Abuso sexual na infância: quando o super-herói vira vilão

Abuso sexual na infância: quando o super-herói vira vilão

Por Thiago Chiapetti

“Eu tinha oito anos na primeira vez que ele fez o ato. Mas já tinha passado a mão em mim quando eu tinha sete anos. Ele só dizia que não era pra eu contar pra mãe. Ele era muito agressivo, batia na gente, ele era muito agressivo, nossa (…) isso durou até os 13 anos, mas a última vez quando ele me tocou eu tinha 14 anos.”

A declaração é de uma mulher, casada pela segunda vez e mãe de dois filhos, que pediu para não ser identificada, mas concordou em compartilhar o seu drama de ter sido abusada sexualmente pelo próprio pai. Ela mora em Francisco Beltrão e só agora, há pouco mais de um ano, procurou ajuda psicológica.

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O medo na infância se transformou, na fase adulta, em vergonha e agressividade. Uma das possíveis consequências para quem passa pela triste situação de ver o super-herói — a imagem idealizada por boa parte dos filhos — se transformar em vilão. Uma agressão que pode acontecer dentro ou fora de casa, com quem quer que seja, e acabar no silêncio encarcerado pela fragilidade e ingenuidade de uma criança.

 

A primeira vez

“Eu era pequena, a mãe trabalhava à noite. A primeira vez eu acordei na cama deles, ele já em cima de mim fazendo o ato. A mãe não estava em casa; eu tinha medo de contar pra ela. Lembro que uma vez tinha cheiro de bebida. Isso se repetiu algum tempo”, lembra-se a mulher com a expressão de repúdio.

Tempos depois, ela e a irmã passaram a conviver sozinhas com o pai. “Quando a mãe foi morar no interior, eu tinha muito medo dele. Eu ia no banheiro, colocava o dedo na boca pra poder vomitar. Pra ver se ele tinha dó de mim e me deixava”, relata. E para evitar a atenção do pai, aos 11 anos clamava: “eu rezava muito, rezava a Ave Maria pra ele lembrar da mãe”.

O fim da perseguição dentro da própria casa só acabou aos 14 anos. Momento em que já se encontrava aprisionada dentro de seus próprios pensamentos e sentimento de culpa e vergonha. “Eu tomei um tapa dele. Aí ele foi me pedir desculpa, coisa que nunca tinha feito, e tentou me beijar. Quando eu senti a boca dele, dei um empurrão. Foi a última vez”, recorda-se.

Os reflexos do abuso do pai ela percebeu dentro do primeiro casamento. “Cada vez que eu tinha relação eu lembrava daquilo, eu ficava com nojo, ficava nervosa, agressiva. Eu é que batia no meu marido, até que ele me deixou”, conta. “Mas eu sempre fui calma, muito tímida, era uma boa filha, uma boa aluna, sempre gostava de estudar”, justifica-se.

No segundo casamento, o comportamento explosivo deu lugar a um discurso diferente. “Hoje eu não sou tão agressiva, mas não sou um doce. Em palavras eu não sou tão doce como quando eu era criança. Hoje eu não sou violenta, mas não sou aquele poço de doçura”, resume a mulher.

Insegurança e timidez que hoje interferem nas atitudes dentro de casa. “Até com meus filhos eu sou agressiva pra falar . Eu acho que não sou uma mãe má, mas até pra falar com eles eu digo: vem cá com a mãe”, diz em um tom seco. “Tenho medo que aconteça com eles o que aconteceu comigo.” 

O zelo é tão grande que já fez pensar em tirar a própria vida. “Eu grito, eu choro e, pra não ter que brigar, eu já tentei suicídio. Eu amo tanto os meus filhos que eu não quero descontar neles.” 

 

Silêncio quebrado

O silêncio só acabou com a denúncia enquanto dormia. “Eu só contei o que aconteceu comigo pro meu segundo marido. É que eu tive um sonho à noite e ele disse que eu dizia: para, pai, para. Ele me pediu e eu não contei, eu tinha vergonha. Aí eu falei pra ele à noite quando a gente tava na cama e tava tudo escuro.”

A mãe não teve a oportunidade e morreu antes que a filha tomasse coragem para desabafar. “Eu me sentia culpada e hoje eu vejo que eu não era culpada”, declara. “Eu tenho pra mim que eu perdoei ele, não que eu vá esquecer porque isso foi uma das piores coisas que aconteceu. Acho que se ele tivesse vivo eu teria muita raiva”, imagina, sobre o pai que se suicidou.

Depois de revelar sua história ao JdeB, a mulher fez questão de encorajar leitores que sejam vítimas: “Eu, quem sabe, se tivesse contado antes pra minha mãe não teria acontecido. Só que eu tinha vergonha. Mas eu quero dizer pra que as pessoas procurem alguém. Eu gostava tanto das minhas professoras, se tivesse falado pra uma delas”, lamenta.

 

“Eu só contei o que aconteceu comigo pro meu segundo marido. É que eu tive um sonho à noite e ele disse que eu dizia: para, pai, para.”

Psicólogos analisam as consequências da agressão e falam sobre prevenção

Depois que a apresentadora Maria da Graça ‘Xuxa’ Meneghel revelou ao quadro “O que vi da vida”, no Fantástico da TV Globo, que foi abusada sexualmente na infância, o assunto tomou uma nova proporção. O número de denúncias também aumentou e, provavelmente, novos crimes foram evitados. Para aprofundar esta questão, o Jornal de Beltrão procurou a psicóloga Aline Daniella Tosoni Marcotti, da Escola Oficina de Francisco Beltrão, e o psicanalista Érico Peres Oliveira, que trabalha nas Apaes de Renascença e de Marmeleiro.

Em entrevista à reportagem, Aline aborda alguns dos sintomas que uma vítima de abuso sexual pode apresentar na fase adulta e incentivou a busca de ajuda. Já o psicanalista Érico analisa o assunto entre as pessoas com deficiência intelectual, como elas podem ter uma vida sexual e como a família pode contribuir.

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Confira as entrevistas nos quadros ao lado.

Aline Marcotti

JdeB – Quais as principais consequências do abuso sexual na fase adulta?

Aline – Adultos com história e violência sexual na infância, podem desenvolver transtornos como ansiedade e depressão. Bem como desenvolverem personalidades mais agressivas, ou desconfiadas, tendo dificuldade de confiar nas pessoas, procurando o isolamento. Pode ocorrer problema nas questões sexuais da vida adulta como falta de desejo sexual.

 

JdeB – Que riscos uma vítima corre ao não procurar ajuda?

Aline – Quando um adulto busca atendimento, pode compreender que muitos de seus comportamentos sem explicação têm origem nos sentimentos despertados na infância e passa a reconhecer que suas relações atuais não fazem mais parte daquele contexto infantil.

 

JdeB – Como se avalia a possibilidade de uma vítima se tornar em agressor?

Aline – Na literatura observamos pesquisas que demonstram que grande parte dos abusadores foi abusada sexualmente na infância. Porém, isso não pode e nem deve ser tomado como regra. Quando a vítima constantemente vivencia questões de violência sexual o risco é maior. A criança internaliza os modelos adultos que seguirá na vida, e observa sempre que a prática sexual é violenta e pode, quando adulta, se gratificar da mesma maneira que observou.

 

JdeB – Quem já foi abusado deveria se preocupar em buscar ajuda?

Aline – Se a pessoa sente que alguns de seus comportamentos não podem ser explicados, como uma agressividade ou angústia excessiva, ou ainda lhe vem à mente sempre as cenas do passado que a mobilizam no presente, a ideia de uma psicoterapia auxiliará na compreensão melhor de sua vida atual.

 

JdeB – Quais os cuidados que os adultos devem ter com crianças?

Aline – Um bom relacionamento e diálogo sempre auxiliam na proximidade entre pais e filhos. Com relação ao tema da sexualidade em questão, é importante que os pais tentem tratar a sexualidade com naturalidade e sutileza. Evitar expor as crianças a cenas de sexualidade e responder o que ela traz de questionamento, sempre na linguagem dela. Orientar a criança a cuidar do próprio corpo e estimular o diálogo com os pais ou com alguém que goste e confie. Evitar ainda discursos em que o sexo apareça como ruim.

 

Érico Peres Oliveira

JdeB – Como os pais devem lidar com abusos em pessoas com deficiência?

Érico – É preciso ter calma. Extremamente importante conversar com a criança com muita tranquilidade, controlando as emoções, não permitindo que ela sinta-se culpada pela situação. A pessoa com deficiência intelectual possui dificuldade para se defender e até mesmo entender o que está acontecendo. Através de um diálogo com alguém de confiança é possível chegar perto de uma certeza do que aconteceu. A partir disso, busca-se ajuda no conselho tutelar, polícia ou demais autoridades que tomarão as medidas necessárias.

 

JdeB – Quais as reações das vítimas diante de episódios de abusos?

Érico – As manifestações podem aparecer por duas vias. Emocionalmente: surgem comportamentos como agressividade, conversas sobre temas desadequados para a idade, pesadelos e dificuldade de aprendizagem. Físicas: são indícios de que aconteceram violências corporais como presença de corrimentos ou hemorragias vaginais, dor ao urinar, encoprese.

JdeB – Como você avalia alguém que abusa sexualmente de um deficiente?

Érico – Certamente estamos falando de um perverso. Muitas vezes o próprio abusador sofreu esta forma de violência quando pequeno. Repetindo assim o formato de aproximação sexual que aprendeu nos primeiros anos. Porém, não justifica os atos cometidos. Trata-se de uma pessoa que precisa de ajuda, visto que tal estrutura psíquica é uma das mais complexas e que raramente buscam auxílio.

 

JdeB – Como compreender a vida sexual de uma pessoa com deficiência?

Érico – A vida sexual do deficiente intelectual é muito semelhante com a nossa. Claro que existe uma limitação em sua compreensão das coisas. No entanto, o desejo sexual existe e encontra formas de se manifestar.

Estamos vivendo uma revolução neste sentido, visto que até pouco tempo a pessoa com deficiência intelectual era vista como assexuada por sua família. Hoje a percepção mudou. Faz-se necessário um trabalho direto com os alunos mostrando a eles que a sexualidade existe e pode ser vivida.

 

JdeB – É possível ter vida sexual ativa?

Érico – Certamente. Porém, exige certo cuidado da família no sentido de explicar a sexualidade e também ensinar o uso de métodos contraceptivos.

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