Geral
Isadora Stentzler
Isolar o debate sobre a violência contra a mulher ao ambiente familiar é transformar um problema complexo em algo simples. Longe disso, a violência doméstica permeia pela sociedade e ganha apoiadores indiretos, que permitem ao homem agressor até terceirizar a culpa. “A violência contra mulher, especificamente a violência por parceiro íntimo, é um fenômeno antigo, que atinge todas as classes sociais e deixa marcas profundas, não apenas na mulher agredida, como em todas as pessoas e círculos nos quais a mesma está inserida”, defende a psicóloga e mestre em Psicologia Forense Everline Bedin. “E a comunidade é permissiva com a violência contra a mulher.”
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Everline trabalha com as psicólogas Aline Bonetti e Gabriela Kuchinski na Clínica Íntegra, instalada em 2019 em Beltrão.
Elas destacam o ciclo da violência e os impactos que precisam ser acompanhados de forma clínica. Segundo Aline, que também é especialista em Psicologia Clínica e facilitadora certificada do Programa de Qualidade na Interação Familiar (PQIF), cada vítima sente a violência de uma forma e não é possível padronizar as reações.
Não à toa, em muitos casos a mulher que sofre uma situação de violência pode ainda se tornar resistente em deixar o agressor ou denunciá-lo. Isso porque há o fator social envolvido na violência, que pode agravar os impactos na vítima.

“A mulher pode acreditar que é natural que a violência ocorra, justamente por observar ou ouvir histórias do próprio contexto familiar (avós, mãe), podendo até mesmo sentir-se culpada do ocorrido e, em alguns casos, não conseguindo identificar que está sofrendo uma violência, principalmente quando se trata da violência psicológica. Outros fatores envolvidos neste tipo de situação envolvem a fragilidade da rede de apoio da mulher, que muitas vezes não possui condições financeiras, cognitivas, sociais e psicológicas para sair desta situação”, esclarece Aline.
Na outra ponta, os homens que praticam a agressão são demonizados. Embora haja a repulsa pelo ato, Everline Bedin aponta que é preciso vê-los como pessoas que também necessitam de apoio psicológico para que se rompa a cadeia da violência por quem a pratica. “Nem monstros nem doentes, são pessoas que precisam de atendimento e orientação”, frisa.
Ela cita especialistas que identificaram um padrão comportamental para esses casos, em que o homem agressor transfere a culpa que deveria sentir, fazendo com que consiga realizar a ação. “Ele se utiliza de três categorias: Primeiro, ‘ela’, a companheira, é a causadora da violência. Segundo, ‘eu’, o agressor, não sou o causador da violência. E terceiro, ‘os outros’ são os responsáveis pelo seu comportamento. Assim, o trabalho com os agressores também se faz de extrema importância, a fim de evitar a reincidência desse tipo de crime.” De acordo com Everline, essa terceirização da culpa tem sido perpetuada pela própria sociedade, que possui um padrão social de crenças de que o homem pode exercer a sua força física perante a sua companheira, sem consequências.
“Habitualmente os agressores terceirizam a culpa: ‘ela me deixou nervoso, bravo; me provocou…’ E essas são características comportamentais e psicológicas presentes que levam à negação do ato cometido e à internalização dos papéis rígidos de homem demarcados pela sociedade (‘é o homem que manda e a mulher deve ser submissa às suas ordens e desejos’).”
O que as psicólogas identificam é a necessidade de romper esse padrão para que a violência deixe de ser naturalizada. Pois se da sociedade pode ser criada e permeada a dor, dela também pode ser criada uma nova cultura em que os papeis não estejam vinculados à dominação de um ou de outro.




