
Por Niomar Pereira – As constantes quedas de energia elétrica têm sido um fator negativo ao pleno desenvolvimento do setor industrial do Paraná. Todas as empresas demandam energia para manter sua capacidade operacional em pé, mas as indústrias, cada vez mais tecnológicas, estão sendo duramente afetadas. Os apagões sucessivos que ocorrem nos últimos anos elevam os custos com geração própria, danificam equipamentos caros e comprometem a competitividade das empresas locais em um mercado global.
A Copel não informa quantos apagões foram registrados nos dois últimos anos, porém na região Sudoeste as interrupções no fornecimento são frequentes. Segundo o empresário Olcimar Tramontin, presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico (Sindimetal), as quedas têm prejudicado muito o setor. “Aqui em Pato Branco falta energia direto. Todo o sistema produtivo fica parado. Tivemos várias reuniões com a Copel, mas eles não apresentam nenhuma solução. Aqui em Pato Branco foi construída uma subestação nova, porém a informação é que não vai resolver esse tipo de queda e não sabemos mais o que fazer”, desabafa.
O dirigente diz que vários órgãos foram acionados, inclusive a Prefeitura, em busca de uma solução, mas sem resultado efetivo. Além dos prejuízos para as indústrias locais, na opinião dele, a região acaba perdendo investimentos para outros centros. “Quando o investidor pensa em instalar uma empresa, obviamente vai procurar outras regiões que não têm esse tipo de problema. Nosso sistema elétrico aqui é extremamente deficitário. Empresas maiores estão implantando geradores para suprir o consumo, mas gastam uma fortuna e a própria energia sai bem mais cara, porque daí é gerada a diesel.”
O empresáro Leocir Marafon, proprietário da Movelmar Indústria de Móveis, de Ampere, recorda que no ano passado houve um movimento forte de toda a sociedade sudoestina com reuniões e manifestações pedindo mais investimentos no setor elétrico. “Foi criado um comitê de crise, teve uma solução parcial e a situação melhorou, no entanto, não está a contento de todos, porque a energia continua caindo.”
Marafon arrisca que houve perda de 5% a 10% da produção industrial no Sudoeste. “Nós deixamos de produzir naqueles momentos em que ocorreram as quedas de energia. Por exemplo, na nossa empresa, em meados de 2022, as quedas aconteciam toda semana. Como nós temos máquinas de última geração, em média, depois do retorno da energia, precisava mais de uma hora para as máquinas estarem prontas novamente. Houve momentos em que perdemos meio dia de serviço, com a indústria parada, mas é difícil medir tudo que se deixou de produzir e o prejuízo total na região.”
O que acontece na prática?
O engenheiro Luciano Corá, diretor industrial da Ghelplus, com sede em Ampere, explica que tanto as quedas rápidas quanto a oscilação para baixa tensão geram vários distúrbios na rede elétrica, comprometendo o funcionamento dos equipamentos. “Nossas indústrias estão cada vez mais tecnológicas, com equipamentos importados, todas eletrônicas e informatizadas, com máquinas cada vez mais delicadas.” Ampere, aliás, é um importante polo moveleiro e metal mecânico do Paraná.
O engenheiro relata ainda que as variações elétricas de subtensão queimam componentes. “Temos uma máquina de quase dois milhões de reais parada há quatro meses por queima de peça. Chegou na semana passada a fonte que alimenta todo o sistema, importada da Alemanha, após instalada detectamos que mais componentes, como drives e motores, queimaram por causa das quedas de energia. Agora é mais um tempo de equipamento parado.”
Além disso, o compressor principal teve problema no inversor recentemente, componente eletrônico que controla a velocidade do compressor e geração de ar. Está parado há mais de um mês esperando conserto em São Paulo.
De acordo com ele, tudo isso acarreta prejuízos diretos com produtividade reduzida, baixa eficiência, queda na receita e demissões. “Pensa só, essa linha que eu falei que esteve quatro meses parada, interrompeu a venda desse tipo de produto, porque não podia ser produzido, com isso gerou obsolescência na linha como um todo, gerando desligamentos de colaboradores por falta de produtividade.”
Quando ocorrem repiques (quedas momentâneas) de energia seguidos, a indústria decide desligar a energia da concessionária e ativar o gerador. “Ficamos trabalhando o dia todo com gerador, com um custo de energia muito mais elevado por conta do consumo do diesel, e assim é mais um prejuízo para a empresa. Assim como tem muitas máquinas que não operam em tensão baixa e ficam reinicializando, exigindo a utilização do gerador.”
De Ampere para Marmeleiro
Em Marmeleiro está instalada a MTA Alumínios, uma importante fábrica da região e ali a história não é diferente. O empresário Antônio Frozza afirma que as quedas de energia elétrica geram desde atraso em tarefas menos complexas, como a comunicação pela internet, até desperdício de matéria-prima. “Às vezes estamos transferindo algum arquivo grande, cai, corrompe e tem que reiniciar o servidor. Perdemos até alguns prazos, porque a internet é o coração da empresa, tem que estar conectado o tempo todo.”
No setor de pintura, por exemplo, a empresa tem uma linha de produção com cerca de 75 metros lineares de fornos para aplicação de antiaderente, e quando cai a energia, além do tempo perdido até rearmar todo o sistema, o produto usado fica inutilizado. “A gente perde o tempo de banca da pintura, que é o tempo de vida desse produto aplicado em cima do disco de alumínio, ou seja, ele não atingiu a temperatura suficiente. Quando corta a energia, ele vai ficar emborrachado e não ficará mais como deveria.” O material será vendido como sucata ou reaproveitado em produtos de segunda linha. A cada queda de luz e interrupção do serviço custa R$ 2 mil, em média, para a empresa só em produto. “Fora o retrabalho, se for colocar na ponta do lápis, aí teria mais uns 50% em cima.”
Algumas vezes as quedas de energia são muito frequentes, acontecendo de duas a três vezes por dia. “Isso mata a nossa produtividade, chega a comprometer de 5% a 10% no mês”, reclama o empresário, que já entrou em contato com a Copel, mas diz que é muito difícil a companhia reconhecer o problema. “Eles sempre dizem que são fatores externos, que estão entregando a energia. Eu teria que contratar uma consultoria mais aprofundada pra comprovar isso pra eles (Copel). É o tipo de coisa que a gente vai apanhando e vai acostumando, como eles não apresentam uma solução, a gente tem que absorver os custos da ineficiência da Copel e repassar para o preço final.”
Problemas pontuais
Em Francisco Beltrão, por exemplo, que teve registros de desligamentos de energia em janeiro, a Copel informa que as interrupções ocorreram por diferentes motivos. Inicialmente houve um desligamento causado por um problema em um equipamento da subestação. Depois um temporal provocou novos desligamentos. Conforme a Copel, durante o período mais chuvoso (de novembro a março) a rede elétrica está mais exposta à ação de intempéries climáticas, com maior incidência de ventos fortes e contato da vegetação com a rede. A companhia diz que, na atual temporada, o Sudoeste tem sido bastante atingido.
Economia cresce e aumenta demanda de energia elétrica
O consumo de energia segue tendência de alta em todo o Brasil. Um novo levantamento da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) divulgado no início de fevereiro revelou que o consumo de energia elétrica no Brasil cresceu 1,5% em 2022 na comparação com 2021. Em Francisco Beltrão, o consumo de energia elétrica também segue aumentando ano a ano. A 5ª Edição do Boletim Informativo de Conjuntura Econômica de Francisco Beltrão, publicado com a base de dados do Ipardes, mostra o consumo de energia elétrica no município no período de 2019 a 2021, expresso em megawatts-hora (Mwh) e refere-se ao mercado cativo e ao mercado livre. O consumo do município de modo geral subiu de 254.264 Mwh, em 2019, para 263.786 Mwh, em 2021 (3,74%). O consumo industrial foi o que mais aumentou, de 11.848 Mwh para 16.600 Mwh (40%).
O empresário Edgar Behne, diretor da Marel e presidente do Sindicato das Indústrias Madeireiras e Moveleiras do Sudoeste do Paraná, também está preocupado com as quedas de energia. O assunto foi tratado na última reunião do Sindicato, pois está acarretando em prejuízos para as indústrias. “Tivemos caso de queima de equipamentos em uma fábrica de móveis. Mesmo nas indústrias que possuem gerador, como é o caso da nossa empresa, os transtornos acontecem. Por isso é urgente que aconteçam investimentos de melhorias nas redes de energia elétrica, a região está crescendo e a demanda vai aumentando e os investimentos devem acompanhar.”

Copel projeta mais de meio bilhão de reais em investimentos
A reportagem do JdeB entrou em contato com a Copel para saber quais investimentos estão sendo feitos para melhorar a capacidade da rede elétrica. De acordo com nota da assessoria de imprensa, a partir deste ano haverá um pacote de investimentos de R$ 558 milhões para construir novas subestações e modernizar e ampliar outras que já estão em operação. Do total, R$ 404 milhões são destinados à construção de nove unidades em todo o Paraná. Dessas, três devem ficar prontas já em 2023, quatro em 2024 e três em 2025. Os empreendimentos incluem a construção de linhas de distribuição, que vão conectar as novas unidades ao sistema.
“A construção de novas subestações representa uma parcela importante do pacote de investimentos que a Copel está colocando em prática para reforçar o sistema elétrico e garantir a segurança energética do Paraná”, explica o presidente da companhia, Daniel Slaviero. “As novas unidades vão ampliar e modernizar a infraestrutura elétrica do estado, o que propicia melhores condições para os setores produtivos continuarem a se desenvolver e proporciona mais conforto para a população”, acrescenta.
Como funcionam as subestações
As subestações aumentam a capacidade de distribuição de energia aos grandes centros urbanos. Na prática, elas são utilizadas para alterar a tensão da energia transportada.
A energia elétrica é produzida em usinas e depois passa por uma subestação elevadora, onde a tensão é aumentada para ser transportada por longas linhas de alta tensão. Isso porque, quanto maior a tensão, maior a eficiência desse transporte. Ao chegar às cidades, a energia passa pelas subestações redutoras, que diminuem a tensão e a distribuem para a rede urbana, fazendo com que a energia chegue aos consumidores.
Conforme a Copel, a capacidade de uma subestação varia de acordo com o número de transformadores – equipamentos responsáveis por alterar a tensão de energia. De forma aproximada, em média, uma subestação de 138 mil volts tem capacidade para atender cerca de 150 mil consumidores. A maior parte das novas unidades que a Copel está construindo por todo o estado vai operar nesta tensão.
Região Sudoeste
No Sudoeste do Estado, os investimentos na construção de novas subestações totalizam R$ 97 milhões. Serão duas novas unidades. Ambas vão operar em 138 mil volts e têm previsão de entrar em operação em 2024. Em Francisco Beltrão está sendo construída a SE Petrópolis, que contribuirá para reforçar a qualidade do fornecimento de energia às principais cidades da região. Em Capanema está sendo erguida a SE Barão de Capanema.
Paraná Trifásico
Ademais, há investimentos em andamento dentro do programa Paraná Trifásico, que está investindo R$ 2,7 bilhões para construir 25 mil quilômetros de redes trifaseadas na área rural de todo o Estado, e o Sudoeste está sendo beneficiado com 1.741 quilômetros. Até o momento foram concluídos 1.331 quilômetros. Os municípios da região mais beneficiados foram Chopinzinho, que já tem concluídos 85,5 quilômetros das novas redes, Francisco Beltrão (83,8 km concluídos) e Verê (72,2 km).
A Copel está substituindo a rede rural atual por uma rede mais moderna, trifaseada, com cabos protegidos e capacidade de comunicação remota.






