Seu nome? Chico!

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“Arreda a cadeira da mesa, senta aqui comigo, derredor do fogão”, disse ele. A chapa avermelhada pela combustão da lenha estalava, a chaleira chiando, o chimarrão bem cevado no canto do fogão. Usava uma camiseta xadrez por baixo da blusa de lã cinza. Acendeu um cigarro e abriu a portinha pra jogar as cinzas. Eu que não fumo, acendi um e pitei ao seu lado. A casa de madeira, o chão lustrado com cera vermelha, o bigode branco caprichado. Os causos relembravam os tempos idos. As caçadas de pacas. As noites frias no mato. A construção de cercas. Os tiros de 38 pro alto. O 22 como relíquia. O acordeom abandonado depois de uma folia num baile. Respeito à prenda eterna. Até hoje, a aliança de ouro fina nos dedos ressecados. O riso solto. O cumprimento com a mão firme. Nunca te vi triste.
Mais causos. Carreiras, dança, truco, picadas escuras. Os sete irmãos. As filhas. Todas mulheres. Netos. Bisnetos. E mais uma cuia chega ao fim. Mais um pito aceso entre os dedos. A bíblia e o rosário no quarto. A imagem de João Maria, monge que andou por essas terras. O barro no litro que foi tirado em uma das águas em que o santo pisou, curava tudo, de mau olhado a ferida. Dava a todos. Ensinou a rezar o Creio em três cantos da casa e deixar um para a coisa ruim sair. Era mágico ouvir aquela crença toda, aquela alegria que vinha de dentro dele e se misturava à fumaça que subia e tomava conta da cozinha. Tinha uma filosofia de vida que daria inveja aos orientais tibetanos. Sem nunca ter estudado, lido um livro ou meditado. “Na vida a gente tem que viver sossegado.” “Ter um emprego e viver bem.” “Não ter peleia com ninguém.” “Ser calmo.” “Resolver tudo na conversa.” “Não querer muito, isso acaba com a vida.” Ao mesmo tempo que tirava toda a ambição do mundo, o que eu não achava bom, trazia uma paz imensa, que senti poucas vezes na vida.
E eu gostava de ficar ali. Curtindo a manhã fria. Sem me preocupar com nada. Sem querer saber de nada, além das peleias antigas do índio velho. Conseguia ver aquelas histórias todas como se eu estivesse com ele naquele tempo que não vivi. Caboclo que não cozinha na primeira fervura, como dizia para demonstrar coragem diante das batalhas da existência. Hoje me deu saudades, daquela madeira encerada, da fumaça do fogão, da fumaça do cigarro. O tempo foi. Não queria que fosse. As memórias daquele dia são tão fortes que pareço sentir o cheiro daquela cozinha daqui desta sala fria e sem ninguém. Encho mais uma cuia. Sozinho. Penso naquele homem, naquela paz, o vapor da água sobe lentamente, formando um desenho abstrato no ar. Observo. Como a vida deveria ser, mas não é! Seu nome? Chico!

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