Há 110 anos, nascia Júlio Assis Cavalheiro

Netos lembram da paciência, da sapiência e do carinho do avô que deixou seu nome na principal avenida de Francisco Beltrão.

Os netos Arion Cavalheiro Júnior e Júlio Assis Cavalheiro Neto no Calçadão, ontem à tarde, falando sobre seu avô. “A felicidade dele era estar com a casa cheia de amigos.”

Neste sábado, 4 de julho, completam-se 110 anos do nascimento de Júlio Assis Cavalheiro, o pioneiro que deixou seu nome na principal avenida de Francisco Beltrão. Os netos Arion e Júlio Assis Cavalheiro Neto, que continuam residindo na cidade onde nasceram, lembram de boas histórias do avô, com destaque para sua paciência e sapiência, e o carinho que ele tinha pelos netos e pelas pessoas.

Natural de Tupanciretã (RS), filho de Rodolfo Amaro e Vicentina Ferreira Cavalheiro, Júlio Assis Cavalheiro viveu 84 anos. Ao falecer, em 25 de julho de 1994, residia em Eneas Marques. Júlio Assis casou com Aline Toledo Cavalheiro e teve quatro filhos: os gêmeos Rosenery (“Chico”) e Rosemari, o Arion e a Jussara. Depois ele separou de Aline. Sua segunda esposa é Julieta Antunes Fernandes, que ainda reside em Eneas Marques.

Seus dois filhos homens são falecidos. Arion (faleceu de acidente, com 55 anos) deixou o filho Arion Toledo Cavalheiro Júnior e o Rosenery (falecido aos 75 anos) deixou o filho Júlio Assis Cavalheiro Neto. Ambos residem em Francisco Beltrão. Arion (50 anos, formado em Análise de Sistemas e Direito) é cartorário e Júlio é advogado (profissão que exerce, está com 54 anos), formado também em Ciências Contábeis. Arion tem dois filhos: Júlio Moisés Cavalheiro, de 23 anos, e Francisco Moisés Cavalheiro, de 8 anos. Neto tem um filho homem, o Felipe, de 26 anos, e uma filha, Andréia, de 34 anos.

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Ontem à tarde, Arion e Júlio se encontraram no Calçadão, que é cortado pela Avenida Júlio Assis Cavalheiro. O objetivo era fazer uma foto dos dois para marcar esta data, mas as fotos foram seguidas de uma agradável conversa que fez novas revelações sobre seu Júlio.
Segue a entrevista:

Ivo – Você diz que lembra de uma história do seu avô.

Júlio Neto – Ah, o vô veio aqui na avenida e, claro, ele vinha muito pouco pra Francisco Beltrão, ficava em Eneas Marques. Ele estacionou o carro em lugar proibido, e o policial veio multá-lo. O vô disse: “Multar eu? Na avenida que tem o meu nome?”. Nisso o policial olhou e falou: “Ah, não… Seu Júlio Assis, não vou te multar”.

 

Que carro ele tinha?

Júlio – Um fusca. Tá com a Julieta.

Arion – Até hoje, aquele fusca bege.

 

A Julieta está bem?

Júlio – Ela já tá um pouquinho doente. Tá bastante doente. Tá velinha já, né?

Arion – Ela tá com 76. Tinha a idade do pai; ele faria 77 agora, 21 de julho.

 

Então, são 74 anos que ele entrou na Cango, não é? Em 1946, e em 48 se estabeleceu definitivo aqui e fez o loteamento, 72 anos atrás.

Arion – Ele sonhava em fazer a cidade, então foi doando os terrenos e dizendo pra que seriam aqueles terrenos. Esse aqui na nossa frente, falou “aqui vai ser a igreja!”, “aqui vai ser a Prefeitura”, “aqui vai ser o campo de futebol”, “aqui vai ser a escola”, onde era a escola, atrás do Fórum, o La Salle. Ele foi escolhendo o que seria, o hospital ali embaixo do Aryzone, também foi ele quem escolheu o local. Ia dizendo, mais ou menos, o que queria e dava o lote praquilo. Pode ver, são todos do lado de cá da avenida que ele foi dizendo que se estabelecesse ali. Até o campo do União.

Júlio – É, o campo do União também foi ele que doou.

 

Júlio, você que é um pouco mais velho, qual a primeira lembrança que você tem do seu avô?

Júlio – É na fazenda em Eneas Marques, porque a gente ia passear, sempre chegava aqui e ia passar na fazenda de Eneas Marques.

Arion – É, a fazenda… eu fiquei morando em Francisco Beltrão até os 8 anos de idade, mas lembro que saía da Escola Glória, morava ali na (avenida) Faedo e ele tava ali na minha casa esperando, umas duas vezes na semana, pra me levar na fazenda. Eu dormia na fazenda, passava a noite com ele, lá. De manhã, ele me chamava com um copo de leite recém-tirado da vaca, cinco e meia da manhã, tomava aquele copão de leite.

Júlio – Isso quando não ia junto. A Julieta tirava leite, pra tomar na hora.

Arion – Ele me acordava, tomava o leitão e falava: “Tá na hora de ir pra invernada!”. A gente se arrumava cedinho e tal, seis e pouco, e ia pra invernada, soltar o gado, ir pro pasto. Eu me criei ali até os 8 anos, depois fui pra Curitiba. Aí o Julinho continuou, até hoje tá na lida.

Júlio – Não tô mais, mas a gente passou anos ali. Eu acompanhei toda a parte ruim do vô também, que foi a doença. Trouxe ele muitas vezes pra Beltrão. Na verdade, ele ficou dois anos bem doente, até que veio a falecer… mas, ele ficou dois anos assim, bem doente. Tem méritos para a Julieta, ela quem cuidou dele.

Arion – É uma guerreira. Ele, no dezembro do ano anterior, ficou internado por vários dias na Policlínica; nós íamos lá visitar, também muitos amigos dele, na época, vieram, dr. Candinho… Até eu estava lá no momento em que o dr. Candinho chegou na Policlínica e ele reconheceu. Não reconhecia quase ninguém, mas ele reconheceu o dr. Candinho, falou “ô, compadre”. O dr. Mário também sempre foi muito importante pra ele, na vida dele, nos cuidados com o vô. Naquele momento, achamos que ele não ia resistir, mas voltou pra casa, ficou mais um seis meses e veio a falecer.

Júlio – Ficou bem debilitado.

Arion – Coisas que causaram a depressão no vô foi o fato que ele caiu. Foi atravessar o rio a cavalo e o cavalo tropeçou numa pedra, no Rio Jaracatiá. Daí, até por cuidados médicos, falaram que não recomendavam, que não andasse mais a cavalo. Isso pra ele foi um baque muito grande, porque ele não podia ir mais pra invernada, cobrir o gado dele, passear na fazenda. Isso foi dando uma depressão muito grande nele.

 

Ivo – Como se fosse agora com a Covid.

Júlio – A mesma coisa.

Arion – Ele foi ficando depressivo, daí a idade já pega. Com 84 anos ele morreu.

Júlio – Ele chamava o cavalo de onde ele estava. Ia só na cerca com uma espiga de milho e chamava o cavalo que era Pampa; o cavalo vinha na mão dele, encilhava quietinho. Era assim que ele fazia.

Arion – O Pampa. Demorou dois anos pra ele me contar a história de que o Pampa morreu. Eu não admitia, porque eu me criei em cima do Pampa. Aquilo era complicado. Pampa era um cavalo lindo, branco com umas manchas marrom, branco e preto. Ali eu aprendi a andar a pelo, Julinho também, jogava só o pelego em cima e ia andar.

Júlio – Caía de vez em quando.

Arion – Fora muita coisa que eu e ele aprontamos na fazenda, juntos. A fazenda era nossa casa, era onde a gente se sentia bem ao lado dele e ele recebia todos os amigos dele, todo dia, todo momento tinha algum amigo dele lá. Ele já fazia comida e a Julieta, né Julinho?

Júlio – Já fazia pra um monte de gente.

Arion – Porque ela sabia que alguém ia chegar. Sempre tinha almoço, janta pra todo mundo.

Júlio – Aquele café da tarde, lembra?

Arion – Cafezão da tarde, sempre no bule.

Ivo – Eu também uma vez fui almoçar lá, num domingo com a Irma, tinha a Camila e o Bruno (o Adolfo ainda não tinha nascido), almocei lá com ele. Como ele recebia bem as pessoas.

Arion – A felicidade dele era estar com a casa cheia de amigos, ele sempre foi uma pessoa muito bemquista e muito acolhedora— tanto que nem ele sabia quantos afiliados tinha, ele batizava todo mundo.

Ivo – Com aquela calma dele, né.

Júlio – A calma que pouca gente herdou, porque nós não temos nada da calma dele.

Arion – É, isso eu queria ter herdado: a calma e a sabedoria dele.

Júlio – Ele tinha muita paciência pra falar com as pessoas, sabe? Mesmo ele estando bravo, ele tinha paciência. A gente quando tá bravo, Deus o livre.

Arion – É, eu lembro que ele falava assim — ele nunca chamava a gente de neto ou pelo nome, chamava sempre de filho — “Oh, meu filho, vamo tomá um mate ali na varanda”. Você já sabia que ia levar uma bronca.

Júlio – É, já vinha bronca.

Arion – Aí ele começava assim: “É, pois é… então, teve o neto de um compadre meu, aquele que mora do outro lado desse morro aqui, ele fez tal coisa”. Aquilo que eu tinha feito. E ele continuava: “Ele fez tal coisa… sabe o que que aconteceu ele? Então, nunca faça isso”. Eu ia aprendendo assim. Ele nunca dava bronca, sempre voz mansa, mas ele mandava o recadinho dele, né.

Júlio – Se ele sentasse e te chamasse perto, a coisa tava feia.

Ivo – Ele tinha um jeito pra dizer.

Arion – Tinha, você já sabia que ia lá e ele já tinha descoberto. Uma vez a minha irmã do meio tava brincando com umas bolinha de gude. Tinha três bolinhas pretas e duas bolinhas brancas. Uma bolinha branca sumiu. Daí, minha mãe e meu pai se apavoraram. “Meu Deus, meu Deus, a bolinha! Será que pôs na boca?” “Não, não pus, não pus!” Aí eles sabiam que eram três pretas e duas brancas, isso tinha sumido uma branca né. Aí ele falou assim: “Ainda bem que sumiu uma branca, porque se sumisse uma preta a coisa ia ser complicada.” Daí ela colocou a mão na boca e perguntou: “E se foi uma preta, e se for uma branca, vô, o que acontece?” Ele já sabia que tinha acontecido alguma coisa, que ela tinha engolido. Então, assim, ele tinha o jeitinho dele de descobrir as coisas, de contar e de conversar.

Ivo – Vocês confirmam o que as pessoas falam do seu Júlio, né. Uma pessoa que merece as homenagens que recebeu.

Júlio – É, na verdade, dos netos, quem mais conviveu fomos nós dois. Os outros vinham esporadicamente, os filhos da tia Rose vinham, mas esporadicamente. Agora, nós dois, a gente tava sempre por ali.

Arion – Eu mesmo morando em Curitiba, eu passava minhas férias inteiras na fazenda. Eu não via a hora de ser férias pra me mandar de lá pra cá e ficar aqui internado com ele. Eu gostava bastante, era um prazer muito grande de estar do lado dele, porque ele transmitia essa paz, esse carinho, esse amor, sempre foi muito afetivo conosco. Claro, a gente gosta de quem… imagina um vô que fica ali te dando carinho, atenção, e a gente se criou ali nesse terreno, naquela fazendinha dele. Aquilo, pra nós, faz parte da infância até hoje. Eu me vejo lá dentro daquela casa, eu acho que nem existe mais, derrubaram.

 

Ivo – E ele não queria casa de luxo, né, a casa dele era de madeira, ele não queria outra.

Júlio – Não, ele não queria. Uma vez fizeram um projeto, não sei quem fez. Você lembra? Fazer uma casa de material pra ele. Ah ele pegou o projeto e deixou pro lado.

Arion – Ele fez um puxado, um quarto pro lado da casa, que o banheiro era de material. Lembra daquele puxadinho que ele fez? Ele fez um banheiro de material, mas ele não queria nada, ele queria era madeira, o chão de madeira. Eu tomei banho lá, o Júlio também deve ter tomado, aquele que a gente equilibrava água quente com fria.

Júlio – Sim, puxava a cordinha e descia água de lá.

Arion – Se misturava água quente e fria ali e você ficava embaixo tomando banho. Era assim, a gente corria atrás das galinhas pra fazer a canjinha junto, a Julieta ali, ele gostava disso, gostava da gente em volta, a felicidade dele era ver os netos ali com ele. Pra nós foi muito importante, muito marcante o vô.

 

 Empreiteiro de estrada

Júlio Assis Cavalheiro em plena Avenida Júlio Assis Cavalheiro,

numa foto de dezembro de 1988, na inauguração do Calçadão.

Sobre a vinda de Júlio Assis Cavalheiro para Francisco Beltrão, em 1946, seu filho Rosenery assim escreveu:
“Júlio Assis Cavalheiro foi designado para ser empreiteiro do trecho de Vila Nova (atual Pato Branco) a Marrecas. Ele contratou aproximadamente duzentos homens, lembrando que o serviço na época era totalmente braçal. As máquinas eram carroças com caçambas chamadas tombeiras, puxadas com burros, e o restante era feito com ferramentas manuais. Faziam acampamentos de distância em distância, onde os homens ficavam nos intervalos de trabalho, alguns com seus familiares.”

Após completar a abertura da estrada, seu Júlio se estabeleceu, com a família, na Vila Marrecas, futura Francisco Beltrão. Ele adquiriu as terras que ficavam à esquerda da Estratégica (atual Avenida Júlio Assis) e Luiz Antônio Faedo possuía as terras do lado direito. Júlio Assis e Faedo tornaram-se compadres e se uniram para iniciar o povoado.

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