No Dia do Professor, categoria aponta dificuldades na metodologia imposta pelo Governo do Estado e teme impactos na vida dos estudantes

Quase cinco meses após as aulas remotas começarem na rede estadual de ensino do Paraná, a professora de Biologia Rosilei Aparecida Bruschi, de 50 anos, levantou-se no dia 1º de setembro e orou. Pediu a Deus que lhe desse as palavras certas para falar com os alunos. Para o dia, uma terça-feira, estavam previstos cinco encontros com alunos do Ensino Médio via Google Meet, plataforma que permite conversas virtuais, a qual o secretário de Educação do Estado, Renato Feder, pediu que os professores utilizassem podendo receber falta caso os alunos não aderissem. Apesar da ameaça, retirada depois pelo secretário (que disse que não era bem isso o que quis dizer), não era por causa dela que a professora orava. Há pelo menos 20 dias cobrava dos estudantes uma atividade em vídeo sobre o reino vegetal, mas seus pedidos não eram respondidos. Naquele dia 1º, queria conversar e entender o que estava acontecendo. Depois do amém, levantou-se e se arrumou para os encontros.
A professora de cabelos ondulados curtos e olhar doce, aposentou-se no ano passado, mas continua dando aulas numa escola da rede estadual em Dois Vizinhos. Cuida de oito turmas do Ensino Médio, o que calcula ser entre 240 e 280 alunos, já que cada turma tem de 30 a 35 alunos, com idades entre 14 e 17 anos. Seu contrato é de 20 horas, mas a pandemia escancarou uma sobrecarga nas atividades que professores já sentiam mesmo antes do ensino remoto.
Naquela terça-feira, vestiu uma regata escura com temas florais, colocou uma tiara nos cabelos e sentou-se em frente ao computador, próxima a uma janela. Atrás dela, um papel de parede também com elementos florais e cores opacas era a imagem de fundo que substituía o quadro de escrever.
Os alunos deveriam acessar a plataforma às 8h, mas 8h07, ninguém. “Estou aguardando há sete minutos meus alunos que não fizeram a atividade para fazer a recuperação e não consegui nenhum aluno presente. A aula iniciaria às 7h15, marquei às 8h, para não ser tão cedo, mas estou sem alunos, infelizmente, infelizmente”, disse na solidão da sua casa, olhando para o computador, que não respondeu e nem mesmo operou um milagre.
Ela ficou em silêncio. O único som ali era o da sua respiração e o clique do mouse, atrapalhado por algum carro que cruzava a rua de sua casa. Ninguém aparece. Abre a pasta “atividades de aula remota”. Entre imagens nomeadas de “organização”, “preocupada”, “saudade”, “use máscara”, tem um arquivo: “Professora! Eu não sabia da tarefa”. O arquivo em Power Point elencava todas as vezes que ela havia solicitado a atividade aos estudantes, como prova de que eles haviam sido avisados. Rosilei coça atrás da nuca. Leva a mão ao rosto. Seus olhos se angustiam. E a respiração muda.
Já passaram 14 minutos e ninguém aparece. Ela confere se o recado estava dado no grupo da turma. Dezesseis minutos. Ninguém.
A 15ª tentativa de conversar com os alunos pareceu em vão. Às 9h, o encontro aconteceria com outra turma. Mas de um jeito frustrante, a manhã de Rosilei terminou silenciosa, com a professora ora lixando as unhas em frente ao computador ora falando sozinha.
“São 9h11 e eu aqui, sem ninguém. Eu preparei um power point. Eu preparei um questionário, com questões diferenciadas sobre o mesmo tema. E antes de começar hoje de manhã, antes de começar a primeira Meet, eu fiz uma oração para que Deus colocasse em minha boca as melhores palavras, para que eu conseguisse convence-los a fazer… as melhores palavras no sentido de incentivá-los a fazer. Ao mesmo tempo que eu cobrasse aquilo que é uma obrigatoriedade deles fazer e que eu fizesse isso de uma forma que não fosse agressiva, que não fosse de forma opressiva, mas sim de busca, de incentivo, para que eles se propusessem a fazer aquilo que é função deles: estudar. Marcar algumas horas do dia para sentar em frente ao computador, ou na telinha do celular. Mas por que não está acontecendo? Tem várias justificativas. Alguns alunos estão dizendo que estão aproveitando a oportunidade para trabalhar. Tem mercados que chamam esses alunos, que são jovens, que estão começando a vida profissional, para trabalhar como repositores, auxiliar de caixa… alguns outros estão buscando outras formas de trabalho”, desabafou à tela do computador.
À tarde, sete alunos deram a Rosilei a impressão de que sua oração fora ouvida. Em um dos encontros, duas alunas. Em outro, cinco. Ela então sorriu para o computador. Olhos altivos e atentos – ainda que o número de estudantes fosse bem abaixo do que teria na escola. Mas mal os estudantes saíram, enrubesceu de novo. Estava mais uma vez sozinha na sala que não era de aula. No outro dia tudo começaria de novo. Restou-lhe desligar a câmera e torcer para que o outro dia fosse melhor.
Aula Paraná
A situação vivida por Rosilei é denunciada por outros 11 professores da rede pública estadual de ensino do Paraná ouvidos pela reportagem.
Após o Decreto Estadual n.º 4.258, de 18 de março de 2020, determinar a suspensão das aulas a partir do dia 20 de março, o ensino remoto foi imposto pelo governo do Estado. Divulgado como exemplo de metodologia, ele tem sobrecarregado educadores, além de os frustrar com a baixa participação dos estudantes. Mesmo assim, segundo a pasta, os estudantes atingiram a marca de quatro milhões de atividades entregues por dia, por meio do aplicativo Google Classroom, no dia 26 de agosto. Além da quantidade, houve também um alto percentual de acertos apresentado pelos estudantes, que responderam corretamente 75% das atividades. Professores, porém, questionam estes índices.
“Não tenho mais rotina”
Aloisio João Scandolara, professor de Química, há 30 anos, na rede pública estadual, em Francisco Beltrão, disse que as dificuldades do ensino já vinham antes da pandemia, quando materiais básicos para a manutenção de um laboratório para a disciplina eram escassos. Este ano, ele está professor da rede pública e também do ensino técnico. São cerca de 390 alunos no total, divididos em 13 turmas.
No início do ensino remoto, conta que o papel do professor era acompanhar as aulas gravadas e disponibilizadas pelo governo nas plataformas digitais e também na televisão, além de estar disponível para a correção das atividades e para tirar dúvidas. Mas não apenas isso, para os alunos do ensino técnico também era preciso fazer uma apostila quinzenal de cerca de dez páginas com o resumo do conteúdo. Depois, foi passada a orientação do Estado para realização dos encontros via Google Meet e, somado a isso, a disponibilidade de estar no WhatsApp pronto para conversar com os estudantes – ainda que isso não fosse contado como atividade.
Embora sejam atividades pedagógicas, elas rompem com a rotina que professores tinham antes, além de quebrar a interação com o aluno já que, via digital, os educadores se encontram, muitas vezes, sozinhos em frente a um computador. “Não tenho mais rotina. Na época da aula presencial, a rotina aqui era levantar 6h30, 7h, ir para o colégio até perto do meio-dia e depois ter a tarde para eu fazer o que quisesse. Agora tenho que fazer a mesma coisa de manhã até a noite”, aponta. “Me sinto um inútil porque quando a gente faz a faculdade, a gente faz um juramento de ajudar, de passar conhecimento, de formar um cidadão. E estou vendo que não consigo fazer isso nesse momento.”
Essa sensação, explica, se deve a vários fatores. Um deles é por não saber o quanto do conhecimento tem sido assimilado pelos estudantes. Se no ensino presencial era possível tirar as dúvidas durante a aula, receber as atividades e conversar presencialmente, agora, a cópia das perguntas e das respostas disponibilizadas na internet coloca em xeque a metodologia.
Outra professora, que estava em licença maternidade e precisou retornar já no modelo remoto, de Dois Vizinhos, acrescenta que algumas dessas perguntas são obrigatórias para obtenção da presença do estudante e que não há avaliação se ele copiou e colou e, o pior, se apenas enviou um formulário em branco, já que, segundo ela, só o clicar no botão “enviar” contabiliza participação no sistema.
“Há várias falhas na plataforma. Quando eu retornei, a minha presença não era computada, já que não havia sido feita a correta transferência da professora substituta para mim. Então, embora eu publicasse na plataforma do Google Classroom algo (porque falam que é preciso pelo menos um ‘bom dia’ para receber presença), não era computado. E percebi que estudantes, mesmo enviando as respostas em branco, recebiam presença ou a notificação de que fizeram a atividade”, aponta.
Mãe solo, a sala de aula improvisada em um cômodo da casa tem, ao lado do computador, a babá eletrônica, de onde não pode perder de vista a filha pequena. Para não a expor e por não ter recursos suficientes para pagar alguém, não consegue manter uma pessoa em casa para o serviço de ajudante e ela precisa se desdobrar para cumprir o pacto educativo que tem com os estudantes e continuar sendo mãe.
Distância é desafio para educação no campo
Nas escolas do campo, a maior dificuldade relatada pelos professores é a falta do acesso à internet, problema que já existia antes da pandemia. Nas escolas Paulo Freire, de Beltrão, e Pinhalzinho, de Eneas Marques, grupos de professores, junto da direção, é que arcam com um provedor para que a instituição não fique sem acesso. Com a implementação do ensino remoto, pensar a plataforma digital era um desafio e poderia criar uma segregação muito grande na forma de assimilar o conteúdo. Por isso, estas escolas utilizam a entrega do material impresso, quando se tem, pelo menos, um pouco de interação com os estudantes ou parentes. Apesar disso, são as grandes distâncias percorridas para acessar esses materiais os desafios desses educadores e desses estudantes.
Claudiney de Oliveira, de 45 anos, diretor do Colégio Estadual do Campo Paulo Freire, de Beltrão, tem pontos de encontro com alguns desses estudantes. São à beira de uma estrada de terra, onde a poeira suja as máscaras de proteção facial e às vezes as folhas das atividades. A escola abrange 12 comunidades, com as mais distantes em torno de 30 quilômetros do colégio. Quando os professores não conseguem ir até a estrada, são motoristas de ônibus que auxiliam na força-tarefa de manter a educação em locais onde a tecnologia é um desafio. Há ainda, conta Claudiney, estudantes que sobem morros para ter acesso à internet, onde baixam as aulas em vídeo, que reforçam o material impresso dado pela escola. Uma realidade incapaz de ser comparada com a que de quem tem o acesso facilitado na própria sala.
“É um momento ímpar. Nunca imaginaríamos que chegaríamos a uma realidade como essa. Está sendo um trabalho exaustivo. Um trabalho intermitente. Tanto para professores, quanto para equipe pedagógica e direção. O trabalho está sendo redobrado. Você está trabalhando remotamente, mas fica o tempo todo ligado no trabalho e realizando as funções. É um cansaço mental, mas um trabalho muito profissional e voltado ao amor e carinho pelo aluno e vontade de fazer uma educação pública de qualidade”, desabafa.
Apesar de todas as dificuldades, nenhum dos educadores ouvidos pela reportagem concordam com o retorno do ensino presencial. Com poucos meses para o fim do ano letivo e, sem uma vacina que garanta a integral proteção de alunos e também de professores (muitos no chamado grupo de risco), professores temem que novas medidas impostas possam criar problemas maiores, num momento em que a ciência e a medicina ainda pedem cautela. “E eu não sei dar uma proposta. Mas dizer que esse sistema está funcionando é uma mentira deslavada. Ele está produzindo mais injustiça social. E a escola não está dando conta de ajudar”, lamenta o professor de História e Sociologia José Carlos Correia dos Santos, o Juca, de Dois Vizinhos.
Secretaria Estadual de Educação responde ao JdeB
Procurada, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed) disse que as aulas são disponibilizadas em três canais digitais da TV aberta, pelo Aplicativo Aula Paraná, no Google Classroom, no YouTube, e também de forma impressa.
Segundo a pasta, a adesão dos estudantes ao ensino é medida pela quantidade de atividades realizadas e, que, na região Sudoeste, onde há cerca de 66.380 estudantes, há uma média de 50 atividades semanais por estudante, com índice de 75% de assertividade.
Sobre essa assertividade poder ser um índice “falso”, já que há professores que denunciaram o envio de formulários em branco, a pasta negou que sejam contabilizadas respostas vazias e disse que “são os professores que anotam e lançam as presenças e notas dos alunos nos livros registro de classe”. Em relação aos alunos copiarem e colarem a resposta, disse que não teve “nenhuma reclamação formal sobre esse fato”, mas que a “situação pode acontecer, uma vez que os materiais ficam disponibilizados e os estudantes conversam nos grupos, e mantêm contatos entre si durante todo esse período”.
Sobre as aulas não presenciais que, de acordo com a Seed, na região abrange 23% dos alunos, o controle é pela atividade entregue, com lançamento quinzenal no Business Intelligence (BI). O BI também acompanha as respostas dos sistemas on-line gerando relatórios de frequência e de acerto das questões.
Quanto aos problemas sobre acesso à internet, a pasta destacou que oferece materiais impressos quinzenalmente com feedback dos professores e que, em alguns casos, permite o uso dos laboratórios das escolas por alunos. “Além disso, cada escola e Núcleo Regional de Educação têm autonomia para organizar ações de arrecadação e doação de eletrônicos na região”, disse em trecho.
Quanto aos professores, a pasta destacou que eles também podem acessar o Núcleo, a equipe gestora, e que eles “receberam formações referentes à utilização da ferramenta e também sobre metodologias para o trabalho com os estudantes no momento de aulas não presenciais, via ‘Canal do Professor’”.
Retorno gradual
Conforme anúncio do Governo do Estado na última sexta-feira, dia 9, a retomada da grade de atividades extracurriculares está liberada a partir do dia 19 de outubro. A medida abrange a rede estadual de Educação e também as escolas municipais e privadas de todo o Paraná para turmas desde o Infantil 4 (a partir de 5 anos) até o Ensino Médio. As aulas curriculares presenciais seguem suspensas e os alunos devem acompanhar o conteúdo do Aula Paraná.




