Andrea Talheimer conta a experiência que viveu e faz um alerta para as mulheres.

Depressão pós-parto ainda é um tabu; um assunto difícil e delicado. “Muitas pessoas não me falaram, mas sei que pensaram: ‘Nossa, que pessoa mal-agradecida’. Mas não é algo que a gente escolhe sentir, passar meses afundada neste desânimo. Passei e digo que sou uma vencedora, sou muito feliz na maternidade, amo ele sem medidas”, diz Andrea Talheimer, 36 anos, sobre o filho Miguel, 5 anos.
Além de sofrer pelo que está sentindo, a puérpera ainda precisa enfrentar o julgamento dos outros. Andrea teve e ainda tem acompanhamento psicológico, mas conseguiu superar esta fase. Além do apoio profissional, ela contou com a colaboração de muitas mães, do Instagram, numa troca de experiências. “Foi assim que eu descobri o que era o puerpério, entendi que muito está relacionado aos hormônios. Tive o apoio de mães de diversos lugares do Brasil, que me chamavam para ver como eu estava. Eu ouvi uma frase muitas vezes e é uma lição que eu levo para tudo: ‘Vai passar, tudo passa’.”
Miguel foi um bebê muito planejado; Andrea tentou engravidar por quase três anos e, quando conseguiu, foi uma festa na família. Sua gestação foi tranquila, não teve nenhum problema de saúde. Ele nasceu dia 28 de novembro de 2016, uma segunda-feira. Como fez cesárea, precisou ficar até quarta-feira internada, como de costume. “Já saí do hospital tendo leite, então não foi preciso dar fórmula pra ele ou complementar. Mas percebi logo que eu cheguei em casa, naquela quarta-feira que eu dei alta, que eu não me sentia bem. Em casa, eu sentia uma tristeza, um vazio grande, era estranho, mas eu não queria estar vivendo aquele momento, eu preferia ter ficado no hospital. Sentia um desânimo, eu sentia afeto por ele, mas não o amor imensurável que falavam.”
Ela acrescenta: “Ele sempre foi uma criança muito tranquila, não teve cólica, não tive dificuldades para amamentar e isso me gerava um desconforto ainda maior, porque eu não sentia amor de mãe e me culpava por isso. Era tudo muito estranho, um novo que eu não gostava de estar vivendo”.
Como acontece com a maioria dos depressivos, Andrea gostava quando chegava a noite, mas quando amanhecia, que seu esposo Jeferson se preparava para trabalhar, começava a sentir ansiedade e angústia de enfrentar aquilo sozinha. “Eu só tinha vontade de chorar, mas mesmo assim eu estava ali pra ele. A depressão que eu tive, em nenhum momento foi de não querer o filho ou fazer algo a ele ou a mim, mas era uma tristeza horrível. Organizava a casa, fazia o almoço, naquele sofrimento.”
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O amor é uma construção
Andrea seguiu em silêncio, até Miguel completar três meses, por medo de enfrentar julgamentos. “Foi quando eu conversei com minha mãe [Ilce] e meu esposo, falei o que eu estava sentindo. Procurei ajuda médica, precisei fazer uso de medicamento. Percebi que, quando ele completou seis meses, que eu retomei meu trabalho, as coisas foram melhorando. Claro, com a ajuda dos medicamentos. Voltei à minha rotina, os sentimentos foram passando e o que eu entendi com a maternidade é que o amor de mãe é construído.”
A culpa ainda existe e é um assunto abordado na psicoterapia. “Vejo que hoje é sim um amor que não há nada que se compare e ainda me culpo por esses seis meses de licença maternidade que eu não curti como deveria, mas eu mesma justifico pra mim: Você não teve culpa, não foi você que escolheu sentir isso naquele momento, foi um sentimento que surgiu, algo fisiológico, com os hormônios a gente muda muito.”
Andrea orienta as mulheres que querem engravidar, que organizem suas vidas para o pós-parto, como ter alguém auxiliando nos trabalhos domésticos e, principalmente, contar com uma rede de apoio. “Acho importante que as pessoas saibam que não é para todas as mães que a maternidade é um mar de rosa. Vão ter sim as alegrias, eu gostava de ouvir a risada dele, tivemos passeios gostosos, mas ainda sinto medo de sentir aquela tristeza. Ainda hoje eu faço terapia com psicólogo e acho que todos deveriam ter condição de fazer também. É na terapia que trato a culpa que eu carrego deste período difícil e acredito que graças a tudo o que eu vivi, hoje eu sou uma mãe muito presente, porque quero aproveitar cada minuto com ele. Percebo o quanto a gente é próximo um ao outro.”





