A vida não é uma linha reta, uma estrada sem fim. A terra não é plana, ela nos proporciona o ciclo da vida a cada dia, a cada lua, a cada ano. Parece tão óbvio! Muitos aprendem isso na escola; os agricultores no cultivo da terra, semeando e colhendo.
O meu primeiro ciclo foi na agricultura e no transporte. Nasci no município de Santo Antônio do Sudoeste (PR) em 1961. Filho, neto, bisneto… de agricultores familiares.

Formei meus valores de trabalho, honestidade, caráter e solidariedade humana inspirado na minha família. Era um tempo bom, mas difícil! Para fazer o ginásio precisava caminhar mais de 10 km, não tinha transporte escolar. Uma faculdade, só na capital, ou em cidades a 300, 500 km de distância. A solução era abandonar os estudos e se dedicar ao trabalho duro. Logo, conheci os benefícios de uma cooperativa para as famílias do campo.
O segundo ciclo iniciou em 1984. Com 23 anos de idade me engajei nos movimentos de base da Igreja e na criação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Pranchita. Vivi as angústias da família na liquidação da cooperativa; estive junto com os agricultores, lutando para não perder as terras para os bancos; como dirigente e funcionário da Asessoar (Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural), ajudei a construir ferramentas de resistência, como a agricultura alternativa e o fundo de crédito rotativo; como dirigente sindical, participei do processo da Constituinte e das conquistas da Constituição Cidadã de 1988, que reconheceu a propriedade em regime de economia familiar e criou o assegurado especial da Previdência; coordenei o Fundo de Crédito Rotativo e a criação da Cresol de 1993 a 2003, sendo o primeiro presidente do sistema; participei do primeiro Grito da Terra Brasil, em 1995, e a conquista do primeiro Provap, de R$ 1,5 milhão para a agricultura familiar; como dirigente da Cresol e da Frente Sul da Agricultura Familiar, estive presente em toda a formulação do Pronaf e, em 1997, entrei pela primeira vez no Palácio do Planalto para conversar com o Presidente FHC sobre Cresol e Pronaf.
Assinei os primeiros contratos de parcerias da Cresol com a Emater, Banco do Brasil, BRDE, BNDES, Mapa-Denacoop.
Durante esse segundo ciclo, também namorei, casei e tive quatro filhos.
O terceiro ciclo iniciou em 2003, quando assumi o mandato de deputado federal. Foram 20 anos respirando o mundo da política. Fui protagonista de importantes conquistas.
Registro algumas, como: a Lei da Agricultura Familiar (autor), a Lei da Previdência Rural (relator), a Lei do Combate à Pobreza Rural e PAA (relator), a Lei do Piso Mínimo de Fretes (autor), a Lei das Estradas-Parque (fui autor, e está no Senado), os campus universitários e institutos federais no interior, os investimentos em saúde, o apoio às pessoas com deficiência, o PAC 2 Estradas Rurais, o credenciamento da Cresol como agente do BNDES, entre outras conquistas.
Contudo, lamento as inúmeras decepções, como a iniciativa dos “aloprados estatizantes”, que criaram o Banco Popular do Brasil sem a participação das cooperativas de crédito e outros agentes; os vultuosos recursos do BNDES-PAR para poucos e grandes grupos econômicos; os escândalos de corrupção do mensalão, Lava Jato e outros.
Com isso, a minha permanência no PT foi ficando cada vez mais insustentável. O baixo desempenho eleitoral em 2022 põe fim a mais um ciclo da minha vida. O cenário de polarização nacional e as disputas políticas no estado, mais precisamente no Sudoeste, inviabilizaram nosso projeto. As narrativas do PT, me atacando de “ter mudado de lado” e “ter ido para a direita” por estar na aliança estadual com o governador Ratinho Júnior. Os eleitores anti-Lula e PT não confiaram porque minha história está ligada às causas populares e o meu partido estava na aliança nacional com o PT; os dirigentes das cooperativas da agricultura familiar (que ajudei construir e indiquei vultosos recursos de emendas parlamentares), na sua maioria, formada por dirigentes orgânicos e ideologicamente ligados ao PT, induziram seus associados a votar em candidatos partidários; as cooperativas de caminhoneiros autônomos (as quais dediquei os últimos três anos do meu trabalho), na maioria de seus dirigentes estavam no lado do Bolsonaro e pediam votos para candidatos da sua aliança.
O quarto ciclo está se iniciando agora. Talvez seja o último, não sei!
Aos 61 anos de idade, sou muito grato pelas oportunidades que tive na vida. Minha existência não foi em vão, construí um legado sem sujar meu nome e o de minha família. Tenho muito orgulho disso. Graças a Deus, ainda tenho saúde física e mental para olhar o meu país e ver como posso contribuir.
Não tenho dúvida que a disputa de segundo turno entre os dois extremos não é o melhor caminho para nosso desenvolvimento e nossa democracia. A polarização só contribui para o ódio e a desunião e se transforma em terreno fértil para o surgimento de falsos profetas, como ocorreu nas eleições para deputado — o voto cego.
Quero dialogar, especialmente com os jovens, e pedir para a escolha nesse segundo turno. Contudo, não parem aí! A sociedade brasileira precisa oxigenar a política e construir um novo ciclo, com novas lideranças. Não podemos continuar reféns dessa polarização odienta, doentia e primitiva.
Meu voto será do presidente Lula. Um voto silencioso e consciente, como foi no primeiro turno. As críticas que tenho ao PT e os abusos que fazem contra mim, não mudam minha consciência e o dever com o meu país. Sei que os próximos quatro anos serão bem difíceis, indiferentemente do resultado eleitoral. Vou me dedicar ao tema da segurança alimentar e nutricional — mesmo que seja só no sítio da família.
A agricultura familiar, o empreendedorismo, o cooperativismo e o desenvolvimento regional são minhas paixões. Com isso, espero contribuir para desenhar um novo ciclo na política nacional. Ainda vou aproveitar um pouco da minha aposentadoria do INSS, bem abaixo do teto. Por opção e consciência, não sou aposentado da Câmara Federal, como muitos imaginam. Minha eterna gratidão aos eleitores que depositaram seu voto de confiança em mim no dia 2 de outubro de 2022. Com fé, esperança, e solidariedade, continuarei sendo mais um soldado da justiça e da paz.
Assis do Couto
Francisco Beltrão
Outubro de 2022






Grande deputado Assis. Pena que meu voto foi insuficiente. O derrame de verbas e benesses tem desassociada a função de legislar dos deputados. Poucos ainda enxergam a função do seu correto ângulo fazendo que poucos deputados defendam pautas a favor da população. O desserviço desses fica oculto de baixo de troca trocas eleitoreiros.