No passo do cavalo, a técnica usada para tratar deficiências
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| O guia do animal Felipe Bednarski, a Maria Luiza de Andrade e o fisioterapeuta Fernando Bednarski. |
A pequena Maria Luiza de Andrade, de apenas seis anos, tem uma má formação do cérebro que afeta a coordenação motora. Desde que começou a fazer sessões de equoterapia, em Francisco Beltrão, a mãe Michele Cardoso Garcias que já buscou ajuda de médicos especialistas, em Curitiba, conta que os resultados são surpreendentes.
A técnica usada para estimular o tônus muscular tem ganhado destaque na fisioterapia. O paciente é colocado sobre o cavalo e com a ajuda do profissional e do guia do animal é que se obtêm ganhos na luta pela reabilitação; benefícios que vão desde avanços físicos e até melhora da autoestima. Tudo isso, claro, com o tempo, no passo do cavalo.
Michele disse que começou a levar a filha Maria Luiza para fazer sessões em Pato Branco. Depois de seis meses, a menina “teve 90% de melhora”. Só parou de ir ao município vizinho porque soube que a Clínica Oásis, em Beltrão, passaria a oferecer o tratamento com equoterapia. A clínica inaugurou a 15 dias, na linha Santa Bárbara.
Além da equoterapia, Maria Luiza também faz sessões de fisioterapia convencional e de fonoaudiologia. “Com a equoterapia, feita mais vezes, ela vai melhorar. Primeiro tem que melhorar o tronco pra depois poder ficar sentada sozinha”, comenta a mãe, principal incentivadora de Maria Luiza.
Segundo o fisioterapeuta Fernando Bednarski, da Clínica Oásis, a equoterapia não é indicada para tratar distrofias musculares e escolioses acentuadas. “Porque o efeito da terapia evolui o tônus muscular. Num caso de distrofia muscular, muitas vezes pode-se evoluir a doença. A musculatura trabalhada nos exercícios a cavalo pode sobrecarregar e evoluir pra um resultado não é esperado.”
O primeiro passo é fazer uma avaliação que priorize distúrbios e alterações neuromotoras de acordo com doença. Em seguida, o paciente é montado no cavalo. “A maioria das sessões não é realizada com montaria dupla, mas depende do desenvolvimento motor”, explica. A sessão inclui alongamentos e correções posturais e é realizada “no passo do cavalo” durante os 40 minutos.
Duas sessões semanais
A recuperação é gradativa e apresenta um melhor resultado em tratamentos com duas sessões semanais. “Os ganhos acontecem por estímulos de sistema vestibular (equilibrio), associado a propriocepção (sentir movimento) e a visão. Desenvolvimento é visto pelo início de controle de pescoço e tronco; onde a pessoa começa a ficar sentada e, depois, a ganhar cada vez mais amplitude em membros superiores (braços).”
A duração do tratamento, segundo o fisioterapeuta Fernando, está relacionada diretamente com a gravidade da lesão nervosa. “Depende muito do quadro neurológico do paciente. A melhor evolução é com duas vezes por semana. É mais rápido.”
Durante a equoterapia, são em torno de 1800 a 2200 correções de tônus muscular. “No movimento tridimensional, o paciente é estimulado a ir pra frente, pra trás, pros lados, pra cima e pra baixo pelo andar do cavalo”, explica Fernando.
O segredo da equoterapia está “na marcha do cavalo”. “Por exemplo, se usar uma bola pra estimular o paciente, não se consegue tantos estímulos do que quando acontece em cima do cavalo. Sem contar os ganhos emocionais do paciente de começar a se sentir livre e ter domínio sobre o animal. Tudo isso estimula a reabilitação”, garante.
Indicações da equoterapia
De acordo com Fernando, a equoterapia é usada para tratar Parkinson, AVC, paralisia cerebral, lesões medulares, sequelas de TCE (trauma cranioencefálico), distúrbios comportamentais e sociais, autismo, esquizofrenia, distúrbio da atenção e hiperatividade. E ainda: Síndrome de Down, deficiência visual e auditiva, alterações de fala, atraso de linguagem, insônia, ansiedade, estresse e desenvolvimento psicomotor.
“Tambem é importante frizar a participação de outros profissionais como fonoaudiólogos, psicólogos, educadores físicos, terapeutas ocupacionais e pedagogos que também realizam seus tratamentos utilizando a equoterapia.”
Prevenção de doenças
Os efeitos da equoterapia têm despertado adultos e crianças em busca de alívio para outras dificuldades da vida, como o estresse, depressão e problemas de aprendizado. Reportagem da Folha de S. Paulo, no caderno Equilíbrio e Saúde, mostrou que mesmo quem não tem limitações neuromotoras ou cognitivas procura a técnica para prevenir doenças e, ainda, melhorar a oxigenação dos neurônios.
Caso raro
Segundo a reportagem da Folha, Neil Anderson de Almeida Saubo, 36, tem uma doença raríssima na América Latina de nome complicado (síndrome de Hallervorden-Spatz), que provoca rigidez e perda muscular irreversíveis.
Com um ano de equoterapia, hoje Neil chega com a cabeça erguida para acariciar o cavalo e, ao montar, mantém a coluna totalmente ereta. Bem diferente de quando começou as sessões em que chegava curvado, queixo no peito e mal conseguindo respirar.






