Na residência de Júlio Assis, o Cavalheiro, pioneiro que deu seu nome à principal avenida de Francisco Beltrão

Beltrão

29-10-1988: Júlio Assis Cavalheiro na inauguração do Calçadão,

que fica no meio da Avenida Júlio Assis Cavalheiro.

Nos pouco mais de 40 anos que resido em Francisco Beltrão, vi visitante comentando que Júlio Assis Cavalheiro, o homem que deu seu nome à principal avenida da cidade, devia ser “um fazendeiro muito rico”. Também vi acadêmicos falando da pretensão de escrever tese para mostrar que a cidade homenageia um dos grileiros de terras do tempo da colonização, porque fez parte de companhia de terras que explorava os posseiros.

- Publicidade -

Não concordo nem com um, nem com outro. Desde a vez que o conheci – dona Carmes Franciosi me apresentou, numa visita a sua casa, no início dos anos 80 –, das vezes que o encontrei no centro da cidade, na homenagem na Câmara de Vereadores e em várias visitas a sua casa, cada vez eu o admirava mais e gostava de ter um motivo para visitá-lo e entrevistá-lo. Ele gostava de receber amigos, gostava de crianças, gostava de ajudar os outros, criou filhos que não eram seus, deu terras a querm não podia comprar. Era um homem simples e prestativo, mas empreendedor e visionário. Tanto que foi ele, junto com seu compadre Luiz Antônio Faedo, quem iniciou o loteamento da futura cidade de Francisco Beltrão, em 1948.

Sei que conheci seu Júlio já idoso, uma fase da vida que pode deixar as pessoas mais “políticas”, digamos, mas os traços de caráter se mantêm. Quem tem jeito de bandido quando novo não terá cara de santo depois de velho, e vice-versa. Sei que a Citla o contratou exatamente porque ele era uma pessoa bem relacionada e respeitada; sei que Mário Fontana, o criador da Citla, era uma pessoa de bons projetos, o erro que cometeu – dito não só pelo seu Júlio, mas por muita gente que viveu aquela época, entre eles dr. Walter Pécoits e Luiz Prolo – foi ter vendido parte das terras para as companhias Comercial e Apucarana. Elas foram as responsáveis pela vinda dos jagunços que cometeram todas aquelas atrocidades de 1956 e 1957.

Sei, pra encerrar, que a data mais marcante da história da região é 10 de Outubro. Lideranças das décadas de 60 tentaram mudar o nome da avenida de Júlio Assis Cavalheiro para Dez de Outubro e não conseguiram. Entrevistei agricultores que participaram da destruição do obelisco de Júlio Assis Cavalheiro que havia na praça. Por que destruíram? Porque foram maltratados pelas companhias de terra, não por seu Júlio.
Esta entrevista que estamos reproduzindo na edição dos 67 anos do município de Francisco Beltrão eu publiquei na Folha do Sudoeste de 13 de dezembro de 1986. Convido você, leitor, a ir comigo na residência do seu Júlio, através das anotações que publiquei 33 anos atrás.

Júlio Assis ainda é vivo, forte e muito Cavalheiro
Muita gente pensa que Júlio Assis Cavalheiro, o pioneiro que deu o nome à principal avenida de Francisco Beltrão, seja homem que há tempo passou para a História. Muito pelo contrário, hoje com 76 anos de idade, ele é homem forte, inteiramente lúcido, cavalheiro e de uma hospitalidade invejável. Vive tranquilamente na Fazenda Jaracatiá, próximo à cidade de Eneas Marques, onde recebe os amigos para conversar do passado, do presente e do futuro, e jogar longas partidas de canastra. Criador de gado (tem 180 cabeças de Nelore e Charolês, para reprodução, em 70 alqueires de terra, onde cultiva também algumas culturas), ele declara, por exemplo, que “a carne está mesmo em falta, não é que estejam escondendo os bois, é que a pecuária há muitos anos vinha sendo desestimulada, muitas fêmeas foram abatidas e vai demorar alguns anos pra recuperar”.

Júlio Assis Cavalheiro teve quatro filhos, que hoje estão todos casados e vivendo fora (Rosinery, o “Chico”, em Francisco Beltrão; Rosemary, que é gêmea de Rosinery, Arion e Jussara, todos em Curitiba) e sua esposa, Aline Toledo, faleceu em Curitiba dia 4 de junho deste ano. Embora ele vivesse separado da mulher nos últimos anos (“problema de gênios e de sistema, eu gosto de receber os amigos em casa, ela preferia que a gente ficasse sozinho”), sempre teve companhia em casa. Com ele, vive hoje, em família, a professora Julieta Antunes Fernandes; o rapaz Leonir Brand, de 24 anos, e as moças Sueli Antunes Fernandes e Beatriz Lorenzi, ambas com 17 anos de idade e ambas criadas desde pequenas, assim como o rapaz que está com ele há 10 anos e a professora há 23 anos.

O gramado da fazenda é bonito (grama Jesuíta), o gado é bonito, o lugar é bonito; a casa é modesta. Tem todos os cômodos, mas é a mesma construída por Fernandes Pereira (carpinteiro que reside hoje no Bairro Cango), em 1964.

— Os filhos me dizem que eu devo construir de material, mas eu me sinto bem aqui. Dizem que gente velha quando faz casa nova quer morrer…

E o seu Júlio, pela força de vontade que demonstra, não quer morrer tão cedo. Há 20 anos deixou de fumar. “Eu fumava até três carteiras por dia (Belmonte sem ponta, um cigarro dos mais fortes, hoje não se fabrica mais daquela marca), fiquei um ano e meio controlando os nervos, mas consegui deixar do cigarro.” Também não bebe nada de álcool e se cuida na alimentação, evitando massas e comidas gordurosas.

 

Sua chegada em Francisco Beltrão aconteceu no ano de 1947. Ele comprou terra de Paulo Cantelmo (irmão de Antonio de Paiva Cantelmo), Antonio Onorato, Francisco Comunello e depois foi revendendo. Ainda em 48, um engenheiro lhe fez um mapa e ele passou a vender lotes da futura cidade.
— O sítio mais caro que comprei foi o do Paulo Cantelmo, paguei 50 mil cruzeiros, dava uns oito alqueires e era bem no centro de hoje. Depois fui vendendo, o mais caro vendi por 100 mil cruzeiros, mas a maior parte dos lotes eu dei.
Ainda naqueles primeiros tempos, comprou o sítio onde vive hoje, em Eneas Marques.
— Eu tinha um capataz, lá em Francisco Beltrão, um negrinho, ele encrencou com os peões. Ele me pediu dois animais com cargueiro e dois contos de réis. Dei e ele veio pra cá. Comprou um sítio. Logo voltou me pedindo mais três mil e quinhentos. Ele me comprou este sítio, ficou só com dez alqueires pra ele. Aí eu vinha pra cá, de vez em quando. Até que me mudei em definitivo, em 1958.
Praticamente todo o perímetro urbano de Francisco Beltrão que fica da Avenida pra cima, lado do campo do União (Estádio Anilado), pertenceu a Júlio Assis Cavalheiro. Hoje ele não tem mais nada. A última casa, trocou há alguns anos, por um apartamento em Curitiba.
— Eu gosto de Beltrão, tenho muitos amigos lá, volta e meia vou lá, mas eles vêm muito aqui também.
— Quem são eles?
— Ah, tem o Clodoveu Franciosi, o Nelson Sanderson, o Nelson Granzotto, o dr. Roberto de Oliveira, o Argemiro Liston e o meu companheiro de canastra aqui em Eneas Marques, o Osmar Berckembrock.
Júlio Assis foi um dos primeiros empreiteiros da Cango. Ele empreitou 17 quilômetros da estrada de Pato Branco a Francisco Beltrão. Começou sete quilômetros antes de Pato Branco e chegou até Vitorino. Essa empreitada era pra destoca. A roçada era de 25 metros para cada lado, mas os dez metros centrais precisavam ficar sem nenhum toco. Pinheiros com “peões” de até três metros de profundidades precisavam ser cavocados, para tirar com raízes e tudo. Sua turma era sempre de 180 a 200 homens.
— Ganhei dinheiro com a destoca, mas depois perdi na terraplanagem. É que eu empreitei do quilômetro nove ao quilômetro 15, um trecho que o Exército já tinha começado em 1930. Na hora do acerto, o engenheiro da Cango fez um levantamento, achou que eu não devia receber tanto. Me aconselharam a apelar na justiça, mas eu esperei. Depois resolvi aceitar o que a Cango me oferecia, faltava a segunda parcela, era um bom dinheiro, uns 38 mil cruzeiros. O Aparício Henriques me deu o nome de um advogado do Rio de Janeiro e eu passei uma procuração. Logo o Aparício morreu acidentado (no trevo de Irati um caminhão lhe bateu, matando ele e um filho) e o advogado ficou com o dinheiro. Eu nem fiquei sabendo o nome do advogado, acabei perdendo tudo, gastei o que tinha ganho na destoca e mais um pouco do meu capital.
Segundo Júlio Assis, o hoje perímetro urbano de Francisco Beltrão não tinha muitos pinheiros. “Eram poucos e grossos, pinhal fechado tinha só pro lado do Miniguaçu.” Onde hoje corre a Avenida Júlio Assis, “tinha muita canela, angico, guajuvira, cedro muito pouco, grápia, alguma gabriúva e muito pouco canjerana”.
No final da Revolta, em outubro de 1957, um monumento que havia em homenagem a Júlio Assis, na Avenida, em frente à Igreja Matriz, foi arrastado e enterrado pelos colonos. É que ele fazia parte de uma das companhias de terra. A Citla:
— Eu fui forçado a entrar na Citla. Eles queriam um homem que conhecesse os colonos. Eu falei pro dr. Mário Fontana: “Tem colono que não pode pagar”. Mas eles queriam uma pessoa como eu pra combinar com os colonos, até dez alqueires de terra todos tinham direito e cada um pagava o que podia. Acima de dez alqueires, aí sim, era o preço da tabela deles.
Segundo Júlio Assis, Mário Fontana cometeu um erro: vendeu parte das terras à Comercial, companhia que não observara as condições dos colonos, exigia o pagamento por bem ou por mal. E na hora da revolta, os colonos simplesmente incluíram Júlio Assis entre os homens das companhias.
Domingo (7.12.86), onze e meia da manhã, reportagem concluída, hora de ir embora.
— Não, Ivo, você vai almoçar com a gente.
— Mas, seo Júlio, eu combinei que viria só para a reportagem, além disso trouxe a família (esposa Irma, filhos Camila e Bruno; o Adolfo ainda não tinha nascido), as crianças queriam ver “os bichos”, já incomodaram bastante.
— Criança não incomoda, criança só dá alegria. Eu sempre gostei de criança, almocem comigo, pra mim é um prazer.
Comida tipicamente caseira. Arroz integral, produzido na lavoura e descascado no pilão; feijão da safra passada, mas parece apenas colhido (“eu guardo na cinza”, informa Julieta, “o feijão se conserva muito mais”); a batata, o tomate e os ovos da maionese também são da propriedade; mais o repolho, o pepino, a carne de frango e o torresmo da farofa. “Comprado, aqui, tem só massa e a farinha de mandioca.”
— Por causa da diabete, eu não deveria comer nem arroz, mas quem é que resiste a um risoto como este? – pergunta seu Júlio.
Bom, terminando o almoço, o pessoal ainda posou para uma foto, é hora de ir embora, seo Júlio quer participar do bingo, na Vista Alegre.
— Mas apareçam aí, venha com a família, eu estou sempre por casa, mas pra evitar casualidade de não me encontrar, telefone antes… (441-258), apareçam!

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Destaques