Geral
Outro dia, antes da passagem do feriado de 25 de dezembro, estive em companhia do Apóstolo José Carlos Kampfert, pastor Jamil Chalito, pastor Hélcio Anacleto, e Lucas, filho de José, no alagado do Chopim, passando algumas horas agradabilíssimas, em passeios de caiaque.
Em determinado instante, fui sozinho ao caiaque e remei em direção às margens oclusas do ponto de vista que tínhamos do local aonde originalmente estávamos, embalado pelo som do remo ao tocar as águas e também atento ao ritmo de minha respiração, embebecido pelo banho de vida que a paisagem me proporcionava ali.
Em instantes assim é que a espiritualidade de alguém se aguça, onde o coração se humilha e se rende à pequenez de cada um de nós frente ao absurdo confronto do todo que nos cerca. Limitado e reduzido ao que verdadeiramente sou, contemplei os detalhes, tentando perceber com todas as minhas limitações, do macro ao micro, a perfeita dança da ordem estabelecida pelo Maestro dos maestros, no qual a única nota dissonante poderia ser a minha presença a quebrar o ritmo pré-ordenado. Entendi não ser assim porque até minha presença ali era esperada, para aquele tempo, naquele momento, para aquela contemplação, e assim, em minha pequenez pude ousar sentir-me parte da dança.
A contemplação sugere, desafia, nos torna indagativos. Estava em um alagado, portanto, tal paisagem não fora sempre a mesma que tinha agora diante dos meus olhos. O que foi antes? O que teria sido? Quem porventura habitara ali antes de as águas sucumbirem seus ideais originais quanto ao local?
Percebi que as águas agora estavam mais baixas do que o de costume. Percebi que as margens denunciavam cerca de 10 a 15 metros de exposição que, normalmente não seriam reveladas. Percebi os troncos expostos à luz do sol, como insistindo em dizer: “Já fizemos sombra, já produzimos oxigênio, já abrigamos aves, já produzimos frutos, passamos por inundações, e ainda estamos aqui, se nos derem chance, a gente começa tudo de novo”. Na verdade alguns dos troncos já estavam a exibir, ainda que timidamente, alguns brotos, pequenas expressões de um “verde esperança”, sinalizando que a vida é mais forte.
Sozinho ali e agora sem remar, calei-me para ouvir a pregação vivencial da natureza que me cercava, a qual sem gritos e sem alardes, apenas com sua presença, levara-me à contemplação de minha finitude e de minhas limitações, conduzindo-me à oração espontânea, a voltar-me para Deus e para os demais em 2013 com algumas perspectivas a ser lembradas e jamais esquecidas.
Primeiramente pensando que, por mais expressivas que sejam as nossas importâncias, elas são apenas parte da dança sinfônica do Senhor, e desta forma, só serei útil se aceitar fazer parte da sinfonia e da dança ao lado daqueles que Deus coordena conosco. O solo do tenor só faz sentido no tanger de toda a orquestra.
Segundo, mesmo que as águas da provação cubram alguns, se tiverem nova chance vão emergir, reverdecer, reconquistar as histórias e servir. Deste modo, ao contrário de desejar navegar sozinho por águas altas, torcer para que as águas baixem, pode nos fazer mais abençoados a fim de vermos a vida fluir de novo em pessoas das quais desistimos.
Terceiro, ser presença silenciosa, mas influente, sem gritos ou amplificações, mas apenas ser, e com o nosso ser impactar, porque se isto ocorrer, as pessoas não orarão porque as forçamos, orarão porque o Espírito de Deus as alcançou, assim como eu orei no silêncio daquele lago, no caiaque, às margens do Chopim.
*Pastor da Comunidade Batista Betel em Dois Vizinhos, palestrante, colunista e escritor.





