Mais cotidiano, menos rotina


Tomar um café preto sem açúcar, não para lutar contra a indústria de ultraprocessados, mas porque se quer emagrecer um pouco.


Não, mesmo que pareça, não é um texto motivacional repleto de boas energias diluídas a milhão nas redes sociais. É um texto sobre simplicidade. E, mesmo que pareça de início, não, não é um texto para vangloriar o minimalismo ou o mindset. É um texto sobre a vida.

A vida de quem acorda às seis da manhã e nem sempre dá pra fazer a oração planejada para cada dia. Tem dias que a gente sai da cama ainda zonzo. Mas as responsabilidades estão lá, arrebentando a porta. Disciplina é liberdade, cantava o poeta.

Tomar um café preto sem açúcar, não para lutar contra a indústria de ultraprocessados, mas porque se quer emagrecer um pouco. Dois ovos com pão. Está sendo mais difícil depois de uma semana. Gostava mais da minha tapioca com doce-de-leite. Mas uma nutricionista falou que é melhor evitar. Tudo bem, fazer o que não se quer é liberdade, escrevia o filósofo.

Olhar pela janela e ver o sol ainda nascendo no meio daquelas nuvens e lembrar de uma canção que há muito não se ouve. É o cotidiano entrando na rotina.

Abraçar sua filha e ouvir um bom dia da pessoa mais importante da vida. É o cotidiano entrando na rotina.

Ouvir uma boa música no rádio do carro enquanto dirige para o trabalho e cantá-la junto. É o cotidiano entrando na rotina.

Conversar sobre mudanças de estações com alguém que mal conhece no meio do dia. É o cotidiano entrando na rotina.

Cotidiano são as vozes de gente que sente, a rotina o apito do cartão ponto. Cotidiano são as crianças chorando na escola, rotina é o barulho das máquinas que fazem calça jeans. Cotidiano são as árvores da avenida que ninguém mais nota, rotina é o homem inseguro com cara de mau brigando no trânsito porque tá atrasado.

Cotidiano é a vida no dia a dia, a rotina é o automatismo dos dias que parecem todos iguais.

Cotidiano são vozes, suor, lágrimas, sorrisos, desejos, orações e esse céu cinza que acalma a mente no sul global, no futuro do mundo, na nossa América Latina. O que somos, o que queremos ser, o que seremos.

Eleandro Vieira, de Marmeleiro

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