“Município de Francisco Beltrão é carente de planejamento urbano”

Afirmação é do arquiteto Dalcy Salvatti, que já foi diretor do Ippub.

A cidade de Francisco Beltrão, o Coração do Sudoeste, precisa ser melhor pensada para o futuro.

O arquiteto e urbanista Dalcy Salvati foi o entrevistado do programa ‘Encontro Marcado’, da Ação TV, sábado, 4 de setembro. O ex-secretário de Planejamento de Francisco Beltrão foi convidado a falar sobre o desenvolvimento urbano do município e foi questionado pelos jornalistas Luiz Carlos Baggio, Everton Leite e Rafael Júnior sobre os rumos do município, que está próximo de chegar aos 100 mil habitantes, de acordo com as estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Dentre os assuntos tratados no programa, Dalcy afirmou que Francisco Beltrão necessita urgentemente de um planejamento urbano para que consiga absorver a população que vem de outros municípios para fixar residência, principalmente em função dos serviços prestados nas áreas da Saúde e da Educação.

Depois de mais de 40 anos de atuação como arquiteto e urbanista, Dalcy conhece como poucos as ruas e bairros de Beltrão. Além de secretário de Planejamento e Urbanismo, ele foi também diretor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Francisco Beltrão (Ippub), órgão ligado à Secretaria de Planejamento e fala que é preciso pensar muito bem no que fazer para melhorar as questões que envolvem a mobilidade urbana em função do crescimento do município para que haja menos problemas no futuro. “O nosso município é carente de planejamento urbano.”

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Chegando aos 100 mil
Segundo as estimativas mais recentes do IBGE, o município está próximo dos 100 mil habitantes (93.308) e em função da evolução constante, Dalcy acredita que esse número possa ser bem superior ao divulgado pelo Instituto. “É só observar o número de construções, os bairros, os novos loteamentos e o volume de pessoas que chegam à cidade. Acredito que devemos estar mais próximos do que já estamos, nas previsões.”

Quanto ao desenvolvimento de Francisco Beltrão, Dalcy acredita que o município precisa urgentemente de medidas para que possa ter um crescimento com mais organização para os próximos anos. “Com o tempo percebemos que algumas coisas precisam ser modificadas, sempre para melhorar. Temos que ter um manual de procedimentos para que todos falem a mesma língua, como foi feito com o manual de aprovação de loteamentos.”

Continuidade ao trabalho
Criado no governo do então prefeito Wilmar Reichembach (PSDB), o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Francisco Beltrão (Ippub), hoje é um dos departamentos da Secretaria Municipal de Planejamento e para que pudesse cumprir com sua função, o instituto, na opinião do arquiteto, deveria ter mais independência e manter o mesmo diretor e a mesma equipe de trabalho por no mínimo seis meses após a troca do comando na Prefeitura. “Justamente para dar continuidade ao trabalho já iniciado e não começar tudo do zero com a troca de governo. Isso se chama transição de planejamento. Se o novo prefeito achar interessante manter o mesmo diretor e a mesma equipe ou se quiser mudar, poderia fazê-lo apenas após seis meses do início do seu mandato.”

 

Dalcy Salvati: análise sobre o desenvolvimento urbano.

Planejar sistema viário
Um dos principais gargalos para qualquer município em desenvolvimento e crescimento, como é o caso de Francisco Beltrão é o trânsito. O aumento da população também se reflete no aumento de veículos nas ruas. Dalcy argumenta que é preciso de projeto concreto de planejamento viário da cidade. Para que isso se torne realidade, o ex-secretário afirma que o município deve buscar apoio dos governos estadual e federal. “Beltrão é carente de planejamento urbano. Tínhamos que ter projetado todo o sistema viário da cidade. Estão sendo feitos viadutos e trincheiras, mas são trabalhos pontuais. Tem uma proposta, mas não foi transformada em projeto ainda. Para ir em busca dos recursos tem que ter no mínimo um plano viável.”


Largura de vias

O aumento no número de veículos traz como consequência o aumento da circulação desses veículos nas ruas, especificamente as mais centrais, que são sempre as mesmas desde o surgimento do município. A busca de alternativas para desafogar o trânsito e dar mais leveza e fluidez é eterna. É necessário muito estudo para que tudo se organize da melhor forma, sem que haja prejuízo para moradores e comerciantes.
“Temos em Beltrão ruas com 18 metros de largura. A cidade foi expandindo e com os novos loteamentos a largura das ruas foi diminuindo para 16, 12, dez metros. Na Cango há pouco tempo atrás não se imaginava a construção de prédios. Hoje é uma realidade, mas não comporta. Nos bairros São Miguel e Cristo Rei acontece a mesma coisa.”


Acupuntura urbana

Como não existe a possibilidade de se estabelecer avenidas mais largas nesses bairros, Dalcy sugere que seja feito trabalho com sistema binário para que se possa dar conta de todo o fluxo de veículos. “Temos sempre que lembrar que o transporte coletivo é o prioritário, antes dos veículos individuais. Copiamos muito o sistema americano, que sempre foi voltado ao automóvel. Na Europa, como as cidades são mais antigas, não se consegue com que haja sistemas viários ideais para automóveis. Como dizia o urbanista Jaime Lerner, é preciso fazer a chamada ‘acupuntura urbana’. Não tem como transformar a cidade inteira de uma vez só, então se transforma pontos da cidade.” Ele lembra que a ‘acupuntura urbana’ já foi feita, quando da construção do prolongamento da Avenida Júlio Assis Cavalheiro. “A cidade terminava após o campus da Unipar. Demorou, mas abriu e está havendo ocupação naquele local.”


Presidente Kennedy

Uma das regiões que mais está recebendo investimentos é a do Bairro Kennedy. Ali, devem ser instalados o centro cívico (nova Prefeitura, nova Câmara de Vereadores, novo Fórum e nova promotoria pública), além do Max Atacado, em construção. Segundo Dalcy há um plano pronto com uma via margeando o Rio Marrecas para ligar a Travessa Kennedy à Rua Antonina. “É uma região que vai se transformar e vai se tornar bastante renovada e valorizada. Além de tudo isso, vai ter também um novo teatro naquele local.”


Novas construções

Hoje os terrenos mais afastados do Centro estão sendo mais procurados, principalmente para a construção de novos prédios e edifícios. Os prédios mais altos foram construídos no lado de cima do Calçadão, numa região em que o adensamento das áreas aconteceu há mais tempo. “Os valores dos terrenos na Avenida Júlio Assis estão muito altos e são poucos terrenos disponíveis. As pessoas estão procurando terrenos em que se viabilize o condomínio e as frações de solo, por isso as construções estão ocorrendo mais em áreas periféricas do que no Centro.”
Bairros como o Nossa Senhora Aparecida, por exemplo, apresentam muito potencial para novas construções, porque ainda existem muitas casas de madeira e de pioneiros naquele local. “São casas de 40, 50 anos atrás, que ainda não foram transformadas em alvenaria. Lotes que filhos de pioneiros, que já faleceram, receberam de herança e se obrigam a vender o terreno para dividir.”


Avenida da Integração

Os jornalistas aproveitaram a oportunidade e questionaram Dalcy sobre um projeto antigo, de interligação entre os municípios de Francisco Beltrão e Marmeleiro por meio de uma perimetral, sem que seja necessário passar pela rodovia estadual PR-180. Ele confirmou que foram feitas propostas ao governo de Marmeleiro para que a via fosse construída, mas que infelizmente não foi tocado à frente. “Apresentei o projeto ao prefeito Bandeira (Luiz Bandeira), na época e tínhamos até um nome, “Avenida da Integração”. Isso está no nosso plano diretor e quem sabe no futuro poderemos ter essa interligação.”

Menores devem perder população
Dalcy avalia que, de acordo com os últimos levantamentos feitos pelo IBGE, os menores municípios devem perder população, principalmente em função de que as pessoas procuram oportunidades nos maiores centros. “A falta de oportunidade de trabalho no interior, faz com que as pessoas busquem as cidades. A taxa de crescimento populacional no Sudoeste estimada foi de 0,4% enquanto que em Beltrão foi de 1,2%, o triplo.”
Com relação à população rural, ele informa que Beltrão não tem perdido, principalmente porque tem a agricultura familiar bem desenvolvida. “Essa população até cresceu um pouco, de acordo com o último levantamento. A produção de leite e a avicultura têm feito com que aumente.”

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Beltrão x Campo Mourão

De acordo com as informações reveladas por Dalcy Salvatti, o município de Francisco Beltrão está concorrendo com Campo Mourão sobre qual município chegará primeiro à marca dos 100 mil habitantes e, segundo ele, se as taxas de crescimento forem mantidas, Beltrão deve chegar antes ao número, apesar de a população de Campo Mourão hoje ser maior, de acordo com as estimativas do IBGE (96.102 habitantes). “Esse levantamento foi feito pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes).
O instituto diz que Beltrão vai atingir os 100 mil habitantes antes, porque nossa taxa de crescimento é de 1,2%, contra 0,4% de Campo Mourão.”

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