Depressão: as lágrimas que a sociedade precisa ajudar a enxugar
| Zilda Carmen de Marco, 66, com as netas Vitória, 6, e Paula Roberta, 4, e a filha Tânia de Marco. |
A depressão não é mais uma doença de fracos ou de poucos. O problema está em vários segmentos da sociedade e existe em, no mínimo, 21% da população de Francisco Beltrão, conforme revelou a Secretaria de Saúde em uma pesquisa que considerou apenas os dados da farmácia municipal. Ou seja, há muito mais pessoas adoecidas mentalmente que compram seus remédios em farmácias particulares.
Metade dos atendimentos realizados pelo médico Valdir Spada é de depressivos. “A depressão ocupa espaço de destaque. Mas também temos casos de psicopatias, como as esquizofrenias, dependências químicas e as chamadas reações ao estresse, as fobias, os pânicos”, afirma o clínico do Sistema Único de Saúde (SUS).
No consultório psicológico, o psicanalista Érico Peres Oliveira confirma que a depressão lidera a lista de doenças mentais seguidas por transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, transtorno obsessivo compulsivo e transtorno bipolar do humor. “Muitas doenças que nos são apresentadas como orgânicas no fundo têm uma conotação com o psicológico do indivíduo”, admite Spada. Situação que pode ser revertida com a ajuda de profissionais preparados para orientar e incentivar os depressivos a superar, primeiro, seu próprio preconceito e a romper com a rejeição imposta pela sociedade moderna.
Cinco anos de choro
É o caso de dona Zilda Carmen de Marco, de 66 anos, que fez da doença que a acompanhou por cinco anos uma fonte de renda. No Centro de Atenção Psicossocial (Caps), ela aprendeu artesanato. Uma atividade que lhe trouxe ocupação e realização pessoal. “A gente tinha um sonho de aprender alguma coisa na vida, eu não esperava aprender artesanato através deste tratamento”, conta.
Na cidade há três anos, a simpática senhora lembra-se das lágrimas que caíram por anos sem que ela mesma pudesse entender direito. “Eu ia lavar roupa e, pra ser bem sincera, tinha dias que ficava até o meio-dia chorando. Ia pra roça acompanhar ele [o marido] e sempre chorando”, recorda-se.
“O que a gente ganhou era preconceito. Muitas pessoas diziam que depressão não era doença, que podia fazer exame e não aparecia. Eu sempre dizia que não faz mal que eles fazem esta crítica, mas eu não desejo pra ninguém esta dita depressão. Eu tinha planejado que eu não queria mais viver.”
A proposta de tratamento surgiu em uma consulta devido a um problema em um dos pés. “A médica me perguntou ‘é só este o seu problema?’ Eu disse não, o problema maior é outro. Daí ela disse ‘a senhora vai pra um lugar para se recuperar’. E me deu medicamento”, relata Zilda, que morava, à época, na Linha Formiga.
Cura no artesanato
A reposta do tratamento contra a depressão de dona Zilda não rendeu apenas a cura dos sintomas, mas uma atitude de cidadania. “Faço oficina do artesanato no Caps. Passei a dar cursinho, como voluntária, no Colégio São Miguel, onde minha neta estudava”, diz dona Zilda, muito satisfeita por poder ajudar outras pessoas.
“Eu faço um pouco de tudo, as cobrinhas, os pesos de porta, as boneca e vou inventando. Quando eu vou com tempo pro centro, eu paro nas lojas que tem artesanato e fico olhando e, conforme o alcance do dinheiro, eu compro aquele artesanato e vou copiando”, revela dona Zilda.
“Eu me concentro no meu artesanato, é como tomar o remédio. Até que tô viva, acho que eu não posso abandonar meu artesanato. Já teve artesanato que foi até pro Rio Grande, para Ponta Grossa. Tudo resultado do tratamento.”
Desgaste social ou fator genético
Para o médico Valdir Spada, nem todos os pacientes precisam do atendimento imediato de um especialista. “Acredito que mais de 70% dos casos podem ser conduzidos pelo clínico que deve estar minimamente preparado para, ao menos, fazer o diagnóstico e iniciar o tratamento.”
A dificuldade de acompanhar um rápido progresso pode ser o motivo pelo qual a sociedade adoece, embora existam pessoas com predisposição genética. “O ser humano experimenta a dificuldade em lidar com a própria busca pela sua sobrevivência, segurança, futuro próprio e de seus familiares”, pontua Spada.
“O desgaste físico e mental do ser humano aumentou demais, a preocupação e a incerteza são uma constante. Logicamente que temos de lembrar o componente genético que existe na depressão, e é o que vai ditar se um indivíduo vai ou não desenvolver um quadro depressivo.”
O psicanalista Érico acrescenta que este ritmo acelerado imposto pela atualidade mascara o desencadeamento dos sintomas. “Estamos em uma corrida contra o tempo e, quando paramos para prestar atenção, os sintomas já estão maximizados. Muitas vezes o que pode estar desencadeando o sintoma pode ter ligação com o local de trabalho, dificuldades no relacionamento amoroso, questões sexuais ou a perda de um ente querido.”
Rede pública de saúde está surpresa
O médico Valdir Spada lembra que a estrutura pública do país também está sendo surpreendida com as doenças mentais. “São poucos, se existirem, os locais que conseguem atender a demanda.” Como nas situações que precisam de internamentos. “Casos graves, com alto risco de suicídio, têm enorme dificuldade de encontrar vaga”, observa. E quando se consegue, “as agendas estão hiperlotadas”.
“Lembremos que os dependentes químicos constituem uma grande parcela dos casos que adentram ao serviço público para atendimento, os quais são realizados no mesmo local onde são vistos os casos de depressão”, ressalta Spada.
Na semana passada, o governo federal lançou um conjunto de ações integradas com investimento de R$ 4 bilhões para enfrentar o crack e outras drogas. A iniciativa prevê o aumento da oferta de tratamento de saúde aos usuários de drogas e a ampliação das ações de prevenção.
Para o psicanalista Érico, o serviço público precisa estar em uma constante mudança, adaptando-se à demanda que não para de crescer. “Felizmente, possuímos na cidade um órgão que é pioneiro no Sudoeste em se tratando de transtornos mentais: o Caps. Trata-se de um espaço cujo foco é justamente as pessoas que padecem de um sofrimento psíquico. Frente à grande demanda, o exercício de adaptar-se é indispensável para manter a qualidade do trabalho, que há muito tempo já vem sendo reconhecido pelos seus próprios usuários.”
A dona Zilda é uma das pacientes que se empenham em reconhecer a ajuda oferecida por cada profissional e as atividades que aprenderam a realizar no Caps. “Eu agradeço em primeiro lugar a Deus porque estava lá embaixo e hoje estou melhor. E agradeço à equipe do Caps. Pra mim, o Caps é uma família”, diz Zilda, que dia 18 de dezembro completará nove anos de tratamento.
Preconceito
Assumir a depressão pode provocar uma grande dificuldade social e pessoal. “Ser depressivo gera uma sensação de impotência, de fracasso, de vergonha. Historicamente sempre foi assim. O pensamento é que o mundo é dos fortes. E que não há lugar para os fracos”, resume o médico Valdir Spada. A consciência de que a depressão tem origens psicológicas — e que podem ser tratadas — e orgânicas ajuda o indivíduo. “Tentamos mostrar que a situação pela qual ele passa tem uma conotação química, orgânica e que ele não ficará assim pra sempre; que é um momento da sua vida e que estruturas do seu organismo, os neurotransmissores, estão alteradas temporariamente”, explica.
Segundo Érico, o próprio preconceito é outro grande problema. “Quando se busca ajuda profissional, isso acaba perdendo força. Neste momento as perguntas sobre os sintomas são respondidas, trazendo um alívio necessário para que a pessoa possa se engajar no tratamento”, conta o psicólogo, da Clínica Psicanalítica de Beltrão.
Além das reações provocadas pela doença, o preconceito da sociedade é outro elemento que prejudica a busca pela cura. “Enfrenta-se uma dificuldade muito grande, pois as pessoas não entendem que o transtorno mental é tão forte, intenso e arenoso quanto doenças de ordem orgânica. Trata-se de uma doença da alma”, aponta Érico.




