Hanseníase: a luta contra a doença mais antiga

Hanseníase: a luta contra a doença mais antiga

A técnica em enfermagem Elma Kutchna, a médica Maria Luzia Topanotti e a enfermeira Lia Beatriz Henke compõem a equipe do SAE de Francisco Beltrão que atende pacientes com hanseníase.

No próximo domingo será o Dia Nacional de Combate e Prevenção da Hanseníase, a popular lepra, uma doença infecciosa causada por bactéria (bacilo-de-hansen) que afeta os nervos e a pele. Presente em alguns cenários descritos pela Bíblia, o problema permanece contagiando a humanidade desde muitos milênios a.C. No Brasil, o tratamento é oferecido na rede pública de saúde, mas a desinformação de profissionais e pacientes ainda é o grande obstáculo a ser superado.

“A doença é uma das mais antigas, mesmo assim ainda acontecem erros de diagnóstico. O diagnóstico é clínico, com exames neurológicos e dermatológicos”, alerta a médica Maria Luzia Topanotti, que atende no Serviço de Atendimento Especializado (SAE) de Francisco Beltrão. 

Segundo a médica, existem duas formas da doença — a mais branda se chama paucibacilar e é tratada em menos tempo, cerca de seis meses. A outra é a multibacilar, demora mais para ser curada. Em Beltrão, por exemplo, estão sendo acompanhados cinco casos de paucibacilar e dez de multibacilar. A maioria dos pacientes tem mais de 40 anos e é do sexo feminino.

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O número de pacientes tratados já foi maior. Em 2009 eram 22 casos. No ano seguinte a quantidade foi reduzida para 14 e, no ano passado, chegou a 15. Em 2012, permanecem em tratamento 15 pessoas.. 

A expectativa era de que houvesse mais casos da doença em todo o país. “O Brasil é o segundo no mundo em número de casos. A primeira colocada é a Índia, que está fazendo mais diagnósticos e diminuindo a quantidade de doentes. No Brasil o número está estagnado e não vem se conseguindo acabar com a doença”, lembra Maria Luzia.

 

Diagnóstico ainda falho

Para a médica, há falhas na própria rede pública. E mesmo com as estratégias de saúde da família (ESF) — que aproximaram o serviço da população nos últimos anos —, elas estão sujeitas a desencontros que só atrapalham o diagnóstico de novos casos de hanseníase. “Alguns médicos não reconhecem a doença e tratam como micose, por exemplo. Outra dificuldade é a pessoa fazer o exame e conseguir chegar aqui [no SAE] para se tratar. Tem casos de médicos que encaminham o paciente para o dermatologista, no CRE (Centro Regional de Especialidades). Até ele conseguir ser atendido, passou meses e a pessoa continua doente”, comenta.

A enfermeira Lia Beatriz Henke reconhece o caminho previsto pelo SUS e que deve ser seguido. Mas sugere mais praticidade. “Tem que ir ao médico, ele pede o exame e faz o diagnóstico. Aí o paciente vem pra cá. Mas às vezes o paciente vai a vários médicos e ninguém pensa que pode ser hanseníase”, resume.

“De repente alguém diz para ele vir aqui no SAE, quando chega, a gente vê de cara que é hanseníase”, conta Lia. “A maioria das vezes os pacientes vêm sem encaminhamento do posto de saúde”, acrescenta a médica.

 

Reações aos medicamentos

A reação dos medicamentos é outro desafio para os doentes de hanseníase. “Tem pacientes em acompanhamento por causa da reação, que já deu alta e continua vindo buscar remédio. A doença já curou, mas a bactéria fica na pele e, até o organismo eliminar, ela provoca inflamação”, diz Maria Luzia.

Os efeitos colaterais, além de gerarem resistência para os pacientes, são capazes de desenvolver outras doenças, como a anemia. “A mais comum é a anemia. Mas alguns pacientes podem ter também hepatite. Outros desenvolvem neuropatia que inflama o nervo da pele por causa da medicação.”

Outro impasse, segundo a enfermeira Lia, é a adesão ao tratamento. “No caso do paciente multibacilar, é um ano inteiro que ele vai ter que usar aquela medicação diariamente. Alguns param quando a parte pior da doença diminui e aí pensam que já estão curados. Outros não querem vir tratar porque terão que parar de beber e são alcoólatras”, revela Lia.

Sintomas da doença

Segundo a médica Maria Luzia, a maioria dos pacientes apresenta manchas na pele. “Podem ser manchas marrons, brancas, castanhas ou podem ser nódulos, o que significa que tem muitos bacilos”, explica. “A pessoa pode ficar cinco anos com a mancha que ela pode não doer ou coçar.”

Outra característica da hanseníase é a perda de sensibilidade. “Às vezes a pessoa tem dor na mão, no pé, mas na mancha elas não sentem. O primeiro sinal é quando coloca água quente ou fria na mancha e não sabe diferenciar. É a perda de sensibilidade térmica”, alerta a médica.

 

Ambientes ventilados

Ao desconfiar de hanseníase, é preciso procurar logo um posto de saúde. “Às vezes a mancha pode ser apenas uma micose ou uma cicatriz”, lembra a doutora, sugerindo que, na dúvida, é melhor buscar a ajuda de um profissional. “Para evitar o contágio, é importante manter os ambientes bem ventilados. A prevenção é a higiene do ar e da pessoa”, orienta.

 

Riscos de contagiar outras pessoas

Além da dificuldade de diagnóstico e do tratamento, que provoca reações, o combate à hanseníase encontra mais um obstáculo: a negligência do próprio paciente que se nega a continuar tomando os remédios pode fazer outras vítimas. Como a doença é transmitida pelo ar, familiares e amigos destas pessoas ficam diretamente expostos aos riscos.

“Tivemos o caso de um paciente que levava a cartela de remédio para casa todos os meses. Quando fizemos o exame da linfa (da orelha e cotovelo), vimos que estava a mesma coisa. Aí ele foi embora. Ano passado voltou e veio consultar, estava cheio de nódulos e pior do que estava. Começamos o tratamento de novo, mas ele não voltou mais”, conta a dra. Maria Luzia. O SAE fez outro contato com o paciente citado pela médica, mas sem sucesso. “Em uma das consultas, ele estava cheirando álcool. Provavelmente ele nem usava o medicamento”, supõe Luzia. “E ao ser diagnosticado, fisicamente ele estava bem. Mas desapareceu no final do tratamento. Na verdade, ele nem iria ter alta.”

A preocupação agora é com os chamados comunicantes deste paciente, que são aquelas pessoas que convivem diariamente. “Quando é um caso de multibacilar, nós acompanhamos durante cinco anos. Uma vez ao ano estas pessoas são chamadas para uma avaliação e vemos se está tudo bem com elas”, acrescenta a enfermeira Lia.

Conforme recomendam os protocolos da saúde pública, os comunicantes precisam ser submetidos à vacina BCG (Bacilo Calmette-Guérin). O contágio já poderá ter ocorrido, mas neste caso a doença deve levar anos para se manifestar.

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