‘Dengue exige estudos, mas problema não é novo’
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| Infectologista Valdir Spada Júnior. |
“Historicamente a dengue é conhecida há muito tempo. Não é uma novidade que surgiu neste século. Até hoje não se sabe se o nome vem do árabe ou se é de origem africana. Mas já se descreviam os sintomas há muitos anos.” A declaração é do infectologista Valdir Spada Júnior, de Francisco Beltrão. E é uma informação nova, já que tudo o que se fala sobre dengue é novidade.
Mas, segundo o médico, os estudos mostram a relação antiga da dengue com a geografia do planeta. “O que se sabe é que a dengue acomete uma parcela específica do globo. Não adianta uma pessoa querer ter dengue, por exemplo. Tem que ter calor, altitude, umidade. E o mosquito”, explica. “No globo terrestre há um cinturão tropical que é onde existe a dengue.”
Em entrevista ao JdeB, o médico comenta a trajetória do mosquito Aedes aegypti no Paraná e reconhece que, apesar da campanha e do combate, a culpa é de todo mundo. “O problema é que quando a epidemia passa, a população esquece”, alerta. Para o infectologista, o melhor remédio é a vigilância. Mesmo porque ainda não existe remédio contra a dengue. “Ainda estão tentando juntar os quatro sorotipos da dengue em uma única vacina”, conta. Leia a seguir a entrevista completa.
JdeB – Qual é a trajetória do mosquito?
Spada Jr. – A dengue já foi erradicada no Brasil. Isso foi nos anos 30, quando houve uma campanha pra erradicação da febre amarela urbana, transmitida também pelo Aedes aegypti. No Paraná, a dengue estava em apenas uma parte do mapa. No ano passado surgiu em outros lugares e agora estourou aqui em Beltrão. Pelo que se vê no mapa, ela está descendo. E se tornando endêmica. Mas o mosquito precisa picar em uma pessoa que possui o vírus em circulação. O mosquito se infecta e repõem os ovos em água parada, que é o ambiente propício. Após 20 dias, a larva eclode. O problema é que os ovos são resistentes a lugares secos. Se o mosquito colocar ovos em local onde houver estiagem, mas que volte a chover depois de um tempo, ocorre o perigo de as larvas do mosquito voltar a eclodir.
JdeB – E a diferença de DEN 1, 2, 3 e 4?
Spada Jr. – O quadro clínico é o mesmo, não tem diferença um do outro. O que se sabe é que no Brasil, até o ano passado, tinha os três primeiros tipos. Surgiu o tipo 4, o que é preocupante. Mas quando a pessoa é infectada, ela ganha a imunidade para aquele tipo. Como são quatro tipos, a pessoa pode ter dengue até quatro vezes na vida. Só que se a pessoa pegou o vírus e teve a infecção logo, a resposta inflamatória pode ser mais exacerbada que a primeira. Explicando cientificamente: quando o mosquito pica a pessoa, o vírus cai nas células do sangue. Vêm os anticorpos e neutralizam o vírus. Aí vêm as células de defesa do organismo e englobam o vírus e a infecção termina ali. Na segunda infecção, reconhece-se o vírus, os anticorpos vêm e subneutralizam o vírus, mas não matam. Aí as células vêm, mas a quantidade de vírus que são englobados por estas células é muito maior e causa uma inflamação maior. Ou seja, quem pega dengue pela segunda vez tem uma maior chance de gravidade, teoricamente. Mas isso pode acontecer na primeira vez. É só uma teoria.
JdeB – O que determina a gravidade da dengue em uma pessoa?
Spada Jr. – Há fatores genéticos, ambientais, a imunidade conta também, a agressividade ou a carga do vírus a que a pessoa é exposta. Tudo isso são teorias sobre o porquê algumas pessoas desenvolvem a dengue hemorrágica e outras, a dengue clássica sem evoluir para a hemorrágica. O problema da dengue é que ela é muito dinâmica. A pessoa está bem e de uma hora para outra pode evoluir para um quadro muito severo. Por isso é importante a pessoa, ao consultar, saber dos sinais de gravidade que indicam que a coisa não vai bem. São os sinais de alarme. Em todo caso, aos primeiros sintomas é importante procurar ajuda médica imediatamente. As medidas são simples e evitam que a pessoa evolua para choque, que é a perda do sangue para o terceiro espaço. Ou seja, existe um aumento da permeabilidade dos vasos sanguíneos e, com isso, a evolução para o choque.
JdeB – A população está colaborando com o combate?
Spada Jr. – De uma maneira geral, estamos preocupados e a população está colaborando. O problema é que quando a epidemia passa, a população esquece. Isso acontece com outras doenças também. Mas é importante saber que o mosquito está aí e os cuidados não devem ser feito só durante o verão. O combate deve ser feito o ano todo.
JdeB – Os médicos estão preparados?
Spada Jr. – As capacitações que vêm sendo feitas são para relembrar o protocolo que o ministério lançou. Este protocolo foi feito para sistematizar o atendimento dos pacientes com dengue. Estamos sempre falando para relembrar, pois tem que ter atendimento sistematizado e separação de grupos de pessoas.
JdeB – Ainda não existe vacina?
Spada Jr. – Ainda estão tentando juntar os quatro sorotipos da dengue em uma única vacina. Não adianta vacinar só um ou dois tipos e a pessoa se expor ao terceiro tipo e ter uma forma mais grave da doença. Por isso, ainda se estuda uma forma de juntar os quatro sorotipos. Com relação aos repelentes, eles precisam ter uma concentração mínima de Deet pra que sejam efetivos (30%).
JdeB – Fumacê prejudica as pessoas?
Spada Jr. – Não causa problemas à saúde das pessoas. O fumacê é uma estratégia usada para controlar a transmissão e não para eliminar o mosquito. O inseticida mata o mosquito adulto apenas se estiver voando, se atravessar pela fumaça. Então é usado como forma complementar do controle da dengue. O ideal é o controle das formas larvárias, ou seja, o controle do criadouro ao longo do ano. O fumacê é usado apenas em casos específicos.
Os mitos da dengue
Ar-condicionado mata o mosquito?
Quando se usa o ar-condicionado a temperatura e a umidade baixam, isso inibe o mosquito. Ele tem mais dificuldade para detectar onde estará a possível vítima de sua picada. Porém, não morrerá. Estes aparelhos apenas espantam o mosquito, que poderá voltar em outro momento.
Secar reservatórios resolve?
Não é apenas o simples ato de secar os reservatórios de água parada que irá impedir o mosquito da dengue de se reproduzir. É preciso limpar o local também, pois o ovo ainda pode se manter “vivo” por mais de um ano sem água.
Repelentes são fundamentais?
Repelentes, velas de citronela ou andiroba, ao contrário do que muita gente pensa, não têm muito efeito no combate à dengue.
Tomar vitamina B afasta o mosquito?
Apesar de ser verdade que o mosquito é atraído de acordo com a respiração e o gás carbônico exalado pela pessoa, a ingestão de vitamina B —alho ou cebola também — não é uma medida eficaz. Tomar vitamina B pode afastar mosquito, mas isso não dura muito e também irá variar de acordo com o metabolismo de cada um.
Qualquer picada transmite a doença?
Primeiro é necessário que o mosquito esteja contaminado. Além disso, cerca de metade das pessoas picadas não desenvolvem a doença. Entre 20 e 50% vão desenvolver formas subclínicas da doença. Ou seja, sem apresentar sintomas. Mesmo assim, é importante em caso de dúvida ou qualquer suspeita procurar o posto de saúde mais próximo.
Borra de café mata os ovos do mosquito?
Não há comprovação de eficácia da borra de café na água das plantas e sobre a terra no combate ao mosquito. Pelo contrário, já foi verificado na prática que a larva do Aedes aegypti se desenvolve na água suja de borra de café. Ao invés de usar a borra, tente eliminar os pratos dos vasos, ou coloque areia até as bordas deles de forma a eliminar a água.
Larvas só se desenvolvem em água limpa?
Os ovos do mosquito também podem se desenvolver em água suja e parada. Então, o importante é acabar com qualquer reservatório de água parada, seja limpa ou suja. (Fonte: Ministério da Saúde)





