SUDOESTE DO PARANÁ

Professor Hermógenes estaria completando 95 anos

Hermógenes Lazier (19-4-1931 a 9-1-2009) mostra seu livro “Paraná: terra de todas as gentes e de muita história”, publicado em 2003.
Arquivos JdeB

Neste domingo, 19 de abril, o professor, historiador e militante político Hermógenes Lazier estaria completando 95 anos.

Foi uma figura marcante, tanto em União da Vitória, onde nasceu e se formou em história, como em Francisco Beltrão, onde, além de professor, fez trabalho de verdadeiro historiador.

Foi ele, inclusive, que localizou e resgatou toda aquela documentação da Cango, que agora ajudou na aprovação de Francisco Beltrão para o Programa Iberarquivos – manchete do Jornal de Beltrão na edição de ontem.

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Segue o último artigo que Hermógenes publicou no Jornal de Beltrão, dia 22 de junho de 2007 (“Punido pela “direita” e pela “esquerda”) e o que disseram algumas pessoas na edição do dia 10 de janeiro de 2009, que o Jornal de Beltrão registrou sua morte.

Veja também a teia de palavras desta edição, que publica textos de “escritores do Sudoeste do Paraná”.

Punido pela “direita” e pela “esquerda”

Último artigo de Hermógenes Lazier, publicado em 22-6-2007
No artigo de Christophe de Lannoy, “1957: A Revolta de Colonos Camponeses Posseiros”, tem uma frase que merece reflexão: “Os militares que prenderam o professor — nos anos de chumbo — diziam ter feito a revolução, mas para quem estava sendo preso certamente era a contra-revolução”. No meu livro “Paraná: Terra de todas as gentes e de muita história” dediquei oito páginas (199 a 207) à repressão no Paraná: 1964/1985.

Sobre a minha prisão, escrevi: “A ditadura militar conseguiu se sustentar tanto tempo em virtude, também, da covardia dos civis, principalmente alguns políticos. Vejamos a posição da Assembleia Legislativa do Paraná. Após as primeiras cassações, 24 deputados estaduais apresentaram, dia 23 de abril de 1964, projeto concedendo título de cidadão paranaense ao principal responsável pelo golpe no Paraná, o comandante da 5ª RM, general Dário Coelho. Depois da segunda leva de cassações de deputados estaduais, no dia 16 de junho de 1964, o deputado Rubens Requião apresentou projeto concedendo o mesmo título à maior autoridade dos golpistas, o general Castelo Branco, que recebeu o título no dia 4 de setembro de 1964.

”Era uma atitude premiando o arbitrário e com isso reforçando o poder da ditadura. O deputado Aníbal Khury respondeu a dois processos. Sobre esse fato, escreveu Milton Ivan Heller no livro “Resistência democrática – A repressão no Paraná”:

“Os dois inquéritos instaurados pela 5ª Região Militar e pela Polícia Federal visavam apurar a responsabilidade de Aníbal Khury em contrabando de café e armas, negociatas com terras e pinhais pertencentes a reservas indígenas, exploração do jogo do bicho, compras irregulares de terras devolutas, desvio de verbas, advocacia administrativa para liberação de verbas para firmas particulares, obtenção de vantagens ilícitas para aprovação de projetos e anistia fiscal, coação contra funcionários para assinatura de empenhos falsos, intermediação indevida na aquisição do Banco Alfomares pelo Banco do Estado do Paraná e outras irregularidades administrativas”.

(Heller, 1988, p.71) Resultado: Apesar de todas as acusações, ele foi absolvido. O contrário aconteceu nos processos ideológicos, contra idealistas e sonhadores. É o caso de Hermógenes Lazier preso como comunista. Seu crime: pegar assinaturas, de acordo com a lei em vigor, para encaminhar ao Egrégio Tribunal Eleitoral para legalizar o PCB. Consta da acusação: “…Ter esta ou aquela ideologia, pelo menos no estágio atual do nosso direito, não constitui crime. Acontece que, no caso presente, o acusado Hermógenes Lazier, ao se qualificar “comunista”, quis com isso dizer que não tinha essa ideologia e sim que pertencia a um partido ao qual deu existência na clandestinidade”.

A sentença condenatória da auditoria da 5ª RM afirma: “condenar Hermógenes Lazier, já qualificado, considerando-se a intensidade do dolo e a personalidade do acusado, a pena de dois anos de detenção, como incurso nas sanções do artigo 36, do Decreto-Lei 314/67, pena essa fixada por maioria de votos”. Essa sentença aconteceu no dia 29 de abril de 1969. Os ministros do Superior Tribunal Militar, julgando o recurso de Hermógenes Lazier, reduziram a pena para um ano, quando afirmaram: “do exame da prova dos autos ficou-nos a convicção de que a pena imposta ao apelante Lazier foi muito pesada”.

Para pagar esse “crime” ficou um ano na penitenciária do Ahú em Curitiba”. Durante a minha estadia no Ahú aconteceu um fato até patético: fui condenado pela “direita” como perigoso comunista. Na penitenciária, porém, por defender a posição do meu partido político (PCB, hoje PPS), que era contra a tática de assaltar banco e da luta armada (guerrilha), fui acusado por outros presos políticos — de posições “esquerdistas” — como traidor da revolução brasileira.

Era, portanto, punido pela “direita” e pela “esquerda”. A posição política que assumi naquele momento comprovou ser correta. O fim da ditadura aconteceu pelo caminho democrático, portanto político, e não pelo confronto.

O que disseram do Hermógenes, no dia de seu falecimento

Professor Nestor Morgan, presidente do Centro de Letras de Francisco Beltrão. “O Lazier não era só um contador de histórias, era um historiador e um paranista acima de tudo. Ele conhecia a cultura e a arte. Tivemos uma perda irreparável, mas fica o seu marco. Ele deixou muitos alunos, mas também discípulos (professores que gostam de trabalhar com a história).”

Professora Celma Burile, presidente da Associação de Professores de História do Sudoeste do Paraná, entidade fundada com o apoio de Hermógenes. “Como historiador é um dos principais nomes da historiografia regional. A perda é irreparável. Apesar de a gente ter uma faculdade de história em Francisco Beltrão, com mestres e doutores, é um nome que jamais podemos esquecer. Ele incentivou a todos nós para a busca da valorização da historiografia regional. O nome dele já está na história.”

Professora e pedagoga Gema Bonetti, que trabalhou com Hermógenes na Fundação Faculdade de Ciências Humanas de Francisco Beltrão (Facibel) e no Colégio Madre Teresa. “Ele levou seus ideais políticos e humanitários sempre bem claros, e com resistência, e nunca cedeu a outros apelos. Ele sabia o que queria da vida e da política. Era um grande amigo e tinha integridade.”

Prefeito de Francisco Beltrão Wilmar Reichembach: Hermógenes foi uma lição de vida muito grande a todos que o conheceram, seja pessoalmente ou através das suas publicações. Ele teve uma trajetória de vida exemplar, uma grande dedicação à cultura, às causas públicas, à política, sempre com desprendimento. Tínhamos uma amizade muito forte”.

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