Brasil lidera uso de anfetaminas na América do Sul, diz ONU
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Farmacêutico César Luiz Espanhol: venda de anfetamina só |
O Brasil é um dos maiores consumidores de anfetaminas — uma substância usada para emagrecer e que, em maior concentração, age como estimulante. A informação é do relatório anual sobre drogas da Organização das Nações Unidas (ONU). Em toda a América do Sul, estima-se que entre 1,34 e 1,89 milhões de pessoas de 15 a 64 anos já usaram anfetaminas.
O documento divulgado no mês passado apresenta ainda dados alarmantes sobre o consumo entre os estudantes do ensino superior. No ano passado, 13% dos brasileiros declararam ter consumido anfetamina em algum momento da vida. E o pior: das mulheres universitárias, 11% disseram fazer uso todos os meses. O provável motivo é a busca pelo emagrecimento.
Segundo o psiquiatra Ricardo Zimmer, de Pato Branco, o uso de anfetaminas é prescrito para pacientes com obesidade mórbida. Mesmo sem um panorama do consumo do medicamento no Sudoeste, o médico reconhece o descontrole neste mercado. “Não existem dados exatos, mas com certeza a anfetamina é mais consumida do que deveria, principalmente por mulheres que buscam controlar o apetite para perder peso”, comenta.
Para a maioria das pessoas, a anfetamina não funciona com a finalidade de redução de peso. Apesar da ilusão, Zimmer explica que o medicamento provoca apenas o efeito sanfona. “Emagrece em um primeiro momento e, posteriormente, a pessoa volta a ganhar mais quilos do que havia perdido”, alerta o médico pato-branquense.
A nutricionista Priscila Zambonato, de Francisco Beltrão, lembra que o ganho de peso é resultado de hábitos alimentares errados. “Quando se utiliza medicamento para emagrecer está se tratando o sintoma e não a causa que é alimentação ruim. Por isso, assim que cessa o uso do remédio o problema do ganho de peso volta”, lembra Priscila.
“As pessoas que realmente desejam tratar a obesidade precisam aderir a um acompanhamento nutricional. Para que a longo prazo esses hábitos saudáveis sejam incorporados ao cotidiano de uma forma natural e o resultado disso será o emagrecimento”, aconselha a nutricionista.
Doenças mentais
Zimmer lembra que o uso irresponsável de anfetaminas pode trazer sérios problemas. Uma das consequências é a possibilidade de se desenvolver doenças mentais. “Pode causar ansiedade e depressão com grande irritabilidade e perda do autocontrole. Em casos extremos podem acontecer até crises de psicose”, diz o médico numa referência ao risco de se desencadear a loucura por causa do medicamento.
Apesar do alerta de órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que trabalha para tornar mais rigorosa a venda de remédios controlados, tudo indica que a população continua desinformadas. “Muitas pessoas procuram a farmácia para comprar estes medicamentos. Alguns consumidores acessam informações na internet e pensam que podem comprar sem receita médica”, conta a farmacêutica Juceléa Schio, da Farmácia do Povo de Beltrão.
Mas as alterações da Anvisa querem dificultar a venda dos medicamentos controlados. Hoje todos têm a receita retida na farmácia, como é o caso dos antidepressivos e ansiolíticos. Os remédios faixa preta possuem uma atenção especial. São adquiridos somente com apresentação de uma receita azul. No caso das anfetaminas, há ainda uma restrição maior: só podem ser vendidas com uma receita azul especial denominada B-2.
Calmantes associados à anfetamina
Outro problema, paralelo ao remédio emagrecedor, é o uso de calmantes, sedativos e ansiolíticos que também são vendidos apenas com prescrição médica. Um medicamento com o princípio ativo clonazepan, por exemplo, já foi considerado o remédio mais comercializado do Brasil. Ele é usado como sedativo para dormir.
O farmacêutico César Luiz Espanhol, de Beltrão, confirma este fenômeno de vendas. “Alguns médicos associam ansiolíticos com anfetaminas para obterem um resultado melhor no tratamento, pois os ansioliticos ajudam as pessoas a diminuir a agitaçao causada pela anfetaminas que pode deixar a pessoa um pouco acelerada. Não há problema nesta associação deste que o paciente tenha o acompanhamento de seu medico, e não apresente problemas cardiológicos.”
A causa para um consumo tão grande de medicamentos que combatem a ansiedade, segundo o médico Zimmer, é o imediatismo para soluções de problemas do cotidiano humano. “Busca de respostas imediatas aos desejos como, por exemplo, ser magra. E tratamento incorreto para os quadros de ansiedade com ansiolíticos benzodiazepínicos”, analisa. “E porque ainda não temos maior disponibilidade de terapeutas adequadamente formados para tratamento de forma eficiente dos quadros ansiosos”, complementa o psiquiatra.
Ainda de acordo com Zimmer, a ansiedade faz parte das características do ser humano. “Mas as pessoas acabam buscando os ansiolíticos e, muitas vezes, até o álcool com o mesmo propósito: por não encontrarem disponibilidade, não saberem que existem outras formas mais adequadas de tratamento como medicação correta que realmente resolvem as queixas ansiosas e a terapia cognitiva comportamental, ambos devidamente validados cientificamente.”






