Em termos de mídia, o futebol feminino, com décadas nas costas, está nascendo apenas agora aos olhos do mundo, infelizmente. Antes tarde do que nunca.
Dentro das quatro linhas o apito final já soou para a nossa seleção feminina na Copa do Mundo Fifa de 2019. Uma pena. Mas a principal conquista da modalidade das meninas já estava muito bem encaminhada antes mesmo do apito inicial. Ou não? Antes de tudo é preciso afirmar que, a partir de agora, o futebol feminino tem a chance de nunca mais ser o mesmo. De nunca mais ser visto com os mesmos olhos distantes e desinteressados que o observavam nos últimos dez, 15 ou 20 anos. Nunca se falou e se viu tanto da modalidade quanto em 2019, especialmente nas últimas semanas, se tratando especialmente do mundial. Afinal, pela primeira vez na história, os jogos da seleção brasileira no campeonato foram transmitidos pela TV aberta – na Rede Globo, a principal emissora do País. Juntamente com a visibilidade televisiva, a internet entra com o papel de segunda tela (que se torna até primeira em muitos momentos). Interações, comentários e artigos: tudo que acontece na tela principal repercute nas demais. E vice-versa. Um efeito transmídia que pauta as rodas de conversa e debates. Tudo isso, é claro, se transforma em produto de mídia. E, portanto, em oportunidades para marcas colarem o seu nome nesse universo e ter, na lembrança do público, uma relação com todos os fatos – da mesma forma que já ocorre há muito tempo em muitas outras modalidades. Quando um novo produto surge em um nível de alcance tão grande, o mercado publicitário cresce o olho na conquista de espaços de forma rápida, sólida e positiva. O lado negro deste momento é que, apesar de toda a crescente, a diferença entre o feminino e o masculino ainda é abismal, principalmente na questão de patrocínio financeiro. Em muitos casos, os valores oferecidos – inclusive como premiação de competições importantes – chegam a mais de 20 vezes de diferença. Fatos como esse fizeram com que atletas de extrema visibilidade mundial se manifestassem e até tomassem atitudes extremas. Nossa craque Marta – seis vezes a melhor do mundo – recusou patrocínio esportivo para suas chuteiras e, ao invés disso, exibiu um modelo todo preto, sem marca, apenas com um símbolo de igualdade em azul e rosa – referência à ação “Go Equal”, que se manifesta pela igualdade no meio. A camisa 10 também protagonizou uma suposta ação de marketing, utilizando um batom da marca Avon. Esse fato, porém, não foi oficializado como uma verdadeira ação, o que poderia até mesmo acarretar problemas para a marca, que não faz parte do grupo de patrocinadores oficiais. A Copa do Mundo feminina, que teve sua primeira edição em 1991, realmente não é algo novo. Mas sabemos que, no nosso mundo duro, imperfeito e cheio de pré-julgamentos, nem tudo realmente começa no momento em que é criado. Em termos de mídia, o futebol feminino, com décadas nas costas, está nascendo apenas agora aos olhos do mundo, infelizmente. Antes tarde do que nunca. E que, nesse caso, não seja uma partida rápida, um simples acréscimo que será esquecido após o apito final. O esporte, a igualdade e a publicidade ganham a sua própria Copa do Mundo.




