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A previsão do mercado financeiro para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerada a inflação oficial do País, subiu novamente, de 7,58% para 8%, neste ano. É a 23ª elevação consecutiva na projeção. A estimativa está no boletim Focus, de segunda-feira, 13. A pesquisa é divulgada semanalmente pelo Banco Central (BC), com a projeção para os principais indicadores econômicos.
Para 2022, a estimativa de inflação é de 4,03%. Para 2023 e 2024, as previsões são de 3,25% e 3,03%, respectivamente. A projeção para 2021 está acima da meta de inflação que deve ser perseguida pelo BC. A meta, definida pelo Conselho Monetário Nacional, era de 3,75% para este ano, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Ou seja, o limite inferior é de 2,25% e o superior de 5,25%.
PIB e câmbio
As instituições financeiras consultadas pelo BC reduziram a projeção para o crescimento da economia brasileira este ano de 5,15% para 5,04%. Para 2022, a expectativa para Produto Interno Bruto (PIB) – a soma de todos os bens e serviços produzidos no País – é de crescimento de 1,72%. Para os anos de 2023 e 2024, há projeções de expansão do PIB em 2,30% e 2,50%, respectivamente.
A expectativa para a cotação do dólar subiu de R$ 5,17 para R$ 5,20 para o fim deste ano. Para o fim de 2022, a previsão é de que a moeda americana também feche em R$ 5,20.
Lei da oferta e da procura
O empresário Edgar Behne, que também é diretor da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), vê como normais as projeções de aumento da inflação, já que muitos dos setores da economia foram afetados pela falta de matérias-primas para que pudessem produzir. Com isso a procura por determinados produtos se tornou maior que a oferta e isso é o que está fazendo com que a inflação aumente. “A produção diminuiu consideravelmente de forma geral e a demanda, quando a produção foi retomada, não conseguiu acompanhar. Com isso os preços sobem e gera inflação.”
Quanto ao PIB, no fim de 2020 as projeções eram de um crescimento entre 3,2% e 3,5% e depois houve uma elevação para 5,5%. Agora, essa previsão foi revisada para 5,04% e Edgar afirma que considera um crescimento muito bom para a economia, mas diz não saber se esse número vai se sustentar. “Não temos como prever até o fim do ano, apesar de que estamos muito próximos disso.”
Ainda com relação à inflação, ele fala que as matérias-primas básicas e as commodities tiveram uma demanda internacional muito elevada e em função disso, tudo está aumentando.
Setor moveleiro
No setor moveleiro, a inflação interna, segundo Behne, foi mais elevada, se forem consideradas as principais matérias-primas para a produção. “Tivemos uma inflação interna que passou dos 25%, se considerarmos as principais matérias-primas.” Ele reforça que, com o decreto da pandemia da Covid-19 as demandas aumentaram e a oferta de produtos não conseguiu acompanhar. “No início os empresários diminuíram as estruturas das suas empresas e quando retomaram as atividades num tempo mais curto do que o esperado, não tiveram como retomar a produção na mesma velocidade.”
Falta de habilidade
Depois de fazer a análise dos números apresentados como projeções, Edgar diz imaginar que a inflação não deva mesmo baixar dos 8%, em 2021, e torce para que o PIB se mantenha no que foi apresentado de acordo com a última projeção. “Se pegarmos o setor de construção, por exemplo, sabemos que a inflação é muito maior, como no nosso caso internamente. Então, tomara que nosso PIB se sustente em 5%, que também já ajuda a combater um pouco a inflação.”
Uma das grandes razões de a economia brasileira ter chegado a esse ponto, segundo ele, é a falta de habilidade dos governantes na hora das tomadas de decisões. “Eles, com certeza, tiveram culpa nisso. Houve aumento de combustíveis, que também influencia diretamente na economia. O que precisamos é que em todos os setores haja uma oferta maior de produtos, para que possamos ter melhores resultados.”
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Maior culpado
Para o administrador de empresas e professor Claudemir José de Souza, diretor do campus da Universidade Paranaense (Unipar), de Francisco Beltrão, o governo federal é o grande culpado por tudo o que está acontecendo no setor econômico e todas as discussões que estão acontecendo agora sobre eleições (falta um ano para o pleito), fazem com que os investidores internacionais fiquem receosos de fazer investimentos no Brasil. “O mercado percebe a falta de foco dos gestores públicos no que realmente interessa. Isso faz com que haja fuga de investidores, justamente pelo aquecimento das discussões em torno das eleições do ano que vem.”
Antecipação do pessimismo
Outros aspectos destacados pelo professor Claudemir trazem a inércia do atual governo com relação às reformas fiscal e administrativa, venda de estatais e a falta de preocupação com os precatórios da dívida nacional.
“O governo já deveria ter um plano estruturado para os precatórios, que chegam hoje a R$ 89 bilhões, para fazer renegociações, como o parcelamento em dez anos, por exemplo. O fato do governo federal ter focado todas as suas ações numa discussão ‘sem pé, nem cabeça’, nas brigas com o Supremo Tribunal Federal (STF), com Câmara e Senado, antecipou o pessimismo que o mercado tivesse, talvez somente no ano que vem”, explica o professor.
Commodities, dólar e inflação
As consequências de o governo não ter tomado as medidas necessárias afugentou os investidores internacionais e isso, de acordo com Claudemir, afeta diretamente a cotação do dólar, que é atrelado às cotações das commodities. “Quando sobe o dólar, naturalmente sobem as commodities. Isso afeta o preço dos combustíveis de forma geral e, em cascata, alimenta a inflação. Com isso o governo federal se depara com uma situação em que está vendo a inflação caminhando para os dois dígitos e o crescimento recuando porque o investidor está com medo.”
Em agosto, puxada pelos combustíveis, a inflação subiu 0,87%, a maior inflação para o mês desde o ano 2000, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com isso, o indicador acumula altas de 5,67% no ano e de 9,68% nos últimos 12 meses, o maior acumulado desde fevereiro de 2016, quando o índice alcançou 10,36%.





