Não é Mariana, mas a chuva e a lama causaram muitos estragos

 

Teve quem lembrou o acidente da Samarco em Mariana (MG): a enxurrada carregou muita lama sobre os veículos, como estes de uma chapeação do bairro São Francisco.

 

Não é Mariana (onde se rompeu a barragem da mineradora Samarco, em Minas Gerais), mas a lama trazida pela enxurrada na noite de quinta-feira, 27, em Francisco Beltrão, provocou inúmeros estragos na cidade. Invadiu casas, derrubou muros e entupiu bueiros. O temporal começou por volta das 22h15 e a estimativa é de que 500 famílias tenham sido atingidas. As equipes da Defesa Civil Municipal, Secretaria de Urbanismo e do Corpo de Bombeiros trabalharam desde a madrugada ajudando na remoção de famílias, retirada de árvores e distribuição de lonas. Em cerca de duas horas choveu o equivalente a 90 milímetros. 
Aloino Rios, 46 anos, perdeu o dia de trabalho ontem, 27, para ajudar a família na limpeza da casa, localizada na Rua Floriano Peixoto, Bairro São Miguel. Pela segunda vez no ano, ele e a filha, que mora na residência da frente, perderam tudo. Desde alimentos, móveis e eletrodomésticos. O trabalhador ergueu um muro reforçado na frente do terreno, colocou um portão de lata para evitar a entrada da água. Na área, mais um reforço, um muro pequeno e um portãozinho de metal. Não adiantou nada, porque a água passou por cima. A casa está abaixo do nível da rua e se torna caminho natural da enxurrada. “Há 20 anos quando construímos estava no mesmo nível, mas a rua foi aterrada, fizeram calçamento e asfalto, deixando mais alta.” 

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Aloino em meio ao barro desobstruindo um bueiro.

Aloino conta que está disposto a se mudar. “Se a prefeitura aceitar trocar, nos dando um terreno com uma casa, aceitamos sair. Não dá mais pra aguentar esse sofrimento. A gente sai e qualquer nuvem mais carregada já deixa a gente preocupado. Compra os móveis, quando tá terminando de pagar, vem a chuva, estraga tudo e tem que comprar de novo”, desabafa. A situação piorou muito, explica, depois que foram abertos novos loteamentos nas áreas de encostas. “Também fizeram uma caixa de retenção que estoura com o volume de água e vem tudo pra baixo, alagando as casas.” Outro problema, aponta, é que a tubulação do esgoto atravessa a rede de águas represando sujeira e jogando a água pra fora. “A água do córrego Lambari desce em tubos de um metro de diâmetro, quando chega aqui a tubulação é de 80 centímetros, daí represa e a água sai.”

O aposentado Valdemar Ribeiro, 79 anos, mora junto com a esposa, Evangeliza da Rosa Lima, 73 anos. Ele não tem uma perna (foi apontado há 11 anos em virtude de uma trombose), esteve adoentado (infecção na bexiga) nos últimos dias e mesmo assim passou a noite com um balde na mão jogando a água pra fora da casa. “A gente não aguenta mais de tanto sofrer, um velho aleijado como eu fiquei das 22h (da quinta) até as 3 horas (da sexta) dentro da água.” Ele mora no mesmo local há 35 anos e perdeu a conta de quantas vezes os alagamentos lhe causaram prejuízos. “Estamos esperando que as autoridades resolvam.” Cézar Luiz Biava e a esposa escutaram na Rádio Onda Sul que o casal de idosos estava entre as famílias afetadas e resolveu vir ajudar. Eles moram no interior de Marmeleiro, na comunidade Anjo da Guarda. “A mulher escutou cedo na rádio e viemos ajudar a na limpeza, porque eles não têm mais parentes por perto.” 
Nos fundos da casa de Tânia Dias a força da água derrubou um muro. “A água atingiu mais foi a casa da sogra. Entrou dentro, molhou móveis e roupas. Até um sofá veio parar aqui no fundo do nosso lote, trazido pela água. A gente paga o imposto, o custo de vida está mais alto e coisas como essas são desanimadoras.”
Luciana Ribeiro dos Santos morava perto da trincheira, da PR 483, Bairro São Miguel, e quando chovia a água atingia o porão de sua residência. Comprou uma casa nova, mas ainda não conseguiu se mudar porque falta liberação do financiamento. “Mudei de lá, por causa do medo dos caminhões, embora a água nunca tenha entrado em nossa casa, era sempre um transtorno.” Provisoriamente, Luciana, o esposo e duas filhas estão morando nos fundos do novo imóvel enquanto a papelada não fica pronta. “Não sabíamos que alagava aqui. O guarda roupa nem montamos, muitas coisas estavam encaixotadas, mas molhou tudo.”
A aposentada Leonilde Armachuski, 70 anos, lembra que em sua casa só tinha entrado água em 1983 na maior enchente da história do município. “Desta vez estourou um muro nos fundos da nossa casa daí a água entrou, senão nem teria entrado no nosso lote.” No bairro São Francisco, a lama que desceu de um loteamento soterrou parcialmente diversos veículos de uma chapeação. Rodrigo de Andrade. Ele contou que a chuva entrou primeiro na casa de sua vizinha. “Ela avisou a gente correu tirar as crianças e as coisas dela, mas da chapeação nem tentamos tirar nada.” Conforme disse, a terra trancou um tubo e provocou o alagamento.

Moradores coloram móveis que foram perdidos no alagamento no meio da rua Floriano Peixoto.

 

 

Chuva provoca desabastecimento de água

 A Sanepar informa que as fortes chuvas da noite de quinta-feira, 26, causaram rompimentos de redes em diversos locais da cidade e problemas operacionais nas elevatórias e na Estação de Tratamento de Água de Francisco Beltrão, no Bairro Nova Petrópolis
Na manhã de ontem, 27, faltou energia na unidade de tratamento da água. Por estas razões e também pelo alto consumo, o sistema vai ter falta temporária de água em todas as regiões da cidade. Se o consumo se mantiver alto, a previsão é a de que o abastecimento só volte à normalidade no domingo.
É a segunda vez que o problema registrado nas últimas duas semanas. 

Luciana Ribeiro dos Santos perdeu toda a mobília.

 

 

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