”Desmotivação faz parte do desenvolvimento do estudante”, diz psicopedagoga

Keli Folquini alerta para necessidade de se rever alguns padrões.

 Keli Folquini, psicopedagoga clínica e terapeuta.

A partir da pesquisa da Datafolha em relação às aulas não presenciais, indicando que 77% dos estudantes se sentem tristes, ansiosos, irritados ou sobrecarregados na pandemia, o JdeB entrevistou Keli Folquini, psicopedagoga clínica e terapeuta, para identificar as alternativas para mudar esta realidade.

JdeB – Como tornar a rotina de estudo mais “leve” na pandemia?
Keli Folquini: Eu gostaria de pedir para refletir sobre o que está sendo pesado nesse período. Pelo que eu tenho atendido, as principais queixas são quantidade de atividades, falta de tempo e disponibilidade de acompanhar as crianças ou simplesmente reclamar, porque somos habituados a fazer isso. Justamente agora, quando a gente se encontra em uma situação mais desafiadora, tudo parece muito perfeito para a gente hiperfocar em tudo o que não vem agregar em nada de bom. Refletindo sobre esses assuntos, eu acredito que a gente pode chegar a uma conclusão do que que traria a leveza. Pelo que eu tenho conversado com as crianças, com os pais e também com os professores, é que nós estamos vivendo um período diferente, e isso pede maneiras diferentes de fazer as coisas, porém, os resultados também vêm de forma diferente e o problema está aí: nós estamos engessados a padrões e sistemas, é muito difícil aceitar essas mudanças. Quando eu falo em mudança, é simplesmente o fato de que o meu filho, que precisa de ajuda, recebe um monte de atividades em casa e eu, enquanto mãe, enquanto pai, também estou trabalhando e não dou conta, aí eu não consigo nem sequer me desvincular desse sistema, desses padrões em que tudo tem que ser feito da forma como que é imposto e eu não consigo nem auxiliar meu filho a talvez selecionar algumas atividades e aceitar que algumas vão ficar para trás, porque a gente não dá conta de tudo em casa. Ao mesmo tempo, eu preciso reclamar e jogar a culpa em alguém? Não, eu vou mudar o meu ponto de vista e vou ter empatia também pelo aquele professor que está fazendo todas essas atividades, ele também está tendo que aprender a ser e fazer de uma forma diferente, isso não significa que ele vai acertar no primeiro momento. É preciso olhar para toda a situação, mas com mais presença, eu digo muito para os pais que é melhor fazer menos atividades e de uma forma harmônica, com qualidade, do que ter um monte de atividades e fazer apenas vencer a quantidade.

Como fica a questão do tempo e da disponibilidade?
A gente precisa se ajustar nesse novo período. O dia continuou com a mesma quantidade de horas, mas é o que eu falei: se fazer diferente, às vezes, nos leva a reajustar o nosso tempo de uma forma diferente e simplesmente dizer “não consigo”, “não tenho disponibilidade”; o tempo é muito uma questão de se organizar. Não dá para continuar jogando a responsabilidade para o outro, é preciso de consciência. Está na hora da gente trabalhar muito mais a nossa paciência, porque todos estão tentando e, aos pouquinhos, largando as críticas. O que a gente julga certo ou errado, feio ou bonito é a partir da nossa perspectiva, não de como realmente é. Eu acho que se aprendermos a ter empatia e olhar para toda essa situação com um pouquinho mais de leveza, as coisas vão melhorar.

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É possível motivar esses alunos?
Sim. É possível estarmos bem, vivermos bem, em harmonia. Agora, o que eu acho desnecessário é o gasto de energia que eu vejo muitos pais tendo, em tentar manter essas crianças motivadas e sem frustração o tempo todo. Nós sabemos que vivemos em constantes mudanças, esses alunos estarem desmotivados de vez em quando, sentirem uma frustração de vez em quando, sentirem tédio faz parte do desenvolvimento, isso é saudável. Então, quando se fala na questão de motivação: sim, é possível, nós temos que fazer atividades que nos façam bem, nós temos que viver de uma forma verdadeira onde a gente consiga expressar os nossos sentimentos e dizer que tem coisas que a gente gosta e que a gente não gosta de fazer, é preciso fazer com que essas crianças entendam que é necessário dar continuidade nas atividades, mesmo sendo mais desafiadoras as aulas on-line, porque o nosso cognitivo não deve parar por causa de uma pandemia, nós não podemos deixar de estudar, de ler, de aprender, mesmo que seja de um jeito diferente, porque a pandemia chegou. Mas, não vejo a necessidade de gastar tanta energia pensando que essas crianças e esses alunos precisam estar motivados, precisam estar felizes, precisam estar bem e com atividades o tempo todo, eu acho importante entender: a desmotivação, a frustração e até mesmo tédio fazem parte do desenvolvimento.

Quais seriam as alternativas para aliviar a ansiedade?
Eu vejo ansiedade como uma total projeção das nossas expectativas para o futuro. De que vale estar tentando projetar tudo e ansiosa por um futuro, se a gente nem sequer vive com qualidade o nosso momento presente? Eu peço muito para as pessoas fazerem o exercício da respiração consciente, que é respirar fundo expandindo bem o diafragma, soltando bem o ar e tentar pensar no aqui, no agora, no momento que elas estão. Qual é o real problema que elas têm? As pessoas geralmente relatam algumas questões físicas, dependendo da hora do dia um pouquinho cansada, com fome, frio ou calor, só que se for observar, quando a gente pensa no momento presente, onde a gente está sentado, no local que a gente está, nós não temos problemas. Para aliviar toda essa ansiedade, eu sempre indico: respiração consciente, a prática de meditação, atividades físicas que te façam bem, praticar yoga, pilates, ir numa academia (se te faz bem), fazer alguma caminhada, qualquer atividade que faça com que você desacelere um pouquinho. A primeira coisa é ter a consciência de que não temos o controle do nosso futuro, então não adianta ficar com as expectativas a mil, tentando organizar toda a nossa vida em um único dia, que não é assim que funciona. Então é viver cada momento, cada situação como ela é, e eu acredito que isso faz com que a ansiedade reduza bastante, aumentando assim a consciência e a sensação de bem-estar de uma forma assim bem incrível.

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