Na década de 80, serrote era ferramenta de trabalho para os motoristas

João Riva começou a trabalhar na Cattani em 1976 como cobrador e se tornou motorista em 1978. Ele lembra que dirigir no Sudoeste, na época, não era fácil.

João Riva, com seu ônibus antigo, na década de 70, quando dirigir um carro destes “era sofrido, bem pior que lavrar.”

Hoje, antes de embarcar no ônibus, o ‘check list’ que o motorista precisa fazer é, basicamente, bater com o martelo nos pneus, já que os computadores de bordo fazem todas as medições de como está o veículo para a viagem. No final da década de 70 e começo de 80 a situação era outra: antes de sair, precisava conferir se a caixa de ferramentas estava no bagageiro. “A gente andava com serrote, marreta, enxadão, corrente e um monte de equipamento”, lembra João Riva, que começou como cobrador da Cattani em 1976 e se tornou motorista em 1978. 

Ele tem alguns segredos para andar no barro. “Até que caía a traseira, tudo bem, mas quando caía a frente também, complicava para desatolar. Se encalhava, a gente procurava guincho de serraria, se não, a gente pegava junta de boi manso. Era o jeito. Nem precisava chamar o povo, todo mundo descia e só ficavam as mulheres dentro. Tinha umas que eram mais dispostas e desciam pra empurrar. Naquele tempo, as pessoas davam graças a Deus de viajar e ia de qualquer jeito. A gente tinha prática no barro, aprendia, fazia valeta pra puxar a dianteira. Claro que esbarrar em barranco era normal, mas acidente, graças a Deus, não tive nenhum. E andei”, relata João Riva.

Ele se aposentou no dia 25 de novembro de 2019. “Eu parei no dia de Natal. Se voltasse a fazer, acho que fazia tudo de novo. Tenho pena de ter ficado velho. Se fosse pegar um carro hoje, precisar ir pra Curitiba, eu vou e garanto. Agora, claro, hoje tem muita gente nova. Hoje não tem como comparar dirigir um ônibus com aquele tempo”, diz. 
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História
Toda viagem, naquele tempo, era uma aventura que durava horas e horas. “No Sudoeste eu comecei em 1976 e passei a ser motorista em 1978. Comecei como cobrador porque na época exigia carteira C2 para dirigir e eu tinha só a C. A primeira viagem foi Pato Branco-Capanema que a gente saía 14h30 e chegava às 20h em Capanema. Parava em tudo que é lugar e dava muita gente. A estrada era ruim, carro ruim, nada prestava. Os fabricantes de ônibus, em vez de colocar o hidráulico pra ter freio bom, não colocavam nada, era queixo-duro, não tinha volante hidráulico. Era sofrido, pior que lavrar”, compara.

Dirigir ônibus, para João, era um sonho de criança. “Quando eu ia na aula, a professora pedia o que eu queria ser quando adulto e eu sempre dizia que ia ser mecânico ou motorista. Aí eu saí para estudar, nem a família sabia, mas eu comecei a trepar em cima de caminhão pra cá e pra lá e aprendi a dirigir praticamente sozinho. Larguei mão dos estudos pra trabalhar nas empresas. Aí fui pedir para um tio meu, o Angelo Pasa, irmão da minha mãe, o que ele achava e ele disse que a empresa era uma escola. Saí da casa deles e fui trabalhar na Helios, no Rio Grande, em 1973. Fazia a linha Irai-Alpestre e depois Iraí-Passo Fundo. Ia e voltava no mesmo dia. Depois vim pra Cattani, e, em 1985, que dividiu, eu fiquei na Brantur”, lembra.

Além de ter andado o Brasil inteiro dirigindo ônibus, João morou em São Paulo, Curitiba e também no Pará e na Bahia. “Eu gerenciei uma parte da empresa lá pra cima. Não trabalhei direto de motorista. Em São Paulo cuidava da agência de encomendas; também cuidei de uns caminhões numa obra na Rodovia dos Trabalhadores, que hoje é Ayrton Senna. No Pará eu fui cuidar de uma empresinha da Cattani do outro lado do Amazonas, uns 300 e tantos quilômetros perto do Amazonas”, relata.

Empresas pagavam bem
João conta que a relação empregado e empresa era diferente. “O dinheiro era a rolê. As empresas pagavam bem, porque o que tinha eram os ônibus.” As viagens mais memoráveis foram as de turismo. “Você chegava na praia, encostava o ônibus e não mexia mais. Ficava festando junto com o pessoal”, conclui. 

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