Pai doa rim, mas organismo da filha rejeita órgão
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| Reinoldo e Camila: pai e filha agora esperam que rim doado por ele dure o máximo possível. Ela conta com apenas 21% da capacidade renal. |
Hoje completa um ano que a jovem Camila Caroline Fernandes da Silva, de 21 anos, iniciou um drama que ainda não acabou. Foi em 17 de agosto de 2010 que ela recebeu um dos rins doados pelo pai Reinoldo Fernandes da Silva, 52, de Francisco Beltrão. O transplante de número 500, realizado na Policlínica Pato Branco, surgiu como uma esperança para ajudar os seus rins naturais que, no início do ano passado, começaram a secar e a perder a capacidade.
Os estudos precisaram ser interrompidos por causa do tratamento com remédios que inicialmente protelaria o transplante. Sem sucesso, o caso seguiu acompanhado pelo médico Roberto Pécoits, de Curitiba, que deu todo o suporte para a família. “Nem tem como citar todos os nomes pra não correr o risco de esquecer alguém. Mas sou muito grata aos médicos de Pato Branco, Curitiba e São Paulo”, agradeceu Camila, na manhã de ontem quando recebeu a reportagem do JdeB em sua casa.
A família decidiu continuar o tratamento no Hospital do Rim, em São Paulo, depois que o rim doado pelo pai sofreu rejeição do organismo. Lá, mesmo com todos os recursos, o desgaste durante o internamento foi o grande problema. “Na terceira sessão eu não aguentei, parecia que estava morrendo”, conta Camila, sobre a hemodiálise.
Hoje, depois de somar vários dias em hospitais, Camila possui apenas 21% de sua capacidade renal. Ela sabe que terá que fazer mais um transplante e receber um segundo rim, mas concentra os esforços na tentativa de voltar a ter uma vida normal. “Quero voltar a estudar e me formar”, prevê.
Antes de se despedir da reportagem do JdeB, Camila fez questão de um apelo: “Gostaria de dizer que quem tem a oportunidade de doar sangue que doe mesmo; que quem for compatível com alguém que não tenha medo: doe. Com certeza uma atitude destas vai ajudar muito quem precisa”, depõe a jovem beltronense.
Leia mais detalhes da história de Camila na entrevista abaixo.
JdeB – Como você descobriu o problema?
Camila – Minha mãe me olhou e disse que eu estava muito amarela, coisa de mãe. Aí ela me levou consultar aqui em Beltrão, eu fiz exames e deu tudo certo. Só apareceu um problema no rim.
JdeB – E o que era?
Camila – Uma doença que vai secando o rim, um nome bem complicado que eu não lembro. Fui encaminhada a Curitiba pra tratar com meu médico, o Roberto Pécoits. Ele disse que daria pra tratar com remédio, mas que cedo ou tarde eu teria que fazer um transplante. Tomei remédio durante um ano e continuei o tratamento em Pato Branco.
JdeB – E o que aconteceu depois?
Camila – Eu fui piorando, comecei a ter falta de visão, a não conseguir levantar direito da cama. Foi uma fase bem ruim.
JdeB – E isso afetou sua rotina de estudos?
Camila – Eu parei de estudar. Eu fazia Direito, estava no começo do terceiro ano, mas comecei a ficar doente e tive que parar. Quando eu me senti melhor, comecei a cursar arquitetura, mas piorei muito. Fiquei meio ano sem estudar e, em agosto do ano passado, fiz o transplante.
JdeB – O seu pai que tomou a iniciativa de fazer a doação?
Camila – Minha família inteira. Logo que eu descobri o problema, em Curitiba mesmo, o médico de lá já fez todos os exames pra saber quem era e quem não era compatível. Foi feito o exame nas minhas duas irmãs, minha mãe e meu pai. E deu que minha irmã mais velha e meu pai são compatíveis. Só que minha irmã é muito jovem pra doar, ela tem 24 anos.
JdeB – E como foi pra você, Reinoldo, doar um dos rins?
Reinoldo – Foi tranquilo. Eu tinha dois rins, doar um pra ela não ia fazer falta (risos). Estou me sentindo como estava antes. Só tenho que tomar alguns cuidados. Mas preferi que eu doasse porque sou mais velho.
Camila – Fiz várias ultrassonografias e todos disseram que o rim estava muito bem e que seria impossível dar rejeição. Fiquei superfeliz. Aí comecei a fazer exames e passei a ficar internada e a receber muito soro. Esta veia (braço direito) está dura de tanto remédio que eu tomei. Aí o médico de Pato Branco fez várias biópsias e me disse que eu já havia perdido mais de 50% do rim que meu pai me deu.
Eu fiquei com os meus dois rins nas costas e mais o que o meu pai doou. Mas vou ter que fazer mais um transplante e ter que ficar com quatro rins. Por enquanto estou só com 21% da função renal.
JdeB – E o que você fez quando descobriu esta rejeição?
Camila – Na hora nós pensamos: vamos pra São Paulo. Em dois dias eu já estava no Hospital do Rim. Cheguei no dia 8 de janeiro deste ano e fiquei 28 dias internada pra curar esta rejeição.
JdeB – E como foi este tempo em que você permaneceu em São Paulo?
Camila – Foi muito difícil, tem um remédio muito forte que eu tinha que usar um cateter porque a veia não aguenta. O remédio é muito forte. Trancou o cateter; eu, que nunca tinha feito, tive que fazer hemodiálise. Na terceira sessão eu não aguentei, parecia que estava morrendo. Mas depois fiz outro procedimento que leva menos tempo que a hemodiálise (três horas), dura uma hora. Era muito ruim, baixava a pressão. Era muito ruim.
Depois disso descobri que eu tinha um vírus que só pessoa transplantada pega. Eu não lembro o nome do vírus.
Reinoldo – Aqui em Pato Branco os médicos não viram que ela estava com vírus nas células dela. E só em São Paulo descobriram. Por isso que ela precisou ficar 28 dias em São Paulo pra matar este vírus nas células.
Camila – Se este vírus está num órgão, é mais fácil pra matar. Mas no meu caso ele estava em todo o corpo. Aí tive que tomar litros e litros de outro remédio. Mas resolveu o problema.
JdeB – E o que você pensava neste momento do tratamento?
Camila – Eu sentia um desespero porque o médico não dizia muita coisa; eu não sabia quando sairia de lá. Eu fui de Curitiba a São Paulo com o cateter no pescoço. Só podia dormir de um dos lados.
JdeB – E agora como você está?
Camila – Estou em tratamento, estou bem já tem uns 90 dias. Mas tomo 16 comprimidos por dia.
JdeB – Mesmo tendo 21% da capacidade do rim, quais as suas expectativas?
Camila – Eu espero que estes 21% durem o máximo possível porque, no futuro, eu sei que eu terei que fazer outro transplante. E é muito difícil esta fase do transplante, tem que ter muito cuidado, tem que ficar no hospital e eu já não suporto mais hospital. Minha expectativa é que quando eu tiver que fazer de novo o transplante eu já esteja mais bem preparada.
JdeB – E como são os cuidados agora?
Camila – Eu faço exames todos os meses e levo a Pato Branco. Pra ver se está tudo bem. Mas desde que eu tive estes problemas, também descobri que eu tinha uma anemia no rim. Aí tive que aplicar injeções na barriga todos os dias.
Depois foi diminuindo para três vezes por semana e agora está a cada 15 dias. Agora eu mesmo aplico.
JdeB – E este quarto rim, já tem pessoas que são compatíveis?
Camila – Já tenho vários amigos que fizeram exames e que são compatíveis.
JdeB – E quais são os seus planos hoje?
Camila – Quero voltar a estudar. Minha expectativa é que este rim dure uns sete anos. Neste tempo eu posso me formar e ter uma vida normal.





