O produtor Albino Poposki prevê abandono da cultura devido aos altos custos.

Arquivo JdeB

Flávio Pedron/Jdeb
O cenário para a triticultura paranaense na safra 2026/2027 é de retração. De acordo com o presidente do Sindicato Rural de Francisco Beltrão, Albino Poposki, a intenção de plantio de trigo sofre um declínio significativo, com estimativas de mercado já apontando para uma redução de 15% na área cultivada em todo o estado.
Os principais motivos para o desânimo do setor produtivo são o alto risco da cultura e a falta de suporte financeiro. Segundo Poposki, o agricultor está descapitalizado e teme investir em um cereal que exige altos aportes, mas oferece poucas garantias de retorno. “Os recursos oficiais são poucos, o custo do recurso é caro e o produtor não vai gastar seu último fôlego em uma cultura de alto risco”, afirma o dirigente.
O abandono da cultura
Poposki destaca que a sensação no campo é de que a cultura do trigo está sendo “esquecida” pelas esferas governamentais. A falta de políticas de seguro agrícola robustas e os custos de produção elevados são os principais entraves citados pela Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab) e pelo setor técnico.
“Eu vejo que a cultura está ficando bastante abandonada. De números exatos, não posso precisar, mas, conversando com a área técnica, a diminuição da intenção de semeadura é grande devido aos custos e à falta de garantias”, lamenta Poposki.
Alternativas para o solo
Para evitar que o solo fique desprotegido durante o outono-inverno — o que comprometeria a produtividade da safra de verão subsequente —, os agricultores estão buscando alternativas de baixo custo. Em Francisco Beltrão e região, o trigo deve ceder espaço para:
• Coberturas vegetais: uso de plantas apenas para proteção do solo.
• Aveia e azevém: culturas mais resistentes e de menor investimento.
• Cevada: embora seja uma alternativa em outras regiões do estado, Poposki ressalta que, em Francisco Beltrão, o plantio de cevada é limitado, pois o clima e o solo locais não favorecem o alcance dos teores exigidos pela indústria.
Com isso, o trigo deve ficar restrito a um grupo seleto de produtores, consolidando um cenário de retração que preocupa a cadeia produtiva de massas e panificação, que depende da oferta interna do cereal.
Trigo paranaense mantém foco no abastecimento interno
A safra de trigo do Paraná em 2025 foi praticamente toda direcionada ao mercado interno. Segundo boletim do Departamento de Economia Rural (Deral), elaborado pelo engenheiro agrônomo C.
Hugo W. Godinho, das 2,87 milhões de toneladas produzidas, apenas 4 toneladas foram exportadas — volume escoado para o Equador em dezembro de 2025, sem novos embarques internacionais desde então. A tendência, de acordo com a análise técnica, é de ausência de exportações relevantes até o início da próxima colheita, prevista para agosto de 2026.
O cenário representa um retorno ao padrão observado entre 2017 e 2021, período em que as vendas externas não chegaram a 10 mil toneladas. A situação contrasta com o triênio 2022-2024, quando o Estado exportou mais de 800 mil toneladas, impulsionado por preços internacionais elevados e por uma qualidade de grão menos adequada à indústria moageira nacional.
Para 2026, a projeção é de manutenção do trigo no mercado doméstico, sustentada principalmente pela redução da área plantada e pela crescente demanda da indústria local. O escoamento externo, segundo o Deral, só deve ganhar relevância em caso de perda de qualidade do grão por fatores climáticos, como geadas ou excesso de chuvas durante a colheita.





