Contribuições e parcerias privadas para a superação da crise

Pandemia

Os números de casos da Covid-19 aumentam dia após dia ao redor do mundo. Desde o primeiro contágio ocorrido na China em novembro de 2019¹ até superar a marca de 10 milhões neste início de julho 2020², distintos problemas vêm assolando as populações dos diversos países atingidos pela pandemia.
A pandemia influencia diretamente nos distintos aspectos da vida das pessoas e dos países, e um dos dilemas que repercutem nesse momento é o econômico, uma vez que os mais destacados índices das principais bolsas de valores do globo perderam valor, atingindo severamente os investimentos de maneira geral. Por outro lado, muitos negócios estão se reinventando e a tecnologia tem sido um ponto de apoio para a sobrevivência de muitas empresas. O estado do Tocantins, por exemplo, apresentou saldo positivo de abertura de novas empresas, superando o ano anterior, mesmo em meio à crise3, tendo a internet como principal aliada.
Atores do setor privado também estão contribuindo para minimizar o impacto econômico. Diversos sites liberaram acesso de suas ferramentas virtuais para videoconferência, auxiliando diretamente as escolas, centros de ensino e faculdades no contato com seus alunos. Outras tantas empresas liberaram seus cursos nas plataformas para que as pessoas aprimorassem seus currículos durante a quarentena.
Uma startup de Curitiba, a HI Technologies, desenvolveu testes rápidos para detecção da Covid-194. A invenção permite acelerar o processo de identificação de pessoas infectadas e, consequentemente, o planejamento dos governos quanto às restrições de isolamento e circulação de pessoas. Para fabricação de respiradores em larga escala, a Magnamed-Flextronics, sediada em São Paulo, conseguiu reunir especificações necessárias para atender exigências do governo federal. No mesmo sentido, a indústria WEG, de Jaraguá do Sul (SC), estava com a linha de montagem preparada para produzir 50 respiradores por dia5.
À medida que os governos testam modelos de combate ao vírus, o setor privado colabora com iniciativas convenientes em cada setor, as quais devem ser testadas e aprimoradas constantemente. Portanto, a questão central é: com base em experiências anteriores de auxílio do setor privado ao setor público, quais atividades podem contribuir positivamente para o combate à pandemia do coronavírus?
Um exemplo de sucesso é do Rotary Internacional, que por meio de arrecadações entre seus membros, parcerias com empresas e outras entidades, já contribuiu com mais de 1,7 bilhão de dólares em 122 países, atingindo a marca de 2,5 bilhões de crianças vacinadas. Em uma iniciativa global, iniciada em 1988, como forma de parceria público-privada, o Rotary, a Organização Mundial de Saúde, Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, a fundação Bill & Melinda Gates, a Unicef, juntamente com os governos dos países estabeleceram como meta a erradicação da pólio. Em 2016, apenas 37 casos foram confirmados no mundo todo, o que representa uma redução de 99,9% desde a década de 19806.
O Hospital Metropolitano Doutor Célio de Castro, em Belo Horizonte, tem obtido destaque por alguns resultados alcançados, como o aumento significativo do número de internações, a redução para as filas de cirurgias, a redução do tempo de espera para as internações clínicas e em leitos de UTI, e a geração de postos de trabalho. O planejamento estratégico tem como missão “ofertar cuidado com qualidade, segurança e eficiência ao usuário do SUS, de forma referenciada e ordenada nas linhas de cuidado do adulto cirúrgico, clínico e crítico” 7. Mantido por verbas públicas, a preocupação com os processos licitatórios levou a uma redução de quase R$ 1.000.000 em compras no ano de 2019, eficiência encontrada também na gestão dos contratos, ao realizar notificações aos fornecedores e manter um nível de estoque de segurança que permite um bom atendimento aos usuários.
Em um estudo conduzido por Lima, Portela, Ugá, Barbosa, Gerschman e Vasconcellos (2007) sobre hospitais filantrópicos que operam seus próprios planos de saúde, das seis dimensões: gestão e planejamento, economia e finanças, recursos humanos, serviços técnicos, logística e tecnologia da informação, os hospitais que operam seus próprios planos apresentaram resultados melhores quando comparados com hospitais filantrópicos como um todo.
Hospitais filantrópicos são de grande importância para o Sistema Único de Saúde (SUS), portanto os autores sugerem o incentivo a parcerias público-privadas nesse setor, uma vez que a complexidade gerencial dessas organizações exige preparo, significando em muitos casos a sobrevivência delas, além disso, muitas vezes representam a única alternativa para os usuários de pequenas cidades do interior do País.
Estes exemplos possibilitam reconhecer nítidas contribuições do setor privado em circunstâncias relevantes e em cenários diversos. Há também contribuições em outras áreas como iluminação pública, rodovias, saneamento básico e transporte coletivo, com experiências positivas de aplicações técnicas e gerenciais especializadas, das quais o setor público sozinho gastaria muita energia para colocar em prática ou esbarraria em procedimentos burocráticos que tornariam improvável ou muito morosa a celebração do contrato.
Os benefícios da combinação de esforços entre setor público e privado no combate a distúrbios regionais ou globais são abundantes. A figura apresentada a seguir representa algumas destas vantagens.
Em contrapartida, o interesse financeiro característico de organizações privadas (a busca pelo lucro) pode aumentar os custos finais, tanto para o Estado como para o usuário final. Apesar dessa característica, a agilidade para encontrar soluções pode ser um elemento compensatório, em especial no setor de saúde, em que vidas podem ser salvas.
Isto posto, é necessário atratividade ao setor privado, que advém das possibilidades de geração de lucro. Assim, cabe ao setor público o estímulo para essa participação, destinando recursos necessários para a execução das atividades, ou permitir que o parceiro privado gere receita dessa transação. Para isso, regulamentos existentes em cada país podem dar direcionamentos à parceria.
Em alguns casos o interesse privado vai além da geração de lucro, uma vez que a calamidade pode afetar os negócios de determinado setor ou empresa, por isso o interesse em auxiliar no processo de solução. Ademais, como vimos no exemplo do Rotary Internacional, a preocupação genuína com a causa é propulsora da iniciativa.
O setor privado tem incentivos suficientemente grandes para contribuir em calamidades como a pandemia causada pela Covid-19 e o envolvimento depende das características de cada empresa. Ações solidárias, ferramentas digitais, doações, criação de testes e vacinas, desenvolvimento de medicamentos, produção de equipamentos de proteção são apenas algumas ações que já ocorrem durante a pandemia. No Brasil, a Lei nº 13.989/2020 regulamenta a telemedicina, que permite consultas médicas mediadas por tecnologias para fins de assistência, pesquisa, prevenção de doenças e lesões e promoção de saúde, isso é algo que estava parado e atualmente o setor privado já conta com aplicativos para esse novo processo de atendimento, em um momento em que o contato deve ser evitado, auxiliando diretamente no combate e prevenção à nova doença.
Com base nas observações expostas, este artigo apresenta recomendações para o setor público, setor privado e instituições que possam ajudar no combate à pandemia da Covid-19 e outras que podem surgir:
1. As empresas devem utilizar uma luneta para observar os impactos de médio e longo prazo a fim de buscar soluções no curto prazo que adapte a empresa à nova realidade que está por vir. Postergar mudanças essenciais pode ser prejudicial, como é o caso atual de adaptações tecnológicas, home office, treinamentos.
2. Oferecer valor para a sociedade, buscando com isso valorizar a marca em momento de crise, para sair dela mais fortalecido.
3. Considerar alianças com instituições filantrópicas, outras empresas e setores, visando ampliar seu público e atrair novos.
4. Estreitar laços com o setor público, verificando necessidades e procurando atendê-las com os produtos que já possui ou desenvolvendo novos produtos e, também, comercializar e entrar em novos projetos.
5. O setor público deve possibilitar o envolvimento do setor privado na geração de produtos e processos que venham a auxiliar no combate à pandemia, mesmo que com fins comerciais.
6. Tanto o setor público quanto o setor privado devem aproveitar o conhecimento (expertise) das instituições filantrópicas (Rotary, Lions, Mão Amiga, entre outros) para auxiliar os mais necessitados.
Com toda a dificuldade que se vive em momentos de pandemia, qualquer brecha para criar negócios deve ser aproveitada, sempre com foco no bem da sociedade, na busca da prosperidade de todos os envolvidos. Engajar-se é a regra, vislumbrando um futuro no qual todos saiam mais preparados e mais fortalecidos.
*Robson Faria é administrador de empresas, consultor financeiro e coordenador do Curso de Administração do Cesul de Francisco Beltrão – [email protected]

1 – https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2020/03/13/jornal-afirma-que-primeiro-contagio-da-covid-19-na-china-ocorreu-em-novembro.htm
2 – https://www.reuters.com/article/us-health-coronavirus-tally/global-coronavirus-cases-pass-three-million-as-lockdowns-begin-to-ease-idUSKCN2292A8
3 – https://afnoticias.com.br/estado/mesmo-em-crise-tocantins-abre-5-196-novas-empresas-e-tem-saldo-positivo-neste-inicio-de-ano
4 – http://www.finep.gov.br/noticias/todas-noticias/6129-startup-apoiada-pela-finep-desenvolve-teste-rapido-para-covid-19
5 – https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/04/08/respiradores-fabricacao-nacional-brasil.htm
6 – https://www.rotary.org/en/our-causes/ending-polio
7 – http://www.hmdcc.com.br/relatorio-de-gestao-2019

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