Solidão aumenta no fim de ano; veja como lidar com as emoções

Solidão aumenta no fim de ano; veja como lidar com as emoções

Psiquiatra Ricardo Zimmer, da Clínica de Saúde Mental
de Pato Branco.

A solidão durante as festas de fim de ano é um problema que pode agravar os sentimentos de tristeza e de frustração e, em algumas situações, desenvolver doenças mentais. Pessoas que se sentem angustiadas e deprimidas, mesmo que estejam cercadas de amigos e de familiares, podem até pensar em desistir de viver. São vítimas do estresse e da pressão social; uma situação cada vez mais frequente na opinião de especialistas ouvidos pela reportagem do JdeB.

Segundo o psiquiatra Ricardo Zimmer, de Pato Branco, as tentativas de suicídios acontecem principalmente entre a primavera e o verão. Bem diferente do que se imagina, pois os dias destas estações são reconhecidos como bonitos e inspiradores. “Ao contrário do que se pensa que seriam nos dias frios e cinzas do inverno e outono”, diz Zimmer.

Psicanalista Érico Peres Oliveira, da Clínica Psicanalítica de Beltrão.

O psicólogo e psicanalista Érico Peres Oliveira, de Francisco Beltrão, lembra que é importante compreender que nem todos têm motivos para comemorar. “Entendamos que há um imperativo nestas comemorações de final de ano de que precisamos estar alegres e rodeados de pessoas felizes. Mas relembrar momentos tristes, como a perda de alguém, acaba sendo complexo para quem já vive um quadro depressivo”, observa.

- Publicidade -

“Estamos falando de uma época que mexe drasticamente com todos. Porém, não são todos que lidam bem com a solidão. Deparar-se estar somente consigo em uma data que te exige estar cercado por familiares e amigos pode se tornar algo muito pesado. É muito difícil pensar em novas metas quando esta capacidade está estagnada”, diz Érico.

Para o pastor Fernando Araújo, de Dois Vizinhos, o comportamento da sociedade muda muito nesta época. E o destaque para o apelo comercial é o principal causador deste cenário. “São atitudes que se efetivam com o poder de compra e de festas regadas à comida e bebida. Por outro lado, outras pessoas expressam-se de forma intimista e isolada”, analisa.

“Mas o interessante a notar é que, seja nos âmbitos festivos e de poder de compra, bem como nos guetos angustiosos de metas e objetivos não alcançados, os episódios de solidão e depressão se fazem notar. Disto entendo que a questão não está fora, mas dentro de alguém que carece de significado e sentido objetivo de vida”, diz o pastor.

Conforme o médico Ricardo, o que agrava o sentimento de tristeza no fim do ano é a imposição quase automática do sentimento de felicidade. “Outro ponto é a avaliação que as pessoas fazem daquilo que se propuseram a fazer, mas que não foi realizado. Quando alguém com depressão pensa no ano que segue, a visão que faz do futuro é por meio de um filtro negativo”, explica.

“É extremamente difícil fugir deste estresse. Administrar a situação com calma é fundamental. Sempre é de grande ajuda, nestes momentos que cresce o volume de exigências, continuar desenvolvendo novos planos. Nós sempre funcionamos assim, jogando metas lá na frente para correr atrás”, ensina o psicanalista Érico.

 

Reuniões em família

A reunião com os pais, tios e avós também é outro momento característico destes dias, mas propício para gerar sentimentos ruins. “As datas festivas são muito intensas de carga afetiva onde famílias se reúnem e nem sempre as pessoas conseguem lidar de forma adequada com lembranças desagradáveis”, sugere o médico pato-branquense.

Já o pastor Fernando entende que a pressão de um ano inteiro de trabalho muitas vezes não acaba bem. “Famílias em crise se reúnem sob a aura de suas crises não resolvidas, embaladas ao torpor de álcool e de outras motivações. Fórmula que só pode gerar dores desnecessárias”, diz Fernando que também é teólogo e autor de quatro livros.

“Neste mês ocorre aumento das horas de trabalho e aumento dos custos. Se recebe mais, porém se paga mais. Administrar o estresse corresponde à pessoa trazer a consciência de que ela não está de todo ameaçada e que existe, sim, mais tempo do que se imagina para dar conta dos afazeres. Diminuindo a pressão temos uma melhora do rendimento”, ensina o dr. Ricardo.

 

Quando procurar ajuda

O psicanalista Érico alerta sobre quando se deve buscar ajuda. “Costumo dizer que é importante perceber o momento em que se sente que a vida perdeu o brilho, quando se perde a habilidade de apreciar as coisas simples. Deve-se ficar atento em relação aos sentimentos. Um familiar, um amigo ou um profissional pode dar o amparo devido.”

O psiquiatra Ricardo lembra que “ninguém pode estar absolutamente só”. “Não nos sentimos sozinhos, mas pensamos sozinhos. Estar só corresponde ao sentimento de abandono, porém esta interpretação ocorre porque o sentimento de tristeza interfere na maneira de ver a realidade. Uma forma útil de lidar com isso é agir de forma ativa com atividades que possam trazer bem-estar.”

 

O papel da igreja

Pastor e palestrante Fernando Araújo, da Batista Betel
de Dois Vizinhos.

O pastor Fernando acredita que as reuniões em igrejas também podem contribuir para reverter os problemas que geram desesperança na sociedade. “As reuniões do povo de Deus geram a provisão de aceitação, inclusão e afetividade”, diz. E sugere a citação bíblica de Jesus para reflexão individual: “eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância”.

 

Serviço de apoio emocional cresce 20%

As festas de fim de ano fazem aumentar em 20% a procura pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), segundo reportagem publicada pela Folha.Com. A entidade oferece gratuitamente apoio emocional imediato.

São 71 unidades espalhadas pelo Brasil com atendimento durante 24 horas, a partir da central telefônica 141, por e-mail, Voip, por correspondência ou pessoalmente. O site www.cvv.org.br também dispõe de chat para conversação online.

Os atendentes são voluntários que passam por um treinamento de três meses. A entidade foi criada em 1962 e inicialmente se propunha a ajudar pessoas prestes a se matar. Hoje a filosofia do grupo é ouvir quem precisa desabafar antes de pensar em suicídio.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Destaques