Dono de imobiliária, Juarez da Silva prefere morar dentro de um ônibus adaptado: “Tenho tudo o que preciso”. Ele já foi até Buenos Aires e sonha percorrer o Nordeste.

Juarez da Silva, 59 anos, mora dentro de um motorhome. Ele prefere esse estilo de vida. Já teve imóveis, dono de imobiliária, vendeu carros e casas, mas há cerca de 20 anos prefere a liberdade da estrada. “Eu tenho tudo. Tenho a minha cama, o banheiro, o banho quente, TV e que mais precisar.”
Ele tomou gosto pelos motorhomes quando planejava comprar uma casa de veraneio à beira de um lago. Um amigo sugeriu outra ideia. “Ele falou: ‘por que você não compra um motorhome? Pelo menos você tem casa no lago, tem aonde você quiser’. Aí eu digo: ‘cara, boa ideia’.”
Foi Juarez quem montou o próprio veículo-casa. “Comprei o ônibus. Desmanchei todo ele e fui fazendo, pedindo informação pra um, pra outro.” Com o tempo, abriu até uma fábrica de transformação de veículos. “Nossa, eu vendi muitos.”
Hoje, vive de maneira autônoma. Segue fazendo negócios imobiliários — “uma vez por ano” e, além do carro onde mora, tem outros sete, restantes do período em que os fabricava.
De acampamentos à fabricação de motorhomes
O gosto pela vida sobre rodas tem raízes na infância. Juarez acredita que os acompanhamentos de pesca o inspiraram. “Nem barraca havia, era uma lona. Colocava por cima. Acho que já vem dali, já.”
Quando se casou, incentivado pela esposa, ele concordou em morar num apartamento. Não se adaptou. E quando o divórcio veio, aproveitou para retornar ao motorhome.
Liberdade, segurança e autonomia

Juarez destaca a liberdade como a principal vantagem. “Você quer pousar, você pousa. Cansou, ‘ah, que lugar bonito aqui, é aqui que eu vou ficar’. Quer fazer um churrasquinho, viu uma churrasqueira, uma cachoeira bonita, um lugar bonito, te chamou a atenção… Você estaciona e fica ali.” Outra vantagem, segundo ele, é a autonomia do deslocamento. “Você vai curtindo. Cansei de sair daqui pra ir pro litoral e pousar em Pato Branco. Não tem hora pra sair.”
Quando perguntado sobre o que não gosta, é direto: “O que eu não gosto é chegar no posto e encher o tanque. Essa é a parte mais difícil. Custa caro. O meu veículo faz quatro km por litro. Então, você tem que desembolsar um fardinho de dinheiro” [risos].
Mesmo assim, diz nunca ter passado por assaltos. “A gente sabe onde vai estacionar. Não é em qualquer lugar.”
O maior apuro ao longo de duas décadas morando por aí ocorreu em 2025. “Foi lá na Serra da Francisca [SC]. Eu tava vindo da praia. Levei uns amigos. Eles quiseram vir pela serra, à noite. Quando estava subindo, deu problema. Caiu um fiozinho da bomba. Aí parou. Chamei o guincho pra me socorrer até um lugar seguro.”
Entre o aconchego da cidade e os caminhos do país
Apesar de ter viajado para lugares como Porto Seguro (BA), Rio de Janeiro, São Paulo e Buenos Aires, Juarez mantém Francisco Beltrão como base. “Eu não me mudo daqui”, garante.
A viagem mais aguardada por ele é para o Nordeste. Quer destrinchar a região. Mas faz uma ressalva. “Eu não troco Sul por Nordeste nunca na vida. O Sul tem coisas muito mais bonitas.”
A comunidade de motorhomeiros, segundo ele, está crescendo. “Quando eu comecei eu acho que tinha dois só. Hoje tem bastante já.” E há um perfil comum entre eles. “Geralmente são pessoas mais velhas, já estabelecidas. Aposentados. Tem de tudo — pedreiro, médico, delegado.”
Da roça para a cidade, e da cidade para a estrada
Juarez nasceu e passou a infância no KM 8, zona rural de Beltrão. “Minha mãe veio pra cidade e acompanhei ela.” Filho de Maria da Silva, começou a trabalhar cedo. “Com 13 anos eu já tinha minha carteira assinada. Eu trabalhava na Madecasa. E nos finais de semana lavava carro e cortava grama.” Antes disso, já vendia picolé e maçã. Depois, passou por empresas do comércio. “Trabalhei na Pernambucanas, depois na Renner.”
Mais tarde, fez o curso do Creci e abriu uma pequena imobiliária. Juarez diz que foi ele o organizador do primeiro feirão de veículos de Francisco Beltrão, entre o fim da década de 1980 e início de 90, de nome “Bolsa de Negócios”. Hoje, se considera quase aposentado. Trabalha de forma autônoma e afirma que não pode parar. Mas o que gosta, mesmo, é de motorhome: “Se quiser, atravesso a noite conversando sobre isso”.





