Essa semana, entre um compromisso e outro, saí caminhando do consultório até uma padaria que vende pão de queijo recheado com goiabada. Acho essa combinação perfeita, como se um elemento tivesse sido feito para o outro.
Popularmente, chamam de Romeu e Julieta, o que torna ainda mais sugestivo essa arte culinária. Não sei se gosto mais da harmonia dos sabores que se encontram ou do nome literário.
Eu pensava nisso enquanto atravessava a rua.
Até que meu corpo arrepiou. Um carro freou a menos de quinze centímetros de mim.
Na hora, só pensei uma coisa: eu não podia morrer. Tenho dois filhos. E um filme passou pela minha cabeça naquele instante cronológico.
A mulher que dirigia o carro acenou, eu me recompus e segui o meu caminho. Tenho uma estranha mania de reparar no percurso e, depois daquele pequeno acontecimento, fiquei ainda mais atenta.
Reparava nas flores que crescem em meio ao concreto. Capturava cenas: pessoas conversando na rua, a moça que saía do salão, a senhora passeando com o cachorrinho.
Fui caminhando e pensando: qual seria a última imagem que as pessoas veem antes do fim? Qual seria a cena final dessa película que é a vida?
Como se o tempo tivesse sido suspenso por um instante, eu pensava em tudo isso enquanto seguia para o próximo compromisso.
Lembrei da cineasta Agnès Varda: se abríssemos as pessoas ao meio, encontraríamos paisagens. E, enquanto caminhava, fui revendo as minhas paisagens preferidas: as melhores cenas, as páginas dos livros preferidos, os instantes que marcaram a pele.
Também me vieram as palavras de Galeano, em O Livro dos Abraços. Um menino diante da imensidão do mar, pela primeira vez, não conseguindo lidar com tamanha beleza, pede ao pai, enquanto seu corpo treme: “me ensina a ver”.
Eu me aproximava do meu destino, levando os meus pães de queijo Romeu e Julieta, e pensava no olhar atento ao infinito que as crianças têm.
E pensava: onde os adultos vão esquecendo de olhar e ver? Qual a dureza que encontram pelo caminho que ofusca a luz que atinge a retina dos olhos e diminui a aptidão de enxergar a vida?
Manoel de Barros escreve que é preciso aprender a “transver” o mundo. Penso que talvez essa seja a grande habilidade das crianças e dos poetas, a capacidade de enxergar o mundo pelo avesso.
Cheguei ao meu destino e percebi que tinha esquecido os meus óculos. Mesmo assim, consegui ver o mundo inteiro em algumas quadras.
Natalia Giongo é psicóloga e psicanalista em Francisco Beltrão






