Só em um dos 42 municípios elas ganham mais
O município de Sulina é o único do Sudoeste do Paraná com rendimento médio das mulheres superior ao dos homens. A diferença salarial é muito pequena, de apenas 1%, uma vez que a remuneração média masculina fica em de R$ 1.576,59 e a feminina em R$ 1.586,19. Os números constam da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), de 2013, estudo realizado com base nos dados de empregos formais nos setores público e privado no país.
Sulina, com 3.329 habitantes, é justamente a cidade da região onde as mulheres mais são valorizadas financeiramente pelo trabalho. Segundo o relatório da Rais, o setor que mais emprega é o de serviços, seguido pela administração pública e comércio.
Por outro lado, o município com maior discrepância é Capanema. Lá, as mulheres ganham 38% menos que os homens. O salário médio deles é de R$ 1.927,52 e das mulheres, R$ 1.195,81, ou seja, uma diferença de R$ 731,71. Esta defasagem, que deveria estar diminuindo, aumentou 90% de 2010 a 2013, quando o rendimento divulgado foi de R$ 1.065,78 (homens) e R$ 852,31 (mulheres).
Esta situação se repete em todo o país. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) 2013 mostram que em 2002 o rendimento das mulheres era equivalente a 70% do rendimento dos homens. Dez anos depois, em 2012, a relação passou para 73%. No grupo com 12 anos ou mais de estudo, o rendimento feminino cai para 66% da renda masculina.
Serviço pesado
A gerente da Agência do Trabalhador de Capanema, Veranice Melo, afirma que raramente percebe algum tipo de discriminação com relação às mulheres no mercado de trabalho. Na opinião dela, a diferença salarial é alta no município porque a maioria dos empregos para elas são gerados no comércio e no setor de confecções (facção), onde a renda é mais baixa. “Com o início da obra da Usina Baixo Iguaçu, houve um aumento significativo de empregos que exigem força braçal (construção civil), que se encaixa no perfil masculino.”
No setor de obras, os salários estão acima da média local. Veranice observa que a defasagem salarial das mulheres ainda é alta também no ofício de empregada doméstica, que começou a melhorar no último ano com a nova legislação, que inclui 13º salário, férias e horas extras. “No frigorífico elas são mais bem remuneradas.” Na opinião da gerente, não há uma justificativa para a diferença e isso gera insatisfação, “pois a qualificação é fundamental e a pessoa gasta para estudar e nem sempre recebe a mais por isso, a não ser onde existe plano de carreira”.
Discriminação salarial
De acordo com a economista Fernanda Bezerra, a diferença salarial entre homens e mulheres pode ter várias explicações, como: tipos de atividades exercidas, grau de escolaridade, tempo de experiência, entre outros atributos que podem se diferenciar. “Por exemplo, a mulher recém-casada provavelmente terá filhos e isso, algumas vezes, a impede de conseguir alguma promoção. No entanto, o que é preocupante, quando se compara homens e mulheres com as mesmas habilidades e qualificações, a mulher ainda ganha menos em média. Essa parte não explicada pelas diferenças de habilidades pode ser considerada uma discriminação salarial.”
Fernanda ressalta que a busca por igualdade salarial precisa ser uma meta de política pública, já que vários estudos mostram que a renda da mulher tem maior impacto, por exemplo, no nível de escolaridade dos filhos. “Como há mais mulheres do que homens no Brasil e as mulheres estão estudando mais do que os homens, a mulher tem suma importância para aumentar a produtividade da economia brasileira.”
A escolaridade feminina em média é superior que a masculina, assim, considerando apenas esse fator, as mulheres deveriam ganhar até mais. “Mas essa redução da diferença já é um bom sinal, indicando que o perfil da mulher moderna é mais dedicado ao trabalho, e isso vem sendo reconhecido, mesmo que parcialmente, pelo mercado de trabalho.”
Trabalho perto de casa
O sociólogo Adilson Alves, professor da Unioeste, afirma que há estudos que indicam que as mulheres muitas vezes preferem sacrificar o trabalho e um salário melhor por causa da distância da sua residência. “A prioridade da mulher é a família. Então, muitas vezes, elas preferem aceitar um rendimento menor, mas que o trabalho seja perto de sua casa para não comprometer suas atividades do lar.” De acordo com ele, a ascensão de milhões de famílias à classe C está ligada, também, ao fato de as mulheres terem buscado mais qualificação e trabalho, ajudando a aumentar o orçamento doméstico.
Em busca do conhecimento
Para a professora da UTFPR Daiane Silva, apesar de haver um discurso de que o machismo não existe mais, na visão dela ainda existe e acontece na sociedade contemporânea. “A ideia de que o homem deve ser superior à mulher ainda é colocada em prática em várias esferas da sociedade. No mercado de trabalho não é diferente. Acredito que teve origem na ideia de que o homem conseguia fazer um serviço “mais pesado” enquanto a mulher (considerada frágil) não, então a remuneração era diferente.”
Daiane observa que atualmente as mulheres ocupam cargos que não ocupavam antes e têm cada vez mais saído de casa em busca de conhecimento, cursos e do diploma do ensino superior. “Não vejo sentido mais em tal discrepância de salário, até mesmo porque, apesar de as mulheres terem conseguido mais espaço no mercado de trabalho, muitas ainda têm que chegar em casa e ser donas de casa, ser esposa, ser mãe, enquanto muitos homens ainda se recusam a ajudar a mulher em casa e ficam na mesma posição que ocupavam décadas atrás, de provedor do lar.”
Aumento do rendimento no Brasil
A Rais 2013 aponta, também, aumento nos rendimentos médios dos trabalhadores formais de 3,18% (tomando como referência o INPC), percentual superior ao ocorrido em 2012 (2,97%), passando de R$2.195,78, em dezembro de 2012, para R$ 2.265,71, em dezembro de 2013. O resultado é proveniente do aumento de 3,34% nos rendimentos médios das mulheres e da elevação de 3,18% no dos homens.
Os dados da Rais servem de subsídio para o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e Previdência Social; permitindo o controle da nacionalização da mão de obra e auxiliando a definição das políticas de qualificação profissional, além de gerar estatísticas sobre o mercado de trabalho formal.





