Nem toda criança agitada tem deficit de atenção

Nem toda criança agitada tem deficit de atenção

Elisângela da Cruz Liston é psicopedagoga em Francisco Beltrão.

Crianças e adolescentes com baixo desempenho escolar e comportamento fora dos padrões da idade são comumente tratados com o medicamento Ritalina, uma droga usada no diagnóstico de deficit de atenção e que rendeu ao Brasil o título de segundo maior consumidor mundial.

Apesar dos efeitos positivos de fármacos, seu uso indiscriminado pode estar associado a falhas na avaliação destes pacientes, como sugere a psicopedagoga Elisângela da Cruz Liston, de Francisco Beltrão. “Outras causas podem desencadear um comportamento mascarado, dando a impressão de um TDAH (transtorno do deficit de atenção e hiperatividade). Essas crianças estão sendo diagnosticadas erroneamente e medicadas sem a menor necessidade, talvez pela ausência de um exame laboratorial e a avaliação necessitar de uma análise mais apurada e complexa”, comenta.

Levantamento da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo mostra um aumento de 1,65% na venda de metilfenidato, o princípio ativo de Ritalina, entre 2000 e 2008. Mas pesquisas já indicam a correlação direta entre o uso contínuo do medicamento em crianças e adolescentes à dependência química.

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Diagnóstico

Segundo Elisângela, o diagnóstico do transtorno deve ser feito a partir de um médico especialista que analisa uma lista de até 18 sintomas. “Desatenção, hiperatividade e impulsividade têm que se manifestar em todos os contextos em que a criança vive e precisam provocar prejuízos, seja no relacionamento familiar, social ou no desempenho acadêmico.”

De 5% a 8% das crianças em fase escolar possuem o transtorno e, para a maioria delas, o uso de remédio alivia os sintomas. “Da mesma maneira que pessoas usam óculos, esses medicamentos ajudam as crianças a focar seus pensamentos e ignorar as distrações. Isso faz com que elas consigam prestar mais atenção e controlar seu comportamento”, relata. 

“Os medicamentos agem em circuitos cerebrais, aumentando a quantidade de neurotransmissores, principalmente dopamina e norepinefrina, que são substâncias produzidas pelas células nervosas e são responsáveis pela transmissão do estímulo nervoso”, explica Elisângela

O tratamento farmacológico, no entanto, não é a única responsável pela melhora do paciente. “Se não tivermos o apoio dos pais e da escola, juntamente com o psicopedagogo traçando um plano de conduta com mudança de rotina, reforço positivo, organização e limites, somente a medicação não exercerá essa função.”

Mas como distinguir um problema de comportamento de uma doença de comportamento? O segredo, segundo Elisângela, pode estar em um diagnóstico confiável. “Eis um desafio para médicos, professores e pais. Nunca esquecendo que, por trás das doenças da moda, sempre há uma indústria que fatura alto: a farmacêutica.”

 

Como identificar?

A hiperatividade é caracterizada por muitos problemas relacionados com a falta de atenção, fácil distração e impulsividade. Podem aparecer cedo, geralmente antes dos sete anos. “O diagnóstico precoce e o tratamento adequado podem reduzir drasticamente os conflitos familiares, escolares, comportamentais e psicológicos vividos por estas pessoas”, avisa Elisângela.

Na maioria das vezes, são os professores que identificam as alterações no comportamento da criança. Por isso, é importante manter um bom relacionamento com a escola. Mas é o médico pediatra o profissional indicado para fazer os primeiros questionamentos e decidir por uma investigação mais detalhada. “O tratamento necessita ser a longo prazo, pois o TDAH tem períodos de melhora e piora por um bom tempo, como se fosse o sobe e desce de uma montanha russa. As famílias precisam aprender a lidar com essa situação. Professores e outras pessoas que cuidam da criança precisam ser informados e devem fazer parte do planejamento”, sugere Elisângela.

A psicopedagoga lembra que é muito comum que as crianças apresentem os sintomas a cada certo tempo. “Quando isso acontece, verifique se ela não está reagindo a um problema na escola ou em casa. Ela pode estar aborrecida com alguma coisa ou estar passando por uma fase mais difícil e essas reações podem se assemelhar aos sintomas do TDAH.”

 

Consequências

Na idade escolar, as crianças com deficit de atenção apresentam maiores chances de repetência e evasão escolar, além de baixo rendimento e dificuldades emocionais e de relacionamento social. “As crianças são capazes de aprender, mas têm dificuldades na escola devido ao impacto dos sintomas em sua vida”, comenta.

Segundo a psicopedagoga, o comportamento é apresentado sem o desejo da própria criança. “E é por isso que ela acaba ficando brava, chateada, agressiva, acha que tem algo errado e não sabe o que é.”

Fique atento aos sintomas

Os principais sintomas são dificuldade de organização, de prestar atenção a pequenas coisas e de manter a atenção em tarefas ou atividades. Não seguir instruções, não ouvir quando lhe dirigem a palavra, não concluir tarefas ou evitar envolver-se em atividades que exijam esforço mental constante, perda de objetos e distração com facilidade também são alguns dos sinais da TDAH. 

Pais e professores devem estar atentos a hiperatividade: agitar as mãos, os pés ou se mexer na cadeira, não conseguir ficar sentada, correr ou escalar e falar em demasia, dificuldade em envolver-se silenciosamente em atividades, responder a perguntas antes que elas sejam formuladas e impaciência por esperar a sua vez.

As causas do deficit de atenção

 O transtorno de deficit de aprendizagem e hiperatividade (TDAH) é uma das doenças infantis mais estudadas. Mas até o momento não existem causas claras sobre o problema. Algumas pesquisas têm sugerido algumas possibilidades, como as que a psicopedagoga Elisângela da Cruz Liston apresenta a seguir.

– Desordem biológica, como problemas com as substâncias químicas cerebrais que mandam as mensagens para o cérebro;

– O baixo nível de atividade em áreas cerebrais que controlam a atenção;

– Hereditariedade: é frequente diagnosticar o problema na criança e em um dos pais;

– Infecções por estreptococos: crianças que tiveram febre reumática têm mais chances, segundo sugerem alguns estudos;

– Produtos tóxicos do meio ambiente, em casos muito raros;

– Intercorrências na gestação, como o uso de cigarro, álcool e outras drogas, infecções como a toxoplasmose, rubéola, hemorragias e hipertensão arterial e até nascimento prematuro da criança.

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