”Quem se informou do regime militar pela TV, acha até hoje que não houve corrupção”, diz professor de História

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Em toda região se viu pedidos de intervenção militar.

Foto: Rádio Clube Realeza

A única possibilidade de intervenção militar no Brasil seria um golpe como o de 1964. Isso porque a Constituição Federal não prevê em nenhum de seus artigos essa possibilidade. A Carta Magna diz em seu artigo 142, inclusive, “que as Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais sob a autoridade suprema do presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. Mas essa é uma possibilidade aventada por uma minoria.
O próprio ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Sergio Etchegoyen, afirmou ontem que as Forças Armadas não pensam em intervenção militar. Para ele, o tema é um “assunto do século passado” e que não faz “nenhum sentido” diante da maturidade da sociedade brasileira. O movimento dos caminhoneiros que pede intervenção militar está, inclusive, perdendo muito apoio da sociedade.

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O professor de História Odair Geller acredita que o pedido por intervenção militar tem a ver com o descontentamento do povo com a atuação do Estado brasileiro, que não consegue oferecer os serviços básicos em função dos quais ele existe. “Vemos que na educação as coisas não andam bem, na saúde o paciente fica mais de seis meses na fila pra consultas eletivas ou exames e ainda há sensação de insegurança nas cidades maiores”, analisa Odair.

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Contudo, na opinião do historiador, como o Brasil vive um regime democrático, “o povo confunde a incompetência do Governo com a democracia, como se associasse a democracia a coisas ruins, ‘estou sem emprego, logo a democracia não é boa’”.

 

Onda conservadora
Além disso, ele observa que há no mundo, nos últimos três ou quatro anos, o avanço de uma onda conservadora, de extrema direita, desde a crise americana, passando pela experiência dos estados de formatação mais social, caso dos EUA de Obama, a Venezuela de Chaves, a Bolívia de Evo Morales, o Peru de Ollanta Humala (presidente até 2016) e o Brasil de Lula e Dilma. “A grande burguesia perdeu dinheiro, a empregada doméstica com mais direitos, cotas, o grosso do orçamento para Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida. Há em curso uma reação dos setores conservadores para desfazer muito do que foi feito, para recuperar o aparelho de Estado.”

De acordo com Odair, a propaganda dos anos 1960, de que existe um “cara do mau”, que “come criancinha”, feita na época em que se derrubou João Goulart, ainda está viva na cabeça de algumas pessoas. “Toda vez que a direita se sente ameaçada, eles reavivam esse imaginário do ‘perigo comunista’. Um dia desses escutei uma pessoa de mais idade dizendo ‘agora, com os comunistas querendo tomar o poder…’. Cara, a gente nem tem esquerda no Brasil, quanto mais comunistas.”

Para o professor, as pessoas que pedem essa intervenção não sabem que na época do governo militar não poderiam sequer estar em uma manifestação. “A ditadura tinha um aparelho de censura que colocava caras que manifestavam seu pensamento na cadeia e torturavam. Com a censura na imprensa, que era duramente vigiada, não apareceu a corrupção do regime. Quem se informou do regime pela TV, acha até hoje que não houve corrupção, roubalheira. Aí vê a corrupção hoje e pensa ‘bom na ditadura não tinha, então quero ditadura’. Esse pessoal não tem noção do que fala, mas os grandes se aproveitam da ingenuidade.”

E as próximas eleições vão acontecer em um clima bem perigoso, opina Odair. “Ainda mais se algum candidato da centro-esquerda emplacar, a direita não vai deixar acontecer um novo Lula, uma nova Dilma.”

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