muito os filhos. Tá tudo errado. Não posso imaginar que o professor vai perseguir uma criança. Não existe isso. Como vou querer que um aluno reprove? Eu quero que aprove, que passe. Hoje os pais, se o aluno é inteligente, vai bem: “Meu filho é inteligente!”, se o aluno vai mal: “Ah, porque o professor não ensina”. E nós, aprendi com minha mãe, se nós chegasse da escola com uma queixa, nem se atrevia a falar. Porque ela nunca defendeu nós nas queixas. Se você não fez nada, não existe nada contra você. Hoje é o contrário, se você disser pro aluno qualquer coisinha, os pais vão e brigam. Tenho dois filhos professores e acho que eles têm muita sorte, porque nenhum se queixa dos alunos, só que mostram a realidade da época.
A senhora lecionava matemática?
Matemática. Sempre lecionei Matemática, pouca Ciência. Gostava de Matemática.
O pessoal tinha que aprender a tabuada?
Ah, sim. A tabuada pra saber fazer as coisas. Até hoje sou contra não precisar saber a tabuada.
Os alunos gostavam das suas aulas?
Gostavam porque eu sentia uma alegria muito grande quando chegava ao fim do ano que um, dois ou três alunos chegavam pra mim e diziam: “Eu nunca gostei de Matemática e agora tô gostando!”.
A senhora casou em 55 , o celebrante foi o Frei Deodato?
Não, foi com outro padre. O Frei Deodato não estava aí quando casei. Casei com outro padre. Mas conheci muito bem o Frei Deodatto. Ele ia muito no moinho do pai fazer as coisas, ajudar, passar o tempo. Mas quando escutava qualquer barulho, ele fechava a cara e saía, ia embora meio alucinado. Acho que lembrava dos barulhos da guerra. Qualquer coisa que batesse, que fizesse barulho, já ia embora.
Ficou complexado com isso?
É. Ele era assim. Ele falava nos sermões e não se aproveitava nada. Querido, Deus o tenha! Uma pessoa que lutou, porque andava a cavalo por esses matos e contava pro pai que ele ia, muitas vezes à noite, e ele não tinha como ir embora e as pessoas botavam ele dormir no paiol. Tu veja que triste. Uma pessoa sagrada.
Beltrão sofreu muito com aquela separação política de 1957. E o seu Lourenço como via isso?
Então veja como minha situação ficou: o meu pai era do lado dos colonos e o meu sogro era do lado da Companhia, do dr. Rubens e aí a gente ficava em uma situação. Eu não podia abrir a boca nem de um lado nem de outro.
E esse contraste: uma vez as pessoas começavam a trabalhar ainda crianças e hoje é proibido. Como a senhora vê essa mudança?
Vejo um mal muito grande. Porque a criança não tendo o que fazer, não vai ficar estudando o dia inteirinho. Então precisaria mais esportes, mais coisas pra ocupar o tempo deles e as escolas não têm como ocupar o dia inteiro. Quem criou essa lei foi uma pessoa que com certeza pode dar tudo o que os filhos querem e mandar pra onde quiser, porque é impossível, a criança, quando não aprende, ela inventa moda. Um puxa pra cá e o outro puxa pra lá, aprendendo o que não presta. Aí quando chega a hora de trabalhar, não querem trabalhar. Não sabem trabalhar. Nem aceitam trabalhar porque são acostumados a não fazer nada. É um crime quem inventou essas coisas.
A senhora trabalhou nova?
Desde nova. Quando estava no colégio, no internato, a gente fazia as coisas. Quando vim pra casa, a gente trabalhava como homem, porque a gente carregava, descarregava e fazia, e brincava e dava tempo pra tudo. E eu acho que a saúde da gente também, no trabalho, ajuda muito. Quem não trabalha, fica pensando em doença. E eu trabalhei bastante, na minha juventude. Casei e continuei trabalhando em outras coisas. Ensinei meus filhos a trabalhar.
E a homenagem, como a senhora recebeu?
Fiquei muito feliz com a homenagem porque não adianta homenagear depois que morreu, então isso é uma coisa que agrada muito a gente. Fiquei muito feliz.





