SAÚDE MENTAL

Psicanalista analisa bebês reborn e seus efeitos emocionais

Érico Péres de Oliveira
Érico: o que chama atenção é a possibilidade de uma infantilização ou de quebra da realidade.

Festas de aniversário para bebês reborn, encontros de “mães” desses bonecos hiper-realistas e até casos de disputa de guarda judicial envolvendo essas réplicas de recém-nascidos têm ganhado cada vez mais visibilidade nas redes sociais. O fenômeno, que desperta curiosidade e também críticas, tem levantado questionamentos sobre os limites da fantasia e da saúde emocional. Para compreender melhor o que está por trás desse comportamento, o Jornal de Beltrão conversou com o psicanalista Érico Péres Oliveira, membro da Escola de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre e que atende em Francisco Beltrão.

Segundo Érico, a relação afetuosa com objetos inanimados não é algo incomum. “Quem nunca desenvolveu amor por um objeto inanimado que atire a primeira pedra. Todos nós já tivemos apreço exagerado por algo — um carro, uma moto, bonecos colecionáveis, joias, instrumentos musicais…”.

Ele explica que a tendência humana à fantasia está presente em diversas práticas do cotidiano. “Pense nas batalhas de air-soft ou nos eventos como Comic-Con, onde todos se fantasiam. Até mesmo o processo de humanização dos pets tem esse viés.”

- Publicidade -

No entanto, o psicanalista alerta para uma distinção importante no caso dos bebês reborn. “O que chama atenção é a possibilidade de uma infantilização ou de quebra da realidade. Há uma linha entre saber que se está fantasiando e acreditar que se trata de um bebê”, explica. De acordo com ele, os reborns surgiram inicialmente como uma ferramenta terapêutica, para auxiliar em processos de luto ou solidão. “Porém, não fazendo uma substituição para vínculos reais. Quando acontece de se romper tal barreira, requer atenção.”

Questionado sobre se as pessoas realmente desenvolvem sentimentos por esses bonecos, Érico pondera: “Isso depende do limiar de realidade. Tivemos, por exemplo, os Tamagochis, que tinham necessidade de comer e dormir, e interagiam muito mais do que um bebê reborn. Ninguém acreditava que era um animal real, então tudo bem. O bebê reborn, justamente por ser uma réplica muito fiel, desperta mais questionamentos.” Ele completa: “Você pode comemorar o aniversário de um boneco, mas acreditar que ele é real e vai interagir com você — aí seria importante procurar ajuda para entender o que está acontecendo.”

Outro ponto destacado é o papel das redes sociais na disseminação e intensificação do fenômeno. “Quando surge uma onda, a grande maioria tenta surfar. Essa popularidade dos bebês reborns também se deve à quantidade de pessoas que entraram na história com o único objetivo de viralizar.” Segundo ele, muitas das histórias sobre pessoas procurando serviços públicos, como creches ou o SUS, para seus reborns, não passam de invenções para atrair atenção. “Aqui falamos de outro fenômeno: a necessidade de aparecer a qualquer preço. As redes sociais nos deram palcos próprios e nos convenceram de que precisamos atrair o máximo de plateia.”

Por fim, Érico ressalta que a busca por protagonismo não é, em si, um problema. “Todos sentimos necessidade deste sentimento — na dose correta. O problema é quando a internet nos torna dependentes da aprovação de terceiros, rompendo os critérios do absurdo.”

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Destaques