Senador recomendou seus preciosos estudos para todas as bibliotecas do Brasil.
Nesta segunda-feira, 20 de setembro, completam-se cinco anos da morte de Jorge Baleeiro de Lacerda, intelectual e pesquisador que dedicou sua vida a estudar o Brasil e que Francisco Beltrão teve a honra de tê-lo entre seus moradores por mais de 40 anos.
Faleceu prematuramente, aos 66 anos. A viúva, professora Sueli Beviláqua Baleeiro de Lacerda, lembrou que cinco anos dá 260 semanas, isto quer dizer que já perdemos 260 de seus artigos. Ou mais, porque desde 1975 Jorge publicava todos os sábados um texto na Folha do Sudoeste e, desde 2002, outro texto no Jornal de Beltrão.
Para quem gosta de ler Jorge Baleeiro, segue um texto que foi notícia no Senado em 26 de janeiro de 1999. O senador Gilvan Borges assim se pronunciou:
– Sr. Presidente, senadores, tenho em mãos uma obra muito importante para o País intitulada Os Dez Brasis, do jornalista Jorge Baleeiro de Lacerda, que publicou mais de três mil artigos.
Gostaria de recomendar à equipe técnica do Ministro da Educação, Paulo Renato, o estudo dessa obra que é o resultado de anos e anos de pesquisa desse estudioso jornalista. Sugiro ao ministro da Educação que a recomende em todas as bibliotecas do País, para que a nossa juventude tenha acesso a informações tão preciosas.
Depois de ampla pesquisa, Jorge Baleeiro, jornalista estudioso e observador astuto, publicou, no dia 19 de dezembro de 1998, na Folha do Sudoeste, jornal do Paraná, o artigo que passo a ler, para que fique registrado nos Anais desta Casa:

“Ainda alcancei a época dos grandes oradores. Ouvi grandes tribunos, li incontáveis discursos. Fui influenciado pelo meu tio Januário, ele mesmo notável orador sacro, que aliava à festa cultura humanística, bela voz, gestos largos, capacidade criadora, o que lhe facilitava as mais mirabolantes criações, passando da prosopopeia à anáfora, das litotes à antítese, da alegoria à hipérbole, do panegírico à homilia, figuras de linguagem e de retórica que ele dominava desde os tempos de seminário.
Criança em Belém, ouvi sem muito entender o célebre dom Mário de Miranda Vilas-Boas, baiano que exercita o pastoreio cristão, como arcebispo de Belém do Pará. Dom Mário era conhecido em todo o Brasil pelos seus sermões, em que citava, com grande abundância de frases latinas, Padre Antônio Vieira, Frei Luiz de Souza, padre Bernardes, todos os grandes escritores em que o próprio Rui Barbosa baseava o seu saber vernáculo. Não havia dia, lembrava o autor de “A Réplica”, em que não lesse trechos dos clássicos, não apenas para dar cor ao seu estilo, como para acentuar a vernaculidade, a excelência do texto. Hoje, quem se preocupa com a sintaxe mais pura, como o calepino de escol, em que a capa lusitana esteja presente?
O Brasil exibe, ao longo de sua história parlamentar, oradores de grandes recursos. Em minhas pesquisas, em 1996, no Senado, li dezenas de discursos de gente como Gonçalves Ledo, Rebouças, Bernardo P. de Vasconcelos, Feijó, Evaristo da Veiga (do Primeiro Reinado); Maciel Monteiro, Torres Homem, Ferreira Viana, Joaquim J. Fernandes Cunha, Visconde do Rio de Branco, José de Alencar, Silveira Martins, Barão de Cotegipe, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa.
Neste século, pelo Parlamento (Câmara e Senado) passaram nomes de grandeza verbal de Assis Brasil, Epitácio Pessoa, Pedro Moacir, Barbosa Lima, Gilberto Amado (mais escritor que orador: há peças oratórias de sua autoria que são verdadeiras joias, como proferida em 1927, no Senado, em que faz uma síntese do Brasil), Gustavo Capanema, Afonso Arinos, Aliomar Baleeiro, Carlos Lacerda, Raimundo Padilha, Bilac Pinto, para citar os nomes mais expressivos já falecidos. Atenho-me apenas à Oratória Parlamentar. Teria de fazer uma pesquisa muito mais ampla se quisesse escrever um ensaio sobre o tema. Faço apenas uma crônica, aproveitando-me de estudos na Biblioteca e no Arquivo do Senado, em que estão os Anais referentes aos mais de 150 anos de história de nossa Câmara Alta.
Outro dia, o Senador Bernardo Cabral, em aparte ao senador Ronaldo Cunha Lima, lamentava o descalabro em que anda a língua. Manuseá-la com correção, grafá-la sem erros é algo raro. Deixamos, por qualquer “me-dá-cá-aquela-palha” a expressão mais adequada, o vocábulo mais consentâneo com a luso-brasilidade, para usar anglicismos, galicismos ou americanismos de duvidosa formosura que “parecem madeixas, mas são cordas”.
Cada dia, pelo que tenho visto, os grandes oradores, aqueles que aliam eloquência ao saber vernáculo, escasseiam. Gosto, por exemplo, da gesticulação, da presença na tribuna do senador Pedro Simon. Não reveste, contudo, sua oração política, amiúde de grande importância para a vida da Nação, com pérolas literárias como o faziam Paulo Brossard, Afonso Arinos de Mello Franco, Prado Kelly, Adauto Lúcio Cardoso, San Thiago Dantas, para não falarmos nos grandes do império, ainda envoltos pela cultura clássica.
É preciso distinguir o falastrão do orador, o arengador, o “orador de carteirinha” do tribuno que sabe reunir diferentes talentos para atrair e prender a atenção do auditório. Não basta uma bela voz, amiúde desacompanhada de vasta cultura. Há que conhecer bem o assunto, já dizia o grande Padre Vieira.
Há oradores que, mesmo com voz ruim, como Octávio Mangabeira, sabem arrebatar o auditório com sua eloquência.
Austregésilo de Athayde, que nunca foi político, sempre jornalista, ao longo do tempo tornou-se um dos maiores oradores do Brasil. Especializou-se em falar sobre defunto. Mais de sessenta de seus colegas da Academia Brasileira de Letras dele receberam o necrológio pungente. Seu ex-patrão, Assis Chateaubriand, teve nele derradeiro orador, ao lado de seu túmulo no cemitério de Araçá. Athayde havia aprendido a velha oratória ciceroniana, a arte de Demóstenes, cuja “Oração da Coroa” é uma página ainda lida pelos que querem fazer boa figura na tribuna.
Saudade, também, traz-nos Pedro Calmon, que amealhou saber enciclopédico e usava-o na hora certa, no momento em que menos se esperava. Esbanjava tanta sapiência em História do Brasil que em todos os grandes eventos pátrios lá estava para relembrar nossos feitos. E o fazia com a graça de seu estilo. É célebre o discurso proferido na estrada Belém-Brasília. Pouco depois, Bernardo Sayão seria vitimado por uma árvore traiçoeira.
Adequava sua oratória ao cenário e criava momentos de rara beleza.
A Amazônia, nos últimos decênios, exibiu grandes oradores no Senado: Jarbas Passarinho, Evandro Carreira e Bernardo Cabral. Cheguei a assisti-los no Senado. Passarinho, a quem devo substancial apoio às minhas pesquisas na Amazônia, coronel reformado no Exército, que passou a maior parte de sua vida na atividade pública, passou por quatro ministérios (Trabalho, Educação, Previdência e Justiça), sendo o único brasileiro a exercer cargos ministeriais tão diferentes. (O Almirante Alexandrino foi Ministro por quatro vezes, mas só da pasta da Marinha). Aquando das porfias parlamentares, Passarinho ostentava boa voz, cultura humanística, alto grau de ironia e grande capacidade de polemizar. Ficaram célebres os seus debates com Paulo Brossard. Antológico o discurso de Passarinho em memória de Petrônio Portella, em 1980.
Não esqueço o que me contou o então Senador Evandro Carreira (PMDB-Amazonas), aparteado por Jarbas Passarinho no seu discurso de estreia no Senado. Depois de ouvir Evandro Carreira por 45 minutos, dizendo-se embevecido com Grande Página Amazônica que ele estava cinzelando naquela tarde, desbanca uma das teses amazônicas de Carreira: A presença do espírito de Carreira reduziu o efeito devastador do aparte de Passarinho, logo na estreia do neo-senador Evandro. Duelo entre dois talentosos oradores.
Orador forjado nos debates da Câmara Federal, amadurecido na relatoria da Constituinte, enriquecido na curul ministerial da Justiça, dono de imensa cultura jurídica, dosado nos gestos, sempre elegante, jamais dando espaço para a linguagem ofensiva, Bernardo Cabral é a grande voz do Amazonas no Senado. Cabral, certamente, será o orador oficial dos 500 Anos do Descobrimento. Além de filho de portugueses (o que enfatiza sua luso-brasilidade), Cabral tem provado sua bela oratória, consorciando os recursos de conhecedor do vernáculo à vasta cultura histórica sobre Mundo que o português criou, como diria Gilberto Freyre. Dentre os poucos grandes oradores que o Brasil tem hoje, Bernardo Cabral está em lugar de destaque.
Ainda não se escreveu a história da eloquência parlamentar no Brasil, muito embora se encontre muita coisa na coleção Perfis Parlamentares (editada pela Câmara dos Deputados), e Vamireh Chacon, em sua História Institucional do Senado do Brasil, tenha incluído uma antologia de discursos. Não me parece que a escolha foi das melhores. A antologia é incompletíssima. Não vive mais Hélio Sodré para nos presentear com uma obra específica sobre a arte de falar no Parlamento.
Agora, com a TV Senado, oxalá a Nação conheça os seus grandes oradores, que, ao lado defenderam grandes teses e legislarem em prol do povo, sabem fazer da língua um instrumento de beleza.
Os discursos parlamentarem são, quando belos e consistentes, páginas antológicas da História e da vida pátrias, recomendando os que proferem e provando que a língua portuguesa é um instrumento capaz de expressar com estilo um pensamento, bastante do que se sabe manuseá-la.
Esse artigo do nosso jornalista, de quem passo a ser admirador – apesar de não conhecê-lo, já o conheço pela sua obra -, gostaria de deixar registrado nos Anais desta Casa, para que seja, desde já, um embasamento para futuras obras sobre a oratória e a vida pública de nossos homens.
Sr. Presidente, Os Dez Brasis, de Jorge Baleeiro de Lacerda, é um livro interessantíssimo. Para homenagear o autor e as pessoas importantes da sua vida, eu gostaria de ler aqui a dedicatória: “A Sueli, minha esposa, amiga e companheira de todas as jornadas , razão da minha vinda para o Paraná, incentivadora de um trabalho, presença sincera e colaboradora permanente na arte de conviver, de construir um lar, de criar nossos filhos, solidária nos momentos de dor e angústia, radiante nos instantes de alegria, educadora amorosa e exigente de nossos filhos, ofereço estes 25 anos de estudos, de que Os Dez Brasis é uma antologia.
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A Lígia e Afonso Henrique, filhos amados, com os votos de saúde, entendimento da vida na sua complexidade, honradez, modéstia e sucesso-felicidade ofereço este livro, em que estão registrados tantos momentos de minha vida através do Brasil.
Este livro seria impossível sem o apoio de vocês, sem a profunda compreensão e aceitação do ideal que abracei: estudar o Brasil!”





