Foi nos anos 80, a água chegou na porta do Beneficiamento de Madeiras Artuso. Foram 60 dias sem vender nada, mas os curiosos que iam até lá para ver o nível da água avistavam a madeireira e ficavam sabendo de sua existência. Os amigos diziam: ?Quando a água baixar, tu vai ficar rico?.
Antes de decidir morar no Paraná, Alberi Agnoletto quase se tornou padre. Ele estudou no seminário por alguns anos, chegou a morar em São Paulo por uns tempos, mas não era para ser este o caminho. Foi a convite de Geraldo Artuso, que posteriormente se tornaria seu sogro, que Alberi decidiu se mudar para Francisco Beltrão e ajudar a administrar o Beneficiamento de Madeiras Artuso (hoje Beneficiamento de Madeiras Alberi Agnoletto), ainda instalado na Rua Vereador Romeu Lauro Werlang, ao lado do prédio da 8ª Regional de Saúde.
Dos seis filhos de Antônio Agnoletto (falecido em 14 de maio de 2012) e dona Josefina, de 86 anos, que reside em Água Santa, Alberi é o mais velho e o único que não mora mais no Rio Grande do Sul. Na sequência vieram Terezinha, Juraci, Sérgio, Sônia e Valdemar. Quando Alberi nasceu, em 26 de julho de 1951, o atual município de Água Santa, no Rio Grande do Sul, era apenas um distrito de Passo Fundo; só virou município em dezembro de 1987. Assim como a vila Santa Cecília, hoje também município emancipado de Passo Fundo, onde residia a família Artuso – e dona Maria Lúcia, na época namorada de Alberi.
Em 1972, Alberi chegou a Beltrão e logo se tornou sócio da madeireira do sogro, adquirindo 5% da empresa. Depois comprou mais uma parte de um tio que se mudou para São João e, quando casado com Maria Lúcia, o sogro presenteou a filha com mais 15%. Os 50% da empresa logo se tornaram 100% quando Alberi adquiriu a parte que um cunhado havia herdado do pai.
O casamento foi em 24 de janeiro de 1976, completando 40 anos de matrimônio em 2016. Os dois filhos, Gustavo e Marcos, moram no Mato Grosso, enquanto Alberi e Maria Lúcia ainda residem no Sítio Agmar, na comunidade Rio Tuna, em Beltrão, onde possuem uma criação de gado e alguns cavalos para o lazer.
Formado no curso Técnico em Contabilidade pelo Colégio Estadual Eduardo Virmond Suplicy – ele iniciou o curso no Rio Grande e terminou aqui -, Alberi sempre foi bastante atuante na comunidade, contribuindo com diversas entidades e organizações. Foi centroavante da Sociedade Esportiva Turino (associação que, posteriormente, foi responsável pela criação do CTG Recordando os Pagos), locutor do Piquete Crioulo, patrão do CTG Recordando os Pagos por três vezes – e uma vez vice-patrão, entre outros cargos da diretoria. Além da madeireira, teve também uma ferraria por alguns anos. Foi criador de suínos e de gado de corte e, atualmente, é presidente da Sociedade Rural. Pelo segundo ano, Alberi participa do Comitê Gestor da Expobel, como presidente da Sociedade Rural, uma das entidades parceiras na realização da feira junto à Acefb, Prefeitura e Rural Leite.
Na entrevista ao Jornal de Beltrão, Alberi conta que já chegou a empregar 60 colaboradores em suas empresas e, hoje, está encerrando as atividades da madeireira. Chegou a ser candidato a vereador pelo PMDB por apenas 15 dias, e desistiu. Ele classifica Beltrão como um lugar hospitaleiro e bom de viver. “É a terra que me deu oportunidade de crescer na vida, por isso não vou desprezar Beltrão jamais”, garante. Confira a entrevista.

Foto: Alex Trombetta/JdeB
JdeB – Em 1972, quando o senhor veio, a família de seu sogro já estava aqui?
Alberi: Sim, eles já tinham o beneficiamento e, como tinha bastante movimento e precisava de gente para trabalhar, eu fiquei na parte mais administrativa. No Rio Grande eu já trabalhava com isso, meu pai trabalhava em madeireira e eu já tinha uma noção de madeira. Eu trabalhava mais a parte burocrática de banco, cobranças, essas coisas. Mas depois de um tempo meu sogro separou da esposa dele e, como nós trabalhávamos numa família, eu nunca tinha um documento assinado, não tinha nada, e quando dá separação, o poder jurídico não quer saber se você tem a ver ou não, eles querem o que está no papel. E o que restou para mim, na época, foi os outros 50% que meu sogro me deixou, pra eu tocar a firma. Depois desse intervalo, o filho dele ficou com outros 50%, e eu comprei dele.
Em que ano foi isso?
Lá por 1985, quando deu as enchentes aqui. Meu cunhado desanimou, não queria mais tocar, aí eu comprei dele, depois comprei o terreno do Bernardon e fui trabalhando, desenvolvendo. Depois surgiu outra empresa, que era a ferraria do Airton Bernardon. Comprei um terreno, depois comprei outro, comprei a fábrica e fiquei com duas fábricas. Lidei com galinha, porco, boi, lavoura e fomos construindo e lutando até hoje. E depois de 45 anos trabalhando aqui, estou encerrando minha atividade no ramo da madeira. Porque eu penso que não adianta, depois que eu morrer, dar herança pros filhos, vou dar agora que é a hora de eles poderem se firmar no mercado, na atividade que eles vão exercer daqui pra frente, porque começar do nada não é fácil. Então quero dar este fermento para eles deslancharem mais rapidamente, incentivar eles. Mas eu vou continuar em Beltrão, sou beltronense e adoro essa terra, tenho muitos amigos.
Qual foi a melhor época para este setor? Quantos empregos chegou a gerar?
Os melhores anos eram quando os caras vinham aqui fornecer madeira. Encostava três ou quatro caminhões e você dizia ‘essa não quero’, ‘essa aqui te pago tanto’. Eu tinha uma margem maior, depois começou a inverter, tinha que pagar o que os caras ofereciam, daí você começava a perder preço e qualidade. E eu tive uma crise no início, porque ninguém conhecia a empresa. Em 1971, teve uma enchente, a água veio até na porta aqui, nós trabalhamos 60 dias e não vendemos nem um pedido. E com a enchente os caras vinham ali olhar a água e enxergavam a minha empresa, daí viram que eu existia. Quando terminou a enchente, aí começou a dar serviço que até hoje não parou mais. Eu cheguei a ter 60 funcionários em tudo, uns 30 só na madeireira. Tinha também ferraria, construção, sítio. Isso foi lá por 1994, 1995. Eu fazia umas obras por conta e tinha uns 15 funcionários só nas construções. Teve até meu irmão Valdemar que veio para cá me ajudar na serraria na época; dei 15% pra ele, mas, como era muito envolvido no esporte e era muito sozinho aqui, decidiu voltar pra querência.
O senhor sempre foi muito envolvido com entidades, principalmente com o CTG. Saiu do Rio Grande, mas nunca deixou a tradição de lado.
Sou tradicionalista, sempre briguei pelo tradicionalismo. Ajudei a fundar o CTG, fui coordenador das cavalgadas. Sou mais gaúcho aqui em Beltrão do que no Rio Grande. Aqui eu revivi e comecei a cultuar as tradições gaúchas por falta daquela hospitalidade, daquela amizade, daquela cordialidade que tinha no Rio Grande do Sul. Lá era normal, aqui eu senti falta, por isso que eu fui me envolvendo. E agora estou no grupo dos idosos, chegamos na terceira idade (risos), frequentamos o clube do Rio Tuna. Já joguei futebol também, pelo Turino, era centroavante, logo que cheguei aqui, quando tinha ainda 20 e poucos anos. Fui até candidato a vereador, por 15 dias (risos).
Como assim, por 15 dias? Desistiu da ideia?
Não me lembro bem o ano, foi na época do Nelson Meurer, fui candidato a vereador pelo PMDB. Até hoje sou desse partido, não mudo. Mas fiquei só 15 dias como candidato, e então desisti. Desisti porque a minha ideologia política era diferente. Eu sempre trabalhei com política, forma-se um líder e esse líder é convocado para representar. Se um líder está comandando aquele grupo, é o porta-voz daquele grupo, e como político eu pensava que era assim também. Fui candidato, saiu toda a papelada lá e no decorrer daqueles dias o pessoal começou a chegar aqui na empresa pra pedir as coisas, e não é o meu perfil fazer isso. Daí, liguei para o juiz e disse “não sou mais candidato”. O juiz quis saber o porquê, aí eu disse: “Olha que a resposta pode ser ofensiva”. Ele disse que eu podia responder igual, e eu falei: “Seu juiz, não sou ladrão do meu dinheiro, por isso que vou desistir da minha candidatura”. Com o dinheiro que eu tinha, eu construí um prédio e abandonei a política de vez. Hoje tenho meu partido, ajudo, mas não me envolvo mais. Meu piá, o Gustavo, esse sim gosta da coisa, mas eu não quero nem saber.
Hoje vocês moram lá no sítio no Rio Tuna?
É o Sítio Agmar, escolhi esse nome porque une os quatro nomes da minha família – Alberi, Gustavo, Maria e Marcos. Tenho 18 alqueires lá, tem criação só pro meu lazer. Já tive suínos, fazia o ciclo completo, ainda tem as instalações lá, mas abandonei um pouco antes daquelas crises. Pra trabalhar com porco tem que ter pessoas muito qualificadas, senão você leva prejuízo. E a madeireira aqui eu decidi parar já fazia horas, em virtude que eu tinha um funcionário que fazia um longo tempo que estava comigo (31 anos), minha preocupação era deixar ele sem serviço. Quando eu completei 60 anos já queria parar, o motivo era esse, é um funcionário excelente, meu braço direito, um filho, praticamente. E tinha um filho meu estudando e eu pensava que ele ia se formar e voltar, por isso que eu fui segurando, no momento que ele falou que ia pra agricultura, daí já falei para o funcionário que ia colocar à venda.
E nesses 45 anos de Beltrão, o senhor se orgulha das conquistas e do trabalho que realizou aqui?
Sim, esse motivo me leva a parar com a empresa: para eu poder usufruir um pouquinho do que eu tanto batalhei aqui em Beltrão. Tive sorte, agradeço a todos que me apoiaram, que me incentivavam e me davam forças para comprar as coisas e fazer os negócios. Sempre procurei mostrar aos outros a realidade. Quando alguém comprava na minha empresa e voltava, então era sinal que meu produto tinha qualidade, o preço dentro dos padrões, atendimento excelente, isso que me dava forças para trabalhar e dar continuidade ao trabalho. Se você der motivos, solta um boato na cidade, uma má imagem, depois para refazer é difícil. É a mesma coisa que encher um saco de pena, depois que espalhou, você não consegue juntar mais. Aqui é um lugar hospitaleiro, um lugar bom de se viver, você cria bastante amizade, e é a terra que me deu oportunidade de crescer na vida, por isso que estou em Beltrão. Não vou desprezar Beltrão jamais, pois é um pedaço de mim, me abraçou, por isso que estou aqui hoje, lutando e defendendo Beltrão, envolvido com o CTG, grupos de idosos, empresas, Sociedade Rural, Expobel. Estou retribuindo um pouquinho daquilo que ela deu tanto para mim.

quando ainda pertencia ao sogro de Alberi, Geraldo Artuso.
Foto: Arquivo Pessoal





