Entre acasos, escolhas e imprevistos, a vida se revela em travessias marcadas por encontros, desencontros e caminhos inesperados que nos lembram da finitude.
Outro dia ouvi uma frase que ficou ecoando no meu corpo: a vida acontecendo à revelia.
Coincidentemente, naquele dia em que escutei essa frase, fui tomar café da manhã na casa da minha avó, e ela assistia ao jornal. Conversamos enquanto, ao fundo, uma notícia nos chamou atenção.
Uma pessoa, moradora do Rio de Janeiro, havia parado para comprar um cigarro às seis da manhã, antes de ir ao trabalho, e uma bala perdida interrompeu seu caminho.
A vida acontecendo tanto, nos lembrando a todo momento da finitude.
Logo começamos a imaginar outros desfechos. E se ele tivesse se atrasado naquele dia? E se não precisasse do cigarro naquela manhã? E se… a vida tivesse acontecido de outra forma? De repente, percebi que essas pequenas encruzilhadas da vida também aconteciam comigo, naquele mesmo ritmo inesperado.
Pois bem, fiquei pensativa sobre a finitude, refletindo sobre o paradoxo que é viver.
Me lembrei de uma vez, há um tempo atrás, que tive um voo cancelado em cima da hora. Na hora, fiquei um pouco atordoada, pensando por que aquilo teria acontecido comigo. Naquele mesmo dia ocorreu uma pequena revolução cotidiana na minha vida e, se eu tivesse voado, provavelmente não teria acontecido.
Outra vez, ia à feira, mas resolvi voltar para casa e deixar meus filhos. No caminho, a vida me lembrou: mesmo nos gestos cotidianos, o inesperado acontece. Fui surpreendida por um acidente.
Logo lembrei de uma canção que eu escutava muito na adolescência: Ironic, de Alanis Morissette. Eu caminhava pelo parque, tentando retomar meus treinos de corrida, e, quem diria, choveu. Coloquei a música no fone de ouvido e resolvi me entregar à chuva que caía do céu.
Na música, ela fala de um jeito poético sobre as ironias da vida: um senhor que ganhou na Mega-Sena e morreu no dia seguinte, ou alguém que foi liberado do corredor da morte dois minutos atrasado.
Fiquei pensando em quantos destinos — se é que podemos nomear assim os paradoxos da vida — se cruzam para se desencontrar.
Os olhares que dobram esquinas para não mais voltar. O abraço de despedida que não sabíamos que seria o último. A carta que desvia do endereçamento. É como conhecer o amor da sua vida, que está de mudança para o outro lado do país. E quem diria: isso acontece.
É em travessia que a vida se revela, mesmo quando precisamos parar para respirar e recalcular a rota: seja pelo voo cancelado, pela chuva que cai sem aviso ou pelo olhar que desencontra. É caminhando que se conhece o caminho.
Natalia Giongo é psicóloga e psicanalista em Francisco Beltrão.



