Regional

Aos 82 anos, Antonio Arisi vive com a esposa, dona Lides, no Bairro do qual ele é um dos pioneiros, o Alvorada. Devido ao coronavírus, quase não sai de casa. Nesta entrevista especial para o caderno de aniversário de Marmeleiro, ele recorda quando chegou no Paraná para abrir um posto de gasolina em Flor da Serra, depois um restaurante em Marmeleiro; do tempo que jogava futebol, do tempo de políticos como Arnaldo Busato e Ivo Thomazoni, quando Salgado Filho ainda não era município.
Como foi sua chegada em Flor da Serra?
Antonio Arisi- Não tinha arrumado uma casa, daí fomos morar numa casa que tava vazia, mas tivemos que botar dois paus de cinco metros e meio de barrote e escorar, senão ela caía. E quando nasceu a Eliamar, tivemos que enlonar a casa em cima de onde era forrada, e tava podre, daí trouxe uma lona que era da firma e enrolamos em cima dos barrotes pra não molhar a cama.
Lides- Nós ficamos só seis meses naquela casa.
Antonio Arisi – É, seis meses. De julho até janeiro.
E no Rio Grande, o que que vocês faziam?
Antonio Arisi- Trabaiava na roça.
E aqui?
Antonio Arisi – Aqui nóis viemos pra botar o posto de gasolina. Mas lá no Rio Grande eu nasci bem pobre, que foi fazer a primeira comunhão, a Leonilde, minha irmã, tinha o padrinho dela sapateiro, deu o chinelo pra ela, ela me emprestou o chinelo pra mim comungar. Quando eu voltei de volta, ela me tomou o chinelo.
E depois, o pai começou a crescer, daí quando eu casei, tinha casa de comércio que tinha de tudo, era de fumo até tecido. O meu irmão já tinha três ônibus, nós tinha bastante gado, acho que uns 50, 60 alqueires de terra. O mais que trabalhou na roça fui eu e o Pedro, porque quem cuidava a bodega era o pai, a Derlinda e o meu cunhado que morava lá.
E por que foi parar em Flor da Serra? Tinha parentes ali?
Antonio Arisi – Não. Tinha meus dois irmãos que moravam em Salgado Filho, o Albino e o Luis, e eles queriam botar o posto, porque não tinha posto ali, só tinha posto em Barracão, um em Guarujá e aqui no Marmeleiro, que era o Liro só que tinha posto naquele tempo. O nosso era o Posto Antonio M. Arisi. Foi o primeiro de Flor da Serra.
E hoje é de quem o posto?
Antonio Arisi – O posto lá é do meu sobrinho que morreu. Agora é do sobrinho André. Mas, nós era sócio lá e aqui. Agora é só dele.
E como era naquele tempo um posto de gasolina? Tinha só gasolina ou óleo também?
Antonio Arisi – Tinha gasolina e óleo diesel. Botamos gasolina e óleo diesel. Mas gasolina vendia, por exemplo, cinco mil litros, vendia mil litro, oitocentos litro de diesel só, porque não tinha caminhão diesel naquela época. As primeiras bombas que nós botamos lá era assim, não tinha luz e a bomba era assim…
Ah, de manivela?
Antonio Arisi – Uma de gasolina alavanca e a diesel era a manivela. A diesel não tinha um homem que botasse seis litros de diesel sem descansar na manivela.
E quando era inverno, o óleo saía igual?
Antonio Arisi- Sim, sim. Não congelava o óleo, congelava nos tanque às vezes.
O senhor trazia o combustível de onde? Tinha caminhão pra trazer?
Antonio Arisi – Quem trazia era a transportadora de Curitiba. Primeiro motorista que veio lá — até ele faleceu, era nosso compadre—, o João Cândido Silvério. Ele trabalhava pra uma firma de Curitiba, Quatro Irmãos, e depois ele trabalhou pro Tozetto. Depois que nós botamos o posto aqui, compramos o caminhão metade dele e metade nosso, até terminar o posto. Trocamos de caminhão, mais grande, mais novo…
Como que é aquela história do padre? Que ele ia rezar missa em Flor da Serra.
Antonio Arisi – Ele foi lá, depois ele resolveu de fazer a comunidade, daí resolvemos. Daí, lá tinha um que era o meu compadre, tinha o Perondi que era bem de vida, mas era pouca coisa. Lá, tudo os morador que tinha na pedra ali, tinha o Horácio Antunes, o velho Lambera, Liro, tinha o Batista Beline, Valentin, tinha o Nizo Bortolini e depois tinha o Paulete, lá em Salgado Filho. Ali em Flor da Serra tinha um tal de Catarino.
Quando o senhor chegou já tinha a capela?
Antonio Arisi- Não! Foi preciso construir tudo. Lá em Flor da Serra, o que tem lá eu tenho parte, tudo! Daí o padre teve que construir uma igreja de 12×15, ganhamos tudo, a madeira, só pagamos a mão de obra.Daí, o padre esperou, fomos cobrir a igreja de tabuinha e tinha uma torre grande, larga, fomos cobrir a torre em cima e não botamos escada pra subir a torre (tinha uns nove metros), ficamos em cima da torre sem poder descer, porque a torre tinha aba, como que nós ia pular. Daí, chamamos o Perondi que trouxe um rolo de corda, jogou a corda lá em cima, amarramos em roda da torre e descemos pela corda. Depois já começamos a construir o posto e já fiquei trabalhando no posto, mas trabalhava só eu e ela. Eu não sabia nada, nada de posto. Primeira troca de óleo, troquei o óleo na caminhonete do Talito Cleber (que era madeireiro). O Ciro tinha já comprado o jipe e daí eu fui lá, não, o Perondi que tinha o jipe, o Ciro não tinha. Botei óleo em cima e saiu embaixo, esqueci de fechar o tampo, botei fora cinco litros de Faixa Dourada, que era o óleo.
Deu prejuízo…
Antonio Arisi- Primeira troca, era no chão…
E já tinha o fiado naquela época?
Antonio Arisi- Fiado? Muito pouco. Quando eu saí da Flor da Serra, sabe quanto tinha de fiado fora —fiquei seis anos lá? Tinha cento e poucos cruzeiros.
Eles pagavam em dia.
Antonio – Pagavam em dia. Eu fornecia óleo no último tempo ali, nós fornecia óleo pra trator, que eles botavam pra fazer lavoura, aí eu fornecia pra um tal de Poletto, de Barracão. Ele tinha três trator grandes, de 15 mil quilos. Eu fornecia pro pessoal de Beltrão, que tinha trator também; pro Julio que tinha trator de esteira no interior; fornecia pro Aroldo Rosa; e fornecia pra tudo as lavoura de Guarujá, Barracão e até aqui no Verde, eu fornecia pro Caldato, fornecia óleo e diesel pra ele. No ano eu cheguei a fornecer 494 mil litros de óleo, eu entreguei no ano, entregue, não na bomba, entreguei no tambor.
Entregava de jipe?
Antonio Arisi- Não. Aí, em 54, nós compramos uma caminhonete, uma S10 Chevrolet nova.
Fazia um bom dinheiro então?
Antonio Arisi- Ah, naquele tempo vivemos bem lá em Flor da Serra. Quando nós botamos o posto aqui, nós não olhava se tinha dinheiro no banco pra mandar vir tanque, porque sempre tinha dois, três tanques de reserva.
Por que o senhor saiu de lá e veio pra Marmeleiro?
Antonio Arisi – Pra vir montar o restaurante aqui, pra tocar o restaurante. Ficou lá o Danirio. Eu e o Pedro cuidava aqui. Lá tinha o meu cunhado, marido da minha irmã — que faleceu faz tempo —, ele ajudava lá, ele era sócio, tinha uma parte dele lá.
E aqui o senhor sempre teve restaurante?
Antonio Arisi – Eu toquei o restaurante, eu tinha 16 anos. Depois, eu tava muito cansado, doía muito as pernas e coisarada. Daí saímos do restaurante e viemos morar aqui, tinha uma casa de madeira aqui, daí o filho do Pedro (meu irmão) foi tocar o restaurante, ele e o Pedro. O Pedro cuidava no posto e ajudava lá, tinha mais piá que ajudava. Agora, quando nós tinha restaurante, nós chegava a fazer 100 refeições no dia. Nós fazia cueca-virada, não baixava de 80/100 cueca virada por dia, nós tinha encomenda por tudo quanté lado. Tinha uma promotora, ela foi substituir o promotor em Barracão, ela telefonava lá, 30, 40, 50 cueca-virada, na sexta-feira, de tarde. Nós não deixava jogar baralho dentro do restaurante, não deixava cantar e tocar viola dentro da lanchonete, não deixava!
Lides – A primeira missa aqui no nosso bairro, lá por 77, 78, foi no nosso restaurante. Mas encheu de gente.
Vocês vieram em 77 pra cá?
Antonio Arisi – Morar sim, mas o posto nós construímo aqui em 75.
E aquelas fotos lá de Flor da Serra, aquelas de neve?
Antonio Arisi – Tenho, tenho.
Como que o senhor tem aquelas fotos?
Antonio Arisi – Ah, a gente tirava.
O senhor que fotografava?
Antonio Arisi- Não, não. Vinha de Palma Sola, o fotógrafo, e depois, veio um eletricista trabalhar com o Glade, daí ele tirava as fotografias. Mas, não fazia, ele levava, não sei se, pra Beltrão ou Barracão.
No Rio Grande o senhor tinha visto neve?
Antonio Arisi – Não.
Primeira vez que viu foi aqui no Paraná?
Antonio Arisi- Aqui no Paraná eu vi duas vez, vi aquela vez que deu bastante, em 65. E, aí, quase que vi em Palmas.
O senhor jogava bola também?
Antonio Arisi- Ah, jogava… Eu tenho um anel, o Nereu conhece, de 1957, do Grêmio. Eu jogava pro Grêmio Esportivo. Nós ficamos campeão regional em Passo Fundo, Três Passos. O Jadir Foreste era dentista, ele tinha uma relojoaria, então, ele mandou fazer um anel do Grêmio, em Porto Alegre, deu um anel pra cada um e eu tenho até hoje.
Que posição o senhor jogava?
Antonio Arisi- Meio de campo.
Marcava gol também?
Antonio Arisi- Muito pouco, às vezes era de cabeça.
Pegava campo de terra também?
Antonio Arisi – É, imagina, era tudo terra!
O senhor nunca se machucou?
Antonio Arisi – Primeira coisa quebrei o pé, lá em Salgado Filho. Depois quebrou a perna que chegou sair o osso, de brincadeira, eu fui botar a bola pra chutar, ele veio por trás e…
Que brincadeira boba.
Antonio Arisi – É. Depois lá em Flor da Serra, eu fui jogar no time de Anchieta, um amigo meu me deu uma cotovelada aqui e me quebrou duas costelas. Depois aqui em Marmeleiro, fui ajudar o cara que tava abrindo o asfalto, botei o guarda-chuva no braço porque tava chovendo, e resbalei e cai. Aí, antes disso, numa brincadeira em casa, lá no Rio Grande, quebrei o nariz e fiquei um mês, dois, com uma coisa de lata aqui.
O senhor jogou até que idade?
Antonio Arisi – A última partida, acho que tinha uns 65 anos, fomos jogar em Flor da Serra, eu e o Pedro, meu irmão, acho que ele jogou uns 10/15 anos e parou. Mas, eu, a última partida foi lá, que nós ganhamos um porco pra nós entrar no campo, só entrar no campo ganhava o porco.
O senhor gostava de jogar?
Antonio Arisi- Ah, gostava. Eu fiz curso no Internacional, de Porto Alegre, no tempo era o Rio Grandense, eu passei e a mãe não me deixou ir. Eu fui até Nova Prata, que eles vieram ali fazer curso, eu fui lá e a mãe não me deixou, não me deixou ir.
Senão o senhor teria jogado no Internacional?
Antonio Arisi – Ah, tinha jogado. Mas, joguei diversas partidas, joguei no Independente, em Passo Fundo.
E o seu time, qual que é?
Antonio Arisi – Olha, o time mesmo fanático, não tenho nenhum. Eu mais puxava pro Grêmio, porque jogava.
O que que o Arnaldo Busato dizia?
Antonio Arisi – Se eu for eleito deputado, eu vou visitar o senhor antes de eu tomar posse, se o senhor vier me visitar aqui como deputado eu serei o cabo eleitoral. Daí ele disse “tá, podemos trabalhar para o senhor”. Daí ele disse “então eu vou marcar o comício” porque era fim de julho, por aí. Passou os dias, fomos fazer comício lá em Barracão, Capanema e disse “tal dia vou fazer comício em Salgado Filho às três horas da tarde”, daí fomos avisar lá e, aí, meu irmão disse “se ele vem aqui, eu vou largar os caminhão com uma caixa de foguete com pólvora tudo em roda ali, vou mostrar pra esse vagabundo”. Ele foi lá, e meu irmão era bom de fala né, eu acho que tinha umas 300 pessoas e ele trepou em cima do trio, ele falou um monte e a turma pegava os foguetes, Salgado Filho tinha mil quatrocentos e poucos votos, ele fez seiscentos e noventa. Quando foi começo de novembro bateu ali, “no fim das aulas e eu quero pegar teu irmão pra entregar as coisas para os alunos”. Aí demorou uns seis meses, veio a Salgado Filho.
O Arnaldo Busatto que criou o município de Salgado Filho?
Lides – Sim, e o Ivo Tomazzoni é meu primo.
E o Ivo disputava com o Arnaldo. O Ivo também fez muito voto em Salgado Filho?
Ah, ele sempre ganhou lá, o Ivo e o Arnaldo sempre ganharam, eram os dois mais bem votados antes de entrar o Busato, era o Ivo, o Anibelli e o Candinho, de Clevelândia. Depois entrou o Arnaldo, depois entrou o Luis Alberto, depois veio um que era doutor de saúde lá em Curitiba e veio pra Salgado Filho para ser prefeito e aí foi o meu irmão de candidato, quando eles montaram a Prefeitura, na sapataria. Tinha uma sala um pouco maior que isso aqui e iam montar a Prefeitura, ele tinha uma mesa que cortava couro em cima, aí ele pegou o couro e foi em cima da mesa que estava tudo cortada, colocou duas cadeiras e nós fornecemos seis meses de gasolina. O doutor trouxe uma Rural, depois nós montamos uma oficina em Flor da Serra, pegamos um mecânico bom, reformamos trator, patrola, motor e tudo.







