Ninguém sabia que essa era a batalha diária dele. O tipo de batalha que nós temos com nós mesmos todos os dias.Mais um tapa suave e doloroso.
Hoje eu não iria escrever nada. Ou, pelo menos, não sabia o que escrever. É sério, sendo bem sincero… estava sem ideias e sem tempo para tê-las. Mas, como diz uma frase absolutamente genial – a qual não me lembro qual foi o gênio que nos presenteou – a melhor matéria-prima da criatividade é a vida.
E foi justamente ela, a vida, nos seus pequenos e imperceptíveis momentos simples do dia a dia, que me trouxe a luz necessária para estar aqui, contando para vocês uma história muito simples, mas reveladora e cheia de verdades que podem servir de lição para muita gente que também está aqui agora.
Aliás, é de contar histórias que eu mais gosto. De longe, pode parecer que não tem muito a ver com comunicação. Mas tem, e muito. E mais importante do que isso, tem a ver com pessoas, com julgamentos e com desinformação – algo que afeta nossas timelines de uma forma nunca antes vista.
Bom, digo que tem muito a ver com comunicação pelo simples fato de onde a história começa e onde ela se desenvolve. Existe um programa de rádio (que hoje também é onipresente, na internet), muito tradicional no Sul do Brasil, chamado “Pretinho Básico” – transmitido pela Rede Atlântida e retransmitido por diversas outras emissoras do Brasil, inclusive algumas aqui da nossa região. Alguns de vocês devem conhecer.
Eu acompanho o Pretinho há muito tempo. Já foi minha companhia em diversos momentos e, sem dúvida nenhuma, já curou muita gente da depressão – inclusive com relatos reais sobre isso. É uma mistura de humor, informação, tudo ao vivo numa roda de amigos falando besteira (e coisa séria também).
E, convenhamos, isso é uma das melhores coisas que existem para ajudar a curar depressão. Porém, mais uma vez, uma lição bate em nossa cara. Um simples programa de rádio pode nos ensinar muito. E com uma história da vida real.
Aconteceu o seguinte: um dos integrantes do grupo, o Marco Lazzarotto, vivia sofrendo críticas (algumas debochadas, outras extremamente agressivas) nas redes sociais, por parte dos ouvintes.
A reclamação era: “o que acontece com a voz do Marco? Ele está sem vontade de fazer o programa? Está bêbado? Drogado? Acordou agora?”. Sim, o Marco Lazzarotto, de um tempo para cá, estava com a fala absolutamente arrastada, lenta e sem clareza em muitas pronúncias.
Algo realmente estava estranho, eu mesmo já havia percebido. Porém, o assunto nunca foi abordado no ar. Por mais que haja uma abertura enorme para se falar sobre tudo, inclusive sobre a vida pessoal de todos, disso nunca foi dito uma só palavra.
Até o programa da última segunda-feira. Marco resolveu – porque achou que essa era a hora certa – explicar a todos o que realmente estava acontecendo com ele. E foi aí que veio o balde de água fria.
Não era nada daquilo que as vozes vorazes das redes sociais ecoavam. O que ele tem, na verdade, é uma doença neuromotora. Uma doença que ainda não tem nome. Hoje, ele caminha com ajuda de uma bengala e, obviamente, tem uma dificuldade imensa em movimentar os 30 e poucos músculos da face que necessitamos ao falar.
Coisas simples, como andar e falar, são uma verdadeira maratona para o cara que, mesmo suportando indagações e acusações infundadas, se manteve no ar – em paralelo com as sessões de fisioterapia, fonoaudiologia e tudo mais. E ninguém sabia. Ninguém sabia que essa era a batalha diária dele.
O tipo de batalha que todos nós temos com nós mesmos todos os dias. Mas algumas, como essa, são muito mais difíceis. Tá aí. Mais um tapa suave e doloroso da vida e sobre a vida.
Uma lição sobre julgar, desinformar, sobre falar sem saber, sobre se tornar mais um valentão de rede social que não sabe como a vida é do lado de fora. Uma lição de que é preciso saber as coisas para falar sobre elas. E para falar muito, é preciso, antes, saber muito.





