Preventivo: é melhor fazer a partir de que idade?
| Thiago Chiapetti |
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| João Manoel Gonçalves é médico ginecologista e obstetra em Beltrão. |
Depois de iniciar a vida sexual, toda mulher deveria agendar o seu primeiro exame preventivo. Este é o conselho do ginecologista e obstetra João Manoel Gonçalves, de Francisco Beltrão, que acrescenta ainda a precisão no diagnóstico clínico como a melhor forma de evitar o câncer do colo de útero, o segundo tumor que mais mata mulheres no Brasil — só perde para o câncer de mama.
O Instituto Nacional do Câncer (Inca) aumentou, na semana passada, a faixa etária para realização do preventivo (o Papanicolaou). O rastreamento que era feito apenas até os 59 anos foi ampliado. Agora, conforme as novas diretrizes, as mulheres serão assistidas pela rede pública até os 64 anos. O que permanece, no entanto, é a idade mínima de 25 anos. Tarde demais, na opinião do dr. João Manoel.
“Acho importante todas as vezes que melhoramos o rastreamento de alterações na mulher. Isso pensando em saúde pública. Temos que proteger o maior número possível de pacientes. Mas as mulheres devem começar a fazer o preventivo a partir do momento que iniciam sua vida sexual”, lembra o médico. “E a vida sexual está começando cada vez mais cedo.”
Para João Manoel, o apelo das mídias é um dos grandes contribuintes da iniciação precoce. “Hoje já tem meninas com 14 ou 15 anos em plena atividade sexual e que, aos 19 anos, já podem estar apresentando alguma alteração do colo de útero. O número de parceiros também expõe estas mulheres com mais facilidade às alterações que podem levar ao câncer do colo de útero”, salienta.
O preventivo é seguro?
O epidemiologista brasileiro e estudioso do câncer Eduardo Franco, do Canadá, considera o exame preventivo um “teste obsoleto”. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, na edição de 17 de julho, o médico conta que o método já foi substituído por novas tecnologias na maioria dos países desenvolvidos. “Falta coragem política e informação”, diz Franco sobre fatores que impedem mudanças do rastreamento na saúde pública.
O dr. João Manoel também reconhece que o teste citológico não é totalmente seguro. “Mas não é obsoleto. Pra massa é um exame que serve de rastreamento”, contrapõe. “Já existem métodos melhores, a captura híbrida ou o preventivo em coleta de meio líquido. É uma avaliação mais precisa. Mas são exames ainda caros. Usa-se em consultório, mas não em saúde pública.”
Para baixar o custo das ferramentas modernas e mais precisas para rastrear o câncer nas mulheres, é preciso que se aumente a demanda. “Com mais pessoas pedindo, o volume de exames pode fazer o valor baixar”, sugere João Manoel. “Se adotar de forma universal, o preço cai”, disse Franco à Folha.
Exame clínico
Paralelo aos custos do exame preventivo e das estratégias para o seu barateamento, o exame clínico ainda é a melhor alternativa no combate ao câncer do colo de útero. Segundo João Manoel, há riscos sérios de erro no momento da coleta do material a ser analisado para detectar ou não o câncer.
“Nem sempre a área alterada (com câncer) é coletada durante a raspagem do colo de útero. Ou seja, a paciente pode possuir alterações e ter analisada uma representação normal de suas células”, alerta. “Em outras vezes a representação das células é tão pequena que o patologista não consegue dizer se ali tem uma alteração.”
Para o médico, a normalidade do resultado do exame preventivo não descarta a possibilidade de câncer. “Quem colhe o preventivo deve sempre olhar com cuidado o colo de útero pra ver se há outra alteração que possa ser investigada”, comenta, sobre a necessidade de um “olhar clínico” por parte do médico.
“A maioria das minhas pacientes tem menos de 25 anos e já fazem o preventivo. Já detectei caso de câncer de colo de útero em uma paciente com menos de 25 anos. E tem muitas mulheres com colo de útero alterado nesta idade”, comenta João Manoel ao reforçar a necessidade do preventivo logo que se inicia a vida sexual.
HPV: imunização em massa
A vacinação em massa contra o HPV (papilomavírus humano) é outro debate que envolve altos custos e iniciação sexual precoce. A vacina só está disponível na rede privada a um custo médio de mil reais e deveria ser aplicada em meninos e meninas em idade escolar, de acordo com a análise do dr. Eduardo Franco.
“O custo não seria o mesmo para a adoção subsidiada na rede pública. A Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) já garante um custo de US$ 15 por dose na América Latina. Se o Brasil participasse desse pool, esse custo seria ainda mais reduzido”, sugere o médico.
Para Franco, as mulheres de baixa renda são as que mais desenvolvem câncer de colo de útero. “São aquelas mulheres que não são amparadas pelo sistema de saúde. E provavelmente nunca ouviram falar de vacina. As filhas delas serão como as mães.”
E conclui Franco, na reportagem à Folha: “Aquelas que vão todo ano fazer seu papanicolaou não vão desenvolver câncer. Essas mulheres também sabem da vacina, têm dinheiro e levarão as filhas para serem vacinadas. Portanto, ao não introduzir a vacinação universal na população brasileira, a gente acaba protegendo duplamente uma camada da população que já estava protegida”.





